Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 11/12/2006.
Dois autores experimentaram a convergência da poesia com outras mídias em seus sites. Preste atenção no que eles têm a dizer sobre essa nova linguagem.
Com a convergência cada vez maior e mais rápida dos suportes, graças às novas tecnologias, as artes entraram num caminho que ainda não podemos vislumbrar, senão perceber alguns de seus rumos. Assim como há uma discussão sobre a arte digital e seu lugar dentro das artes plásticas, a experimentação poética em interação com imagens, textos, áudios, texturas vem crescendo exponencialmente com o desenvolvimento de novas formas de interação e capacidade de suporte de vídeo e áudio, sobretudo com a expansão da banda larga.
O Portal Literal conversou com Álvaro Andrade Garcia e Aguinaldo Araújo, que vêm desenvolvendo projetos e experimentando formatos que unem a palavra poética com outros suportes. Álvaro desenvolveu o
Sítio de Imaginação, ao tempo um site e uma interface de criação poética, com o objetivo de realizar a convergência de todas as mídias artísticas e a criação coletiva no ambiente da web. Ele trabalha com poesia em meios digitais há 20 anos e deu uma oficina a respeito no Festival de Inverno da UFMG, em Minas Gerais. Aguinaldo é fotógrafo desde os anos 70, quando trabalhou na Editora Bloch, e na década seguinte, no
Jornal do Brasil, e tem desenvolvido projetos autorais com fotos e textos, como o
livri, "o livro livre na internet", que, depois de desistir de tentar publicar no formato usual, vem disponibilizando na rede. Nas entrevistas abaixo, ambos comentam estas e outras questões relacionadas ao tema.
Como começou e se deu o interesse pelo potencial das novas tecnologias para veicular poesia?
Álvaro Andrade Garcia. O usual é recorrer a uma tecnologia para resolver um problema que você tinha antes dela, e na maioria das vezes as pessoas se esquecem que uma nova tecnologia pode mudar a forma de se criar e fazer, e nesse sentido, o problema original resolvido torna-se um ponto pequeno diante das novas possibilidades que se abrem. Na década de 80, quando dava meus primeiros passos na escrita, comprei um PC XT para escrever um livro de prosa. Imediatamente percebi que poderia usar a tela do computador para escrever videopoesia. Conectei o computador a um videoprojetor e tinha em mãos uma espécie de anti-outdoor poético, com os recursos de temporização, escrita não linear, animação, etc, propiciadas pela exibição do texto no monitor e não mais na página impressa. (Veja textos e um pouco dessa história aqui).
E daí fui acompanhando quase tudo que ocorreu nestes férteis anos em que a mídia digital chegou e se consolidou. Com os softwares de autoria de multimídia podíamos acrescentar aos textos vídeos, áudios, componentes gráficos. Com a internet podíamos ter o conteúdo distribuído à distância... O hipertexto radicalizava a quebra da linearidade e criava novas possibilidades associativas e de construção de poemas. A produção de vídeo e áudio digital tornaram-se tão caseiras quanto ter uma velha e boa Remington. Na minha trajetória pessoal, caminhei da literatura para o audiovisual e para a multimídia, dirigi dezenas de projetos de CDs, DVDs, e portais com conteúdo cultural e web documentários audiovisuais, fiz roteiros, editei vídeo e áudio e, principalmente, convivi e trabalhei estreitamente com cinegrafistas, diretores de fotografia, editores, músicos, programadores, designers, animadores, atores e jornalistas. Linguagens e formas de produção foram trocadas nessas experiências.
Poderia falar um pouco dessa "evolução" da técnica, desde quando iniciou estas pesquisas ainda na década de 1980 até os dias de hoje?
Álvaro. O computador é uma ferramenta e uma interface muito nova e em construção. Para o leigo em informática, interface é aquilo que faz a tradução entre meios heterogêneos. No caso, o homem e as máquinas computacionais que criou, e também a integração das diversas linguagens que também o homem criou. Chegou há pouco tempo e se transformou enormemente nesses poucos anos, aumentando a resolução e a potência, o armazenamento. Em 1987, o PC XT fazia poemas em telas de 320 x 240 pontos, com 16 cores, só tinha disquetes de 360 k para armazenar, pouca memória. Não havia software específico para criação da arte que veríamos no computador, não havia web, editoração eletrônica, vídeo digital, telas planas e de alta resolução, suporte para áudio, conexões velozes. A internet era ainda uma ilustre desconhecida do público. As mudanças e inovações no meio digital são algo exponencial... e não vejo ainda sinais de que vão ficar mais espaçadas e sutis. Estamos no olho do furacão e a convergência de meios e artes está apenas começando.
