Publicado originalmente em 22/09/2004 por Heloisa Buarque de Hollanda.
Clique aqui para ler o conto inédito "Pálido e Gelado", de Raimundo Carrero
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA:Raimundo, de onde é que você veio com tanta garra?
RAIMUNDO CARRERO: Eu nasci em 30 de dezembro de 1947, numa cidade chamada Salgueiro, no sertão de Pernambuco, sertãozão, o sertão mais distante.
HBH:E foi lá que você descobriu a literatura?
RAIMUNDO: Foi. Eu tinha um irmão mais velho que era ator de circo e um intelectual seríssimo. Ele me deixou uma biblioteca inteira debaixo dos balcões da loja de roupas e chapéus de meu pai. Ficava horas lendo Zé Lins, Graciliano, Ibsen, Shakespeare.
HBH:Você logo começou a escrever?
RAIMUNDO: Comecei usando os papéis lá da loja. A solidão do sertão é muito grande, é bem diferente da solidão daqui. É uma solidão cheia de sol, de silêncio, mas muito pegajosa, muito pesada. A solidão da cidade grande é sombria, cinzenta. A do sertão é pesada, eu chamo de solidão oca. Parece que dentro a solidão tem outra solidão.
HBH:E o que você fazia com seus escritos?
RAIMUNDO: Demorou até que eu fizesse alguma coisa com eles. Na verdade, comecei como músico. Por volta de 1964, formei um conjunto que se chamava Os cometas. Mais tarde, vim para o Recife e, na década de 70, acabei virando músico profissional. Eu tocava saxofone tenor em baile, num conjunto de Rock chamado Os tártaros.
HBH: Era de música que você vivia?
RAIMUNDO: Vivia. Mas, desde que houve outro problema financeiro na minha família, decidi ser jornalista e me dedicar à literatura. É o que venho fazendo desde então Sou jornalista de batente há 27 anos e não paro de escrever.
HBH:Isso foi bom para sua escrita?
RAIMUNDO: O jornalismo foi a minha grande escola. O jornal disciplina, organiza o trabalho de escrever. No jornal você se exibe, perde o medo. Minha primeira novela chamava-se Grande mundo em 4 paredes e foi escrita entre 1968 e 1969. Foi obra de menino, eu tinha 19, 20 anos, acabado de sair do conjunto, era principalmente um leitor.
HBH: Como você conseguiu ser editado pela primeira vez?
RAIMUNDO: Resolvi mostrar essa novela para o Ariano Suassuna e, antes de ler, ele disse uma frase que eu nunca mais iria esquecer.: " Se eu ler e não gostar, não significa que não presta, significa que eu não gostei." Depois ele me chamou e disse que o escritor estava lá, mas que eu precisava amadurecer.
HBH: Esta novela foi publicada?
RAIMUNDO: Não. Escrevi 4 ou 5 livros que eu não publiquei, no começo da carreira. Graças a Deus. Logo depois conheci o Pessoa de Moraes, autor de Sociologia da revolução brasileira, que me deu um emprego de secretário e, em troca, me pagava cem cruzeiros mais a comida. Foi através dele eu conheci Gilberto Freyre. Mais tarde, fui assessor de imprensa e, em seguida, fui trabalhar com Ariano. Tudo que se pode esperar de um grande orientador, de um grande mestre, tive de Ariano. Tenho até vergonha de lembrar, mas eu chegava na casa dele aos domingos, às vezes às nove da manhã, e saia às nove da noite, estudando literatura, conversando sobre autores. Ele ia buscar livros na estante, anotava meus textos. Era como ter uma universidade inteira aos meus pés. Escrevi, já sob a influencia de Ariano, A prisioneira do castelo, e outros livros que, graças a Deus, não foram publicados. Até que em 1973, fiquei doente e me mandaram para fazenda da minha então sogra, onde eu fui descansar. Foi lá que escrevi meu primeiro romance, em cinco dias.
HBH:E aí não parou mais?
RAIMUNDO: Não. Tive outro período de silêncio. Caí na gandaia, fui beber, fui festejar. Eu estava com 26 anos, tinha tempo para isso. Mas a coisa acabou complicando e me recolhi um tempo numa clínica psiquiátrica, para descansar. Quando saí, escrevi imediatamente outra novela, A semente do sol, o semeador. Não é grande coisa, tem alguns descuidos técnicos, mas a linguagem até que é boa. É típica de um garoto que está saindo de uma crise existencial e religiosa. Depois escrevi uma terceira novela chamada A dupla face do baralho, publicada pela Francisco Alves, que deu um impulso na minha carreira.
HBH: Como você chegava às editoras?
