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A sociedade sem traumas
 
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Redação, Rio de Janeiro (RJ) · 27/4/2009 · 78 votos · 4
  
A nova psiquiatria é "democrática". Alguém já ouviu falar em urologia democrática? - por FERREIRA GULLAR

[Publicado originalmente na Folha de S. Paulo]

MINHA CRÔNICA "Uma lei errada", publicada aqui, dia 12 deste mês, deu oportunidade a que muitos leitores, ora concordando, ora discordando, manifestassem sua opinião sobre o tema da internação psiquiátrica. Quem leu essas cartas percebeu certamente que a maioria dos que comigo concordam são pessoas que têm experimentado na carne as consequências de uma lei que, embora bem intencionada, em vez de ajudá-las, agrava-lhes o sofrimento.

Dentre as cartas dos leitores, algumas assinalaram a qualidade do atendimento médico nos serviços comunitários de saúde mental, fato que registro com prazer. Minha crítica à lei 10.216/2001, que estabeleceu a nova política psiquiátrica, limitou-se a seu objetivo fundamental, que resulta em condenar e inviabilizar a internação dos pacientes.

Tampouco acredito que a internação por si só resolva os problemas, mas é inegável que, em casos de surto psicótico agudo, essa providência é imprescindível. Ninguém, em sã consciência, acredita que, nesse estado, o paciente possa ser atendido no hospital-dia. Não é difícil prever o que ocorre, em tais circunstâncias, quando a família do paciente não consegue interná-lo. Manter em casa uma pessoa em estado delirante é praticamente impossível. Por isso, as famílias que têm recursos recorrem às caríssimas clínicas particulares. E as que não têm?

Não obstante, a nova psiquiatria intitula-se "psiquiatria democrática". Por acaso, alguém ouviu falar em cardiologia democrática ou urologia democrática? Por que, então, essa adjetivação ideológica dada à psiquiatria? É que, com isso, se pretende afirmar que o procedimento médico que admite internação é antidemocrático e, para acentuar isso, os defensores dessa tese dizem integrar um tal "movimento antimanicomial", ou seja, contra o manicômio, que não existe há muitas décadas já. Mas é preciso satanizar o hospital psiquiátrico -que existe- para mais facilmente extingui-lo.

Cabe, no entanto, indagar por que esse horror à hospitalização do doente mental, quando isso sucede naturalmente com qualquer outro tipo de enfermo, se se faz necessário. A quem ocorreria chamar de antidemocrática a internação de um paciente que contraiu malária ou pneumonia? Se a doença, porém, for esquizofrenia, a coisa muda de figura: para a "psiquiatria democrática", interná-lo é atentar contra a sua liberdade. É que, na verdade, para os antimanicomiais, a esquizofrenia não é uma doença, como o é, por exemplo, a tuberculose ou a diabetes. Para eles, trata-se apenas de um "transtorno" psicológico, cujas causas estão fora do indivíduo: estão na família e na sociedade. Família e sociedade que, para ocultar sua culpa, o internam.

Tanto é assim que a referida lei estabelece o prazo de 72 horas para que a internação seja comunicada ao Ministério Público pela direção do hospital, bem como sua alta. É como se o paciente tivesse sido detido pela polícia. Alguém pensaria em adotar tais providências, ao internar uma pessoa num hospital por outra qualquer doença? Em outro artigo, essa mesma lei exige que "a internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada, quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes". Sim, porque os familiares do doente mental, como afirmou o autor dessa lei, só pensam em se livrar dele.

Enfim, a tese é essa: o que se chama de doença mental não passa de "transtornos", que serão superados na medida em que ao paciente seja dado conviver com pessoas que o tratem como igual e respeitem sua individualidade. A lei não fala em doença mental. Superados os traumas do desajuste que lhe foi imposto pela família e pela sociedade, será reintegrado na vida normal. Mas em qual família e em qual sociedade? Aí está o problema, já que o tratamento teria que se estender à família e à sociedade. Como se vê, por teimarem em ignorar as verdadeiras causas da doença mental, os antimanicomiais defrontam-se com uma tarefa descomunal: criar a sociedade sem traumas!

Não tenho nada contra, mas sou obrigado a admitir que demorará muito e talvez nem seja possível. Enquanto isso, o que faremos com os doentes em estado delirante que, se internados, seriam tratados e protegidos? Hoje, as clínicas psiquiátricas particulares são lugares tranquilos, onde o paciente, ao mesmo tempo que se trata, dispõe de vários tipos de lazer e ocupação terapêutica. Certo seria que o Estado brasileiro oferecesse o mesmo aos doentes sem recursos e sem atendimento hospitalar.



tags: Rio de Janeiro RJ jornalismo-midia ferreira-gullar


 
Escrevo novamente após minha manifestação à crônica "Uma lei errada".

Lá eu já dizia que não há campanha contra internações!

Destaco, novamente que não há objetivo de condenar e inviabilizar internações: não quando elas são necessárias - e sabemos que há estes momentos- não quando elas têm como objetivo cuidar, tratar e contribuir com a vida das pessoas, usuários dos serviços e seus familiares.