Como você trabalha a convergência? Há alguma prioridade?
Álvaro. Penso que o grande barato é convergir no sentido de integrar os meios e linguagens existentes num novo meio e linguagem e não apenas sobrepor ou transpor. Nesse sentido uso a metáfora da mente para trabalhar essa integração. Imagens descategorizadas, interação de linguagens que pavimentam um novo caminho. No meio digital podemos criar realmente obras abertas, que podem quebrar preconcepções e desintegrações que hoje existem, muitas vezes condicionadas historicamente, muitas vezes condicionadas por tecnologias de outras épocas. Na nossa cabeça não sonhamos, nem pensamos, nem sentimos em apenas texto, som ou imagem visual, ou olfativa, o que passa pela nossa consciência e inconsciência são combinações diversas de mixagens e sequenciamentos, narrativas e fragmentações, falas e silêncios, construídos com todas as imagens que nos chegam dos sentidos e da memória, que fluem em níveis diversos de predominância e interação. A prioridade é definida pelo conteúdo, pela sintaxe e talentos infinitos da mente, e não por alguma hierarquia entre linguagens ou formas de arte.
O Sítio é um software para a construção da ideografia dinâmica, proposta por Pierre Levi, mas ao contrário dele, que privilegia o audiovisual na sua proposição inicial, penso que não há esse a priori nos meios digitais. Todas as imagens são válidas, inclusive as que ainda não estão nesse meio, mas estarão, como as imagens olfativas, proprioceptivas e outras que surgem com as próteses sensoriais mediadas por sensores eletrônicos. E embora muita gente hoje esteja pensando e explorando essas fronteiras, a grande maioria de tudo que ainda escrevemos e lemos na internet se dá em representações de formas que já existiam anteriormente. São metáforas já surradas, como a da página gráfica e tantas outras.
Você fala em "quebrar as metáforas já surradas da página gráfica e outras usadas nos softwares em geral, construindo uma interface mais intuitiva e mais 'humana'". Quais seriam estas "metáforas já surradas" e no que consiste esta interface mais "humana"?
Álvaro. Nessa evolução digital, o computador passou por importantes fases de mudanças na sua utilização, e conseqüentemente na sua interface. Começou visto como uma ferramenta de cálculos e armazenamento de dados, sua interface era a linha de comando. A metáfora para os dados era a dos arquivos e fichários que existiam fora dele. Você escreve o comando aperta enter e o computador executa. Aí, depois veio o Mac, o Windows e surgiu a nova fase. O computador se tornava também uma ferramenta de trabalho. Surgiram e se tornaram populares os processadores de texto, planilhas, softwares de editoração eletrônica e tantos outros. A interface muda, tela colorida, com gráficos de alta resolução, mouse, a metáfora é o desktop, a mesa de trabalho. Na tela, representações das ferramentas que você usa. Por exemplo, para escrever ou desenhar temos ícones de canetas, pincéis, lápis, borrachas, lixeiras, e por aí em diante. E finalmente surge o uso do computador como veículo de comunicação. Internet, multimídia, vídeo, áudio, mp3, downloads. O computador ganha mais um uso e sofre novas mudanças, e ganha novos softwares como os de autoria de multimídia e de construção de sites. Mas se a gente for reparar bem, a interface continua a mesma, que vem há décadas, apesar de tantas evoluções.
Ainda hoje continuamos com a mesa de trabalho e as metáforas dos ícones representando ferramentas. Os navegadores de internet foram feitos para exibir páginas, com textos e gráficos. Para áudio e vídeo surgem novas metáforas, surge a idéia do stage, o palco, onde as imagens são exibidas e animadas numa linha do tempo e interagem entre si conforme a programação do software. Surgem consoles de mídia como o Windows Media, Winamp, Quick Time, tocadores de DVD, mp3 players, telefonia por IP, todos abrindo em janelas e com cara de 'controle remoto', como costuma também ocorrer em muitos games.
Paralelamente as inovações vêm acontecendo. Uma delas foi a popularização do hipertexto, termo cunhado por
Theodor Nelson, que propõe novas concepções para a construção de documentos eletrônicos. A partir da explosão da internet, esta é uma palavra e forma de interagir com as informações que se torna conhecida de todos. Logo depois veio a hipermídia. A navegação pela informação não se dá apenas passando páginas ou adiantando e voltando vídeos e áudios em playlists. Imagens e textos podem, de forma cada vez mais complexa e sofisticada, estar associados e interagir. Isso é uma mudança e tanto.