RAIMUNDO: No caso da Francisco Alves, foi através de um convênio com a prefeitura do Recife. Nós fomos até lá e a editora ficou entusiasmada. Meu livro vendeu muito bem, teve até uma segunda edição e chegou a ser traduzido para o inglês. Era um livro sobre a culpa. Eu vinha de um adultério mesmo.
HBH: A culpa é um belo tema.
RAIMUNDO: Belo quando você trabalha. A culpa não é para ser tratada como algo terrível, mas ser trabalhada do ponto de vista cristão, como ponto de partida para a reformulação da alma. Este livro nasceu quando eu tive um enfarte do pulmão, que é uma coisa rara. Fui assistir um jogo de futebol e cai, formou-se um coágulo que acabou no pulmão. E eu, que tenho muito medo de alma de outro mundo, tive um sonho em que um amigo que tinha morrido vinha na minha direção sem falar nada. Perguntei: Só porque morreu não vai mais falar comigo, não? E ele respondeu: Não falei com você porque vim lhe dizer que você vai morrer em 15 dias. Acordei em pânico, tomei um Lexotan, fui para a minha biblioteca e pensei: já que vou morrer em 15 dias, dá tempo de escrever uma novela.
HBH: Você conseguiu?
RAIMUNDO: Tentei. Fui até a metade, mas sentia muita dor. O livro começa assim: "Eu estou aqui sentado na calçada da minha casa, vestido todo de branco, esperando a morte."A partir daí, fiz um balanço da vida de um policial, que se divertia torturando, ofendendo e maltratando as pessoas. E que, na hora da morte, tenta fazer uma reforma da alma. O principal personagem ao lado dele era um menino excepcional, chamado Camilo. Era um menino que joguei para fora do romance umas três vezes, mas ele voltava sempre. Esse personagem terminou assumindo um papel muito importante.
HBH: Seus temas são sempre fortes?
RAIMUNDO: Em 1984, escrevi Sombra severa, que é um romance muito importante na minha vida, por muitos motivos. Primeiro porque trata da traição, do drama, da angústia. Não sei se é porque sou sertanejo, mas tudo isso toca profundamente a minha alma. A presença de Deus em mim é muito forte. A minha casa era bem na frente da Igreja - se eu andasse em linha reta, batia no altar-, fui criado em colégio religioso. Há um livro que me marcou muito: A hora do assassinos, de Henri Miller, que trata de Rimbaud, e do rebelde que é um traidor por natureza. A partir dessa reflexão sobre o traidor e o adultério, temas que já estavam contidos em Na dupla face, comecei tentar escrever a história de dois irmãos, que, no fim das contas, me revelou por que sou escritor.
HBH: Esse livro é inacreditável, fiquei hipnotizada quando li.
RAIMUNDO: Que coisa boa. Nesse livro, descobri que queria matar meu irmão e, como não sou assassino, escrevo. Comecei a trabalhar as imagens do adultério no sentido metafórico. Eu nunca escrevo exatamente sobre uma história, escrevo sobre temas. Ali comecei a construir a figura de Judas, do irmão Abel, da mulher Dina e da sogra Sara. Na verdade, esses personagens todos são eu. Minha vida foi observar essas pessoas pesadas, difíceis. Descobri, de repente, que Judas era um primo meu, uma figura que eu via sentada na frente da porta da casa, com o chapéu sobre os olhos, carregando provavelmente uma enorme culpa nos ombros. Minha infância está toda na primeira parte da minha obra, que vai até Maçã agreste. É Salgueiro inteiro dentro de mim.
HBH: Apesar disso, sua obra não me parece regionalista. Parece mais bíblica do que regional.
RAIMUNDO: Exatamente. A Bíblia é minha fonte. O regional tem compromisso com o documento da região e eu não tenho essa preocupação. Eu me preocupo é com a transcendência da situação do romance e de seus personagens. Tanto que fui estudar justamente a questão dos mitos religiosos, a do grande mito do inocente sacrificado. Não usei Jesus Cristo porque essa é uma imagem desgastada pela literatura e que quebraria a unidade metafórica do livro. Aí escolhi Abel, que também é o cordeiro sacrificado, assassinado pelo irmão. Judas era um personagem de espírito pesado, mas que lia as estrelas e os baralhos. Criei também uma lindíssima personagem chamada Dina, que aparece no Antigo Testamento como personagem que atravessa o deserto num caixão de defunto.
HBH: Não conhecia essa personagem da Bíblia.
RAIMUNDO: Precisei do lado escuro de Dina, que era o passado. Quando você percebe Dina, a carta está sempre virada, porque ela olha para os arquétipos do passado. Aí vem Sara, o meio e o fim do jogo.
HBH: A mistura de Sara com Dina tecnicamente é uma loucura, é lindo. Você não sabe quando sai uma e entra outra.