Mas somos contra, sim, à divulgação da idéia incorreta de que as internações são a saída única ou a solução para todos os casos e em todo e qualquer momento, ou quando se aceita que as pessoas devam ou possam viver internadas para sempre.

As internações podem ser feitas em leitos de atenção integral, que sejam em hospitais gerais, em CAPS III, ou outros. A regulamentação da lei cria dispositivos que permitem construir uma rede de serviços que contempla as necessidades diversas para momentos diversos.

E somos, sim, contra os manicômios, entendidos no seu mais amplo sentido, desde os prédios e serviços que servem ao propósito de excluir e manter excluídas pessoas que já sofrem por seus problemas até a idéia ampla de manicômios como denominação para a mentalidade manicomial chamada assim por naturalizar a proposta dos manicômios, da exclusão como resposta aceitável para as pessoas e seu suposto tratamento.

Por fim, a psiquiatria democrática foi um movimento da Itália, que nos inspira, sim, mas não ao ponto de adotarmos esta denominação, uma vez que como tudo na vida, tem uma história própria que não é a mesma do Brasil e da nossa psiquiatria.

Mas por vários motivos este adjetivo é pertinente para o que propomos: a psiquiatria avança, mas não chegou ao ponto de poder falar das "verdadeiras causas das doenças mentais"!!!

E, a história mostra que os hospitais psiquiátricos foram, sim, usados - e deixaram que fossem usados - para punir, excluir, violentar pessoas por motivos diversos que não o sofrimento por um problema real. Isso pode ser visto em filmes de todo o mundo, não são os brasileiros e italianos os únicos que apontam estes usos e desusos feitos a partir da existência de tais espaços.

Para esclarecer: o termo transtorno foi e é adotado pela própria psiquiatria que na última versão de sua Classificação internacional de doenças (CID 10) preferiu adotar uma postura apenas descritiva e pragmática para descrever os problemas mentais, justamente por não haver consenso teórico e sim várias teorias sobre as causas destes problemas. Foi por assumir essa imprecisão teórica que o termo transtorno surgiu, pois ele pretende apenas descrever o conjunto de sinais e sintomas de cada transtorno nomeado e classificado ali, sem defender nehuma teoria subjacente sobre as causas. Logo, esse não é um termo criado e nem adotado por nós.

Abraços e um renovado convite a vir conhecer, de fato, as propostas e ações construídas por muitos que acreditam e agem na luta antimanicomial e que acreditam sim que uma sociedade melhor é possível, uma sociedade sem manicômios, reais, mentais, visíveis ou invisíveis.

Andréa

Andréa Romanholi · Vitória (ES) · 1/5/2009 21:12
Redação:
Parabéns!
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Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br

gustavodourado · Brasília (DF) · 21/5/2009 12:15
Enquanto cidadã brasileira, que se preocupa com o andamento das políticas públicas do país, assino embaixo das palavras de Ferreira Gullar, tanto neste quanto no outro artigo anterior citado. Sou vizinha de 3 casas em que há pessoas com transtornos mentais. Trata-se de um homem que vive só, mas não costuma ter nenhum tipo de reação agressiva, de uma senhora, que do mesmo modo nunca demonstrou agressividade para com ninguém, e de uma terceira senhora, que também mora só - ao que consta, sem contato mais com sua família, embora se sustente por uma aposentadoria de funcionária pública - e que, em momentos de surto, costuma ser extremamente agressiva. Nesses seus momentos de delírio maior, ela já chegou a ferir uma criança com cacos de vidro e mesmo chegou a apontar faca para outras pessoas...Por retaliação, o pai da referida criança acabou por destruir o muro de sua casa. Há dias em que, outras pessoas, pelo mesmo desejo de vingança e talvez por não entender a complexidade da questão, batem nesta vizinha. Ela já chegou a sofrer toda a sorte de violência física, justamente por suas crises, crises essas em que, em geral, ela também agride alguma pessoa.Sei que todos devemos conhecer ou ter ouvido falar de um caso semelhante. No entanto, falar abstratamente apenas parece não sensibilizar certas pessoas. Não sei se por muito ingênuas ou por muito afoitas, não entendem que no Brasil, infelizmente (já são mais de 500 anos com folga de experiências e registros históricos nesse sentido), as políticas públicas em geral não saem como o planejado. Talvez até as intenções da proposta tenham sido as melhores (vamos ter fé e acreditar nisto também...), mas por conta de não se levar em consideração este fato (políticas públicas nunca serem cumpridas a contento), quem sofre são as famílias, os vizinhos e, principalmente, o próprio paciente. Ou será que acham que é desejo de algum pai ou mãe que em realidade ame seu filho que ele seja maltratado? Maltrato é deixar acontecerem fatos piores que poderão, aí sim, serem marcantes e condenantes desses pacientes. Irão, provavelmente, da recusa de uma internação necessária (porque urgente) a um "manicômio judiciário"...Lá nos moldes infernais que tanto se quis evitar!

Danielle Castro · São Luís (MA) · 28/12/2009 21:03
Ficaria honrado de compartilhar os meus textos infantis contigo, receber crítica ou voto se merecer.Grande abraço

André Polidoro Pinto · Balneário Camboriú (SC) · 9/2/2010 11:43
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