Como tantos pioneiros da revolução digital pregaram e pregam, caminhamos a passos largos rumo a uma nova interface, que cada vez mais nos aproxima da forma como pensamos. Não é a toa que o clássico dos clássicos da multimídia, de Vannevar Bush, de 1945, se chama
As We May Think. Neste texto, o autor propõe o desenvolvimento da Memex, uma máquina adiante do seu tempo, que não só armazenaria o conhecimento científico, mas que permitiria armazenar as associações que os cientistas fazem entre elas, como fazem nas suas cabeças navegando pelo conhecimento, e não como era feito nos sistemas de armazenamento que até então existiam para bibliotecas, sistemas de informação e outros.
Entretanto, como o próprio Theodor Nelson diz, ainda estamos muito presos ao papel no meio eletrônico, e diante das possibilidades desse meio isso ainda é muito rudimentar. Segundo ele, podemos pensar que a literatura trata da produção de documentos que portam idéias, construídas por homem para homens e nesse sentido, podemos ler/escrever no meio digital de novas formas. E assim sempre foi. Escreveu-se em pedras, papiros, folhas de papel, com penas, canetas, máquinas de escrever e reproduzir que são mecânicas, como a tipografia, o off set. E se escreve não só com o texto que conhecemos, que é uma tecnologia herdada dos fenícios, mas também com diversos outros sistemas, como a ideografia dos chineses, como a língua "escrita" de alguns povos ameríndios, que não conheciam o texto como o entendemos, mas já escreviam com a matemática e com pinturas e esculturas feitas com ouro. Antes da imprensa, os textos eram copiados e editados por quem copiava, enfim, o texto impresso como o conhecemos hoje é apenas uma das inúmeras possibilidades resultante de processos históricos e tecnológicos. (Veja mais no meu ensaio
Poesia e Tecnologia, de 1994). As experiências e a diversidade sempre existiram e as vanguardas poéticas sabem disso e sempre estiveram explorando essas linhas de fuga.
Outro problema ocorre com o hardware, que vem se transformando, mas ainda precisa mudar muito para se tornar mais apto a lidar com essas novas possibilidades de forma plena, potenciando seu uso como instrumento de comunicação. É nesse contexto que entra a minha experimentação e o trabalho do Sítio de Imaginação. Como construir obras-software que possam ser escritas/lidas usando os recursos desse novo meio, sem evidentemente desconsiderar os outros possíveis. Obras abertas, integradoras e pensadas desde o início para criação, difusão e transformação 100% em meios eletrônicos digitais.
Na experiência de construção do Sítio tenho trabalhado com imagens que extraio do mundo real e as articulo a partir de uma sintaxe mental. É perfeitamente demonstrável que estas imagens, recombinadas e interagindo entre si mediante uma sintaxe mental, criam novas imagens, na dimensão do virtual, visto aqui não como algo que não é real, mas sim como algo que passa a se direcionar pela sintaxe da mente, e que também é real. Por exemplo, no mundo físico, a distância é medida em metros e centímetros, mas no mundo da informação eletrônica, a distância é medida pelo número de interações para se mover de um nó de informações a outro, já que tudo pode ocorrer em velocidades instantâneas. No mundo físico trabalhamos em 3d, 4d se pensarmos na dimensão do tempo, como Einstein fez. No mundo mental as imagens se conectam e criam espaços multidimensionais. Isso é uma revolução incontestável. É uma porta aberta para o infinito.
A palavra poética não daria mais conta da expressão em tempos que a imagem parece se sobrepor a (quase) tudo?
Álvaro. Na minha opinião a palavra poética ainda vai dar conta da expressão de muita coisa e por muito tempo. Especialmente num mundo cada vez mais imediatista e visual. E essa "imagem" que parece se sobrepor a quase tudo se refere basicamente à imagem audiovisual midiática, uma imagem que tende cada vez mais para a anestesia a partir da saturação dos sentidos. A imagem hoje é uma mercadoria, com copyrights, donos, grandes empresas nos tarifando por seu uso. Nesse contexto capitalista, onde os "patrões" se apoderam do controle da criação e reprodução de imagens, a lógica é: quanto mais melhor, quanto mais rápido melhor. A informação é uma mercadoria siderante. Estamos perdendo o silêncio, a reflexão, estamos deixando de ter acesso às imagens que realmente interessam, submersas numa montanha de lixo. Um texto que escrevi em 1996,
Multimídia, Imaginação e Poesia Zen trata um pouco da minha preocupação com essa "imagem" midiática, totalizadora, que vem predominando na civilização contemporânea, inclusive no meio digital.