RAIMUNDO: Fiz um jogo de baralho. Sombra severa nasceu desse jogo com o destino, eu queria identificar aonde é que o destino entra na história, porque a pergunta que eu sempre fiz a mim mesmo é: por que as pessoas matam as outras? Uma das coisas que mais me motivavam na infância era cadeia pública. De manhã, eu pegava um tamborete e ficava conversando com os presos: o que é que faz uma pessoa matar? O que tem nesses olhos, o que é que tem nessa face? Eu tinha loucura para ver o rosto de uma pessoa na hora do crime. É a coisa que mais me fascina, uma angústia que carrego, que ainda hoje me sufoca.
HBH: Você matou alguém?
RAIMUNDO: Já me perguntaram isso. Mas, graças a Deus, sou artista e tenho a chance de fazer minha chacina sem ter que maltratar a humanidade.
HBH: Quanto tempo você leva escrevendo um livro?
RAIMUNDO - Sombra severa eu escrevi de janeiro a novembro.
HBH: Mas ele é muito trabalhado.
RAIMUNDO: Muito. As pessoas que forem ler os meus livros, por favor, comecem pela epígrafe.
HBH: Eu não fiz isso.
RAIMUNDO: Também não faço isso no livro dos outros. Mas, se você conferir, vai ver que a primeira epígrafe fala sobre o traidor, a segunda fala sobre o destino do criminoso, que permanece ao lado da vítima, mesmo na eternidade, o que é terrível. A terceira é de Shakespeare, que fala sobre como as pessoas encarem esse mundo de dor. A quarta é um texto longo de Thomas Mann, que está no livro José e seus irmãos, a respeito do ciclo da vida. Se o livro for lido nessa direção, sem dúvida será outro livro, terá toda uma iluminação interior. É preciso atentar para a figura mágica, sofrida, de Judas, aquele sofrimento que não deixa de ser o meu. Construo meus personagens como se estivesse atuando. Se você escreve, tem que ser sincero até a morte, tem que ser sincero tanto quanto vive.
HBH: Qual será seu próximo livro?
RAIMUNDO: O próximo é sobre a violência das famílias e chama-se O amor não tem bons sentimentos. É de um maluquinho que estupra e mata a mãe e a irmã. Minha primeira decisão quando escrevo é não correr do personagem, não correr de suas reações. Se eu ficar com ele, vou até o final, jogo minha alma inteira, minhas dores, minha solidão de tantas faces.
HBH: É um livro mais urbano, menos sertão?
RAIMUNDO: É. Passa-se em Recife. A partir de Maçã agreste, minha literatura começa a ter uma expectativa mais urbana, ainda que um urbano muito ligado ao rural, até porque eu tenho muito medo da vida urbana. A relação urbana me parece surda por natureza. O sertão, o rural, é mais pegajoso, as pessoas estão na alma das outras o tempo todo.
A literatura hoje anda muito tagarela, fala demais. Ao contrário, seus personagens são mudos, têm um silêncio profundo, uma densidade grande, muitos não ditos que pegam a gente de surpresa.
Meus personagens não falam. Sempre acreditei em elipses. É aí que está a literatura, não na palavra escrita, é no abismo entre uma palavra e outra, esse abismo que forma a loucura.
HBH: Isso vem do ethos sertanejo?
RAIMUNDO: Certamente. No sertão, as pessoas são magoadas com o silêncio e amam o silêncio. Sobre isso há um depoimento muito bonito de Graciliano Ramos, publicado nos Arquivos Confidenciais da revista O Cruzeiro. Ele conta que o modelo para Vidas secas está em um tio e uma tia que se amavam demais, mas não se falavam, que não trocavam um beijo, que não trocavam um abraço. Eles nem se olhavam quase, e, no entanto, a ternura e o afeto que havia entre aquelas pessoas era algo que o espantava. Cidade tem umas coisas tão bestas, tem palavras que eu odeio: interagir, interface, comunicação, palavras muito feias.
HBH: Mas você acha que hoje se pode fazer uma literatura sem o impacto desses modelos?
RAIMUNDO: Veja bem, a atividade de um escritor não é a de crítico, é de observador, de analista, ele deve refletir sobre o que significa isso tudo. E foi por aí que comecei a trazer essas vozes para minha ópera. A partir de Somos todos pedras que se consomem, comecei a trabalhar com vozes contemporâneas. Peguei todas essas vozes e fui ver que país é esse. Passei um ano só lendo, estudando, anotando. Assinei O Estado, Folha, JB e O Globo, e as duas revistas da época, que eram a Veja e Isto é. Comecei a analisar o comportamento da sociedade e me abismei. Tem uma atriz que diz na Veja: "Eu conheci um fotógrafo numa festa, e aí quando eu cruzei com ele, eu arriei a calcinha, e foi ali mesmo..." Imagina um sertanejo, de repente, ver tudo isso...Eu comecei a ficar assustado. Além disso, a maldade, a violência, é demais. Em Brasília, os bandidos seqüestraram uma criança de 2 anos, queimaram e, quando a policia veio (até fiz um poeminha sobre isso no livro), só encontrou 300 gramas de criança. Foram essas vozes, essa loucura do mundo contemporâneo, que me levaram a escrever sobre as pedras que se consomem como uma visão da descida ao inferno. Depois escrevi Os extremos da cruz, que é um livro mais didático, e As sombrias ruínas da alma, que tem uma unidade interior muito forte, que começa na saída do ventre materno, passa pela iluminação, entra nas ruínas, que é, naturalmente, o final de quem cumpre uma vida completa da infância até a velhice. Publiquei também, no final de dezembro, Ao redor do escorpião, uma tarântula, que recebeu muitos elogios, mas também causou algumas divergências
HBH: Você continua trabalhando na linha das descidas ao inferno?
RAIMUNDO: Não mais. Esse personagem que vem agora, Matheus, é muito inquieto...
HBH: Voltamos à Bíblia?
RAIMUNDO: Sim, porque a minha obsessão religiosa é muito forte. Meu novo livro de contos, Os deliciosos peitinhos murchos, deve trazer dois contos que para mim são significativos, um sobre Frei Caneca e outro que é uma nova historia sobre Santo Antonio, que é meu santo. Eu já havia feito um conto sobre ele chamado "Uma vida escondida em Cristo", e agora volto de novo porque, a partir da leitura de seus sermões, pude construir uma visão da psicologia dele não como um santo popular, mas como um doutor da Igreja.
HBH: Você começa sua trajetória literária pela densa ética do sertão, passa pelas vozes contemporâneas e agora está fechando o círculo?
RAIMUNDO: Eu estava olhando o mundo pela calçada. Precisei entrar de novo na sala. Eu estava muito perto da luz e isso faz mal, o escritor tem que dar sempre um pouco de recuo.
HBH: Quais são os seus autores preferidos?
RAIMUNDO: Meu autor de todos os tempos e momentos é Dostoievski.
HBH: E entre os mais contemporâneos?
RAIMUNDO: João Gilberto Noll e Antônio Torres. Conheci agora na Festa Internacional do Livro de Paraty um autor novinho, do Rio Grande do Sul, o Daniel Galera, de quem também gostei muito.
HBH: Você gostou de ter participado da FLIP?
RAIMUNDO: Talvez essa seja uma visão de um matuto, mas, para mim, foi arretado. Falei durante duas horas e li o conto Os deliciosos peitinhos murchos, que dá o título do meu novo livro. A FLIP me colocou direto no caminho de Deus. Por isso escrevi um artigo no site da Globo sobre o fracasso, a vaidade e a mentira na vida dos escritores. A coisa que mais tenho medo é de cair no conto do sucesso. Sou muito vaidoso. Então fico angustiado, rezando o terço, para poder me livrar disso. O perigo do escritor é virar festa, ele tem que de vez em quando dar um volta e deixar o bloco passar.
HBH: E os novos autores de Recifes? Existe uma literatura mangue beat?
RAIMUNDO: Até onde eu possa conhecer, acho que não. Mas tem novidades por aqui. Uma tendência que me parece muito boa é de um grupo chamado "A mula manca e a triste figura". Eles fazem música com literatura, com a participação de poetas. Me pediram para gravar um CD onde leio o texto de Dom Quixote. Tem também a Micheline, que fez um CD e que é uma poeta muito forte, da cidade de Arcoverde, do sertão de Pernambuco, e que agora está fazendo um mestrado na PUC de São Paulo. Sem dúvida aqui está se produzindo uma literatura subterrânea e boa. Nesse campo, temos um contista chamado Carlos Magnata, que é muito bom e publica em blogs. Já que a imprensa não tem mais espaço para contistas, para poetas, o caminho é esse mesmo. Eu também gosto de blog e até tenho um:
www.aoredor.blogspot.com. É onde digo coisas, mando recados, converso sobre literatura.
HBH: Como um escritor daqui, com a obstrução dos canais Rio-São Paulo, faz para ser lido no resto do país?
RAIMUNDO: Em Paraty, Lygia Fagundes Telles fez uma palestra brilhante. Ela falou sobre Capitu e a literatura de Machado de Assis e, numa hora lá, disparou: para escrever, tem que ter talento, estudo e sorte. E mais: um matuto disse que a sorte é um cavalo selado que passa correndo, se você for bem preparado monta e vai embora. Foi o que, pessoalmente, fiz.
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