Além disso, essa é uma boa pergunta que ajuda a discernir como uso a palavra imagem no contexto da minha criação no Sítio de Imaginação. Uso a palavra imagem no sentido mental que ela tem. Aqui faço uma confluência das artes em meio digital e os avanços recentes na neurociência. "O processo a que chamamos mente... é um fluxo contínuo de imagens, muitas das quais se revelam logicamente interligadas. O fluxo move-se para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada, e algumas vezes, avança não apenas numa seqüência, mas em várias. Outras vezes, as seqüências concorrem, convergente ou divergentemente, e algumas vezes sobrepõe-se. O pensamento é uma palavra aceitável para traduzir um tal fluxo de imagens", nos diz Antonio Damásio. "O termo imagem não se refere apenas à visão... Pelo termo Imagem quero significar padrões mentais com uma estrutura construída com a moeda corrente de cada uma das modalidades sensoriais: visual, auditiva, olfativa, gustativa e somatosensorial ... que inclui vários sentidos: tato, muscular, temperatura, dor, visceral e vestibular... A palavra imagem não se refere apenas às imagens visuais e não se refere apenas a objetos estáticos... Quando utilizo o termo imagem, quero sempre significar imagem mental."
Nesse sentido, imagem, no meu campo de exploração e expressão seria uma forma infra-linguagens tais como o texto ou o audiovisual, ou melhor, as imagens são elemento de construção de todas as linguagens conhecidas. Todas as pesquisas indicam que a imagem como ela 'ocorre' na nossa mente é descategorizada, desierarquizada e combinante, sem nenhuma predileção. Significa que construir poemas, ou como chamo pensamentos, usando as imagens de forma integrada e interativa, unificadas em função de sentido e articuladas em uma nova linguagem é um novo campo para a expressão poética e de todas as outras formas de arte conhecidas até então, já que o meio digital é o meio de convergência e intertradução mais poderoso jamais criado. Seria buscar desenvolver uma linguagem para lidar com uma "telepatia" mediada por interfaces, hardwares e softwares, desenhados cada vez mais para lidar com essa possibilidade. Mais sobre isso e uma boa bibliografia você pode encontrar no meu ensaio
A Oitava Arte: A Arte da Imaginação.
Um horizonte imenso que se abre para a exploração poética. Onde, além do entendimento de poesia como arte explícita do texto, possamos ler/escrever poemas no mesmo lugar, coletivamente. Imagens que se expressam através de todos os possíveis meios e linguagens disponíveis, se estruturando numa nova e poderosa linguagem. Podemos entender poesia também de uma forma mais ampla não? O senso comum já faz isso. Não ouvimos referências a um cinema de poesia, a MPB não é fértil campo para difusão de poemas... com o encontro desses suportes creio que é possível fazer poemas que ganham intensidade e significação. Significa que poetas podem trabalhar estreitamente com outros artistas que têm expertise em outras áreas.
O importante é começar sem premissas, e assim faço. A poesia não é para estar abaixo ou acima de outras linguagens, ela é para estar entre, em. A imersão é uma boa palavra para esse ágora. É como se nós estivéssemos dentro dos pensamentos que criamos e compartilhamos. Dando alguns exemplos. No pensamento A Palavra Viva, no Sítio de Imaginação, um poema é declamado enquanto uma outra leitura dele, sintética e animada ocupa a tela visualmente, pontuando momentos com suas palavras-chave. A declamação explora a sonoridade, as rimas e ritmos enquanto a visualidade fica livre para explorar outras questões. Nos pensamentos Minas Bósnia e Guerra na CNN o texto animado é escrito na tela, enquanto um fluxo de audiovisual nos mostra imagens e sons que criam uma ambientação que dialoga e potencia o texto escrito. Outras vezes, como em Noturna, o pensamento é apenas uma música, que serve como um menu, associando diversos outros pensamentos a partir dali. Posso só ouvir a música, ou usá-la para navegar. No Buda da Palavra, uma imagem fixa e transparente de uma Nossa Senhora com Cristo, reprocessada a partir de afrescos de igrejas cooptas da Etiópia, serve de fundo para um buda em vídeo, que tem uma vara com uma chama na ponta. O texto passa na tela e constrói um sentido único com estas imagens. Vários destes poemas eu publico também em livros, por que a circulação num meio não inviabiliza os outros. E as imagens que lá estão, incluso o texto, podem infinitamente ser editadas por mim e pelos outros leitores/autores.
Poderia falar sobre a oficina que aconteceu no Festival de Inverno da UFMG?
Álvaro. O Sítio de Imaginação é um ágora de criação e difusão de imagens através de pensamentos que vão sendo construídos continuamente, de forma orgânica, hipertextual, por autores/leitores que se constituem em comunidades que mutuamente incluem, apagam, editam e associam indefinidamente os conteúdos de uma obra realmente aberta. Nele é possível fruir pelo resultado dessa ação de forma bem intuitiva, com o uso do mouse e agora também do joystick de videogames. Para o leitor que também quer ser autor, o Sítio contém ferramentas para upload, gerenciamento e manipulação de imagens, produção de sequências animadas de imagens, chamadas de pensamentos, e gestão de comunidades, que são grupos análogos aos que se criam nos blogs ou comunidades como o Orkut. Um espaço para o diálogo entre poetas, músicos, diretores de audiovisual, web designers, programadores de software, atores etc.
O Sítio pode ser um descanso de tela, um quadro cinético, um player de filmes, tocador de músicas, distribuidor de livros, uma estação de televisão digital... Uma coisa aprendi nesses anos, quando me perguntam o que sou. Poeta? Diretor de multimídia? Software designer, artista digital. A profusão de nomes que eu e outros artistas digitais recebem indica que o novo nome ainda não surgiu. Estou propondo um possível: Imaginação. Como um filme, um livro, uma peça de teatro. Vamos fazer imaginações.
Esse ano o tema do Festival foi interatividade e integração de artes. Curiosamente vemos uma grande quantidade de oficinas que tratam do meio digital e também da poesia. Afinal, são meio e linguagem bastante potentes para essa intermediação. Nesse contexto, fui convidado pela UFMG para discutir esses novos conceitos com um grupo de criadores das mais diversas áreas que, constituído numa comunidade, irá produzir um roteiro e executar a construção de um conjunto de pensamentos articulados conforme esse roteiro. On line, a construção desses pensamentos estará disponível na web, no Sítio, e também numa videoinstalação onde estes pensamentos serão "manuseados" pelos visitantes usando um joystick. O resultado dessa "discotecagem" será projetado em diversos lugares da cidade histórica de Diamantina e se incorporará aos pensamentos que já existem, que publicamos no site em atualizações mensais.
Como tem sido o interesse e o retorno dos leitores ao Sítio de Imaginação?
Álvaro. A recepção ao trabalho tem sido muito legal. Há muita gente interessada nesse nosso horizonte. Hoje o Sítio recebe um público mensal que gira em torno de 3.000 visitantes e temos uma comunidade cadastrada de 1.500 pessoas que mensalmente recebe notícias e nos visita. Temos ainda poucos "criadores" fora da nossa comunidade original (o ateliê Ciclope). É aquela história. O Sítio não é difícil de usar, posso ensinar qualquer um (inclusive crianças e leigos em computador) a navegar em menos de 1 minuto. Gasto de 1 a 2 dias para ensinar uma pessoa informatizada a criar e montar seu próprio conteúdo. Entretanto, a resistência para aprender algo completamente diferente do que se está acostumado é sempre um desafio. Envolve aprender e desaprender. Por isso começamos a dar oficinas em torno disso e a divulgar o trabalho.
Iremos ainda melhorar bastante as ferramentas de autoração, que na minha opinião ainda estão complexas e pouco práticas. Há um grande espaço para melhorar. E isso é digno de nota, nossa obra é um software, que acaba de sofrer um grande upgrade com a versão 4.0. Eu, entretanto, já estou sonhando com a 5.0... Não é assim, o Word, por exemplo, não vai mudando com o tempo?
Ao longo da construção da obra temos enfrentado outras dificuldades, que desestimulam sua utilização, como a baixa velocidade da internet e a potência dos computadores. Basta pensar que só muito recentemente a web entrou na febre da banda larga e do audiovisual, e se pensarmos, por exemplo, que construimos pensamentos que mixam e animam em tempo real fluxos que contém 2 vídeos, 3 áudios, 5 textos... dá para saber que isso é problemático em conexões lentas e computadores pouco potentes. Mas é um preço que temos que pagar para estar na ponta, não?
Felizmente o curso da evolução dos meios digitais é rápido e caminha na nossa direção. Hoje, as máquinas são potentes suficiente, há softwares poderosos para o desenvolvimento das ferramentas e versões. Conexão de banda larga, CD e DVD player, suporte a áudio e conectividade em rede são itens obrigatórios nos computadores vendidos. O uso intenso da web, dos blogs e comunidades virtuais, dos mp3 players baseados em playlists e outras ferramentas vão familiarizando nossos leitores/autores com os recursos que utilizamos na obra. Estamos no movimento criado com o software livre, estamos criando uma opção para essa mídia engessada e dominadora que se configurou nesses tempos de globalização neocapitalista. Estamos entre aqueles que propõe opções. É uma questão de tempo para o Sítio e seus conceitos se propagarem, junto com todo esse movimento.
E para aqueles que acharam que a poesia estaria morrendo com os novos meios: vocês estavam enganados. Aqui estamos, como sempre os poetas fizeram e fazem, escrutinando o novo e dialogando com as outras artes. Poiesis é fazer. Mãos à obra.
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Como surgiu a idéia dos Livros Livres?
Aguinaldo Araújo Ramos. Poderia dizer que a idéia de inventar o
livri, "o livro livre na internet", com as devidas aspas, foi mera conseqüência de ter, finalmente, uma conexão banda-larga disponível para uso pessoal... Por outro lado, decorreu da massa crítica de trabalhos fotos & textos acumulados, que não encontravam escoadouro. Entre esses extremos, está o fato de não adiantar nada ter um material na gaveta (ou nas pastas de plástico sanfonado...) que ninguém lia/via, que não vendia, que não dava qualquer retorno. Agora pode não dar retorno, mas é certo que uns e outros leram/viram. Ou lerão/verão...
Você toca numa questão essencial sobre o mercado editorial de livros "de arte" ou "de fotografia", que são muito mais caros e geralmente feitos através de leis de incentivo e utilizados por empresas como "presente de fim de ano". O que acha que poderia ser feito para alterar essa realidade?
Aguinaldo. Antes de mais nada (se não fôssemos já uma "república empresarial"...), a proibição do uso do dinheiro incentivado em projetos institucionais das próprias empresas (acho que já é, só que "a lei não pegou", não?...). Além de ser um cabotinismo corporativo, permite um acúmulo patrimonial com uso do dinheiro público, que é, no mínimo, um mau exemplo... Afinal, se tantas outras atividades não-finais das empresas têm sido terceirizadas, por que razão têm elas os seus próprios "institutos culturais"?... Reconheço a importância da iniciativa privada, especialmente pela agilidade em atender novas demandas culturais. Mas, quanto ao apoio direto aos criadores, é preciso ter um olhar mais social. Certa vez, fotografando Augusto Boal, ouvi dele uma idéia, bem simples, e que, até agora, me parece a melhor, no sentido de equilibrar interesses privado e público. A idéia seria dividir o dinheiro decorrente da renúncia fiscal em duas partes (digamos, meio-a-meio). As empresas usariam a primeira parte da forma atual, decidindo quem patrocinar. A segunda iria para um fundo administrado por conselhos representativos da sociedade, da cultura, das artes etc., ainda que no âmbito do Ministério da Cultura, que promoveriam, no geral, algo como "concursos públicos". Além disso, fariam "investimentos localizados" em manifestações culturais menos evidentes, em grupos tradicionais etc. De certa maneira, uma atividade típica do Estado, mas, no caso deste fundo, através de ampla e democrática discussão dos interessados.
Você fala em democratizar a arte, mas a internet ainda é altamente concentrada, com pouco mais de 10% dos brasileiros com acesso a ela. Que outras formas poderiam ser pensadas para democratizar o acesso a arte?
Aguinaldo. Tirar da gaveta e não cobrar nada já é "democratizar a arte", pelo menos, a minha... Experimentei fazer a piadinha "quem quiser dar uma nota a este trabalho, deposite na conta tal", mas não fez o menor sucesso. Antes de mais nada, acho, porque estamos todos (até a maioria dos que têm acesso à Internet...) com muito pouco dinheiro. E temos que ser, necessariamente, muito seletivos com ele. Mas, também não creio que quem publique um livro atinja muito mais do que "16% dos brasileiros", se é que chega a tanto, salvo medalhões globais ou marketeiros eficientíssimos. Valia a pena uma pesquisa... A única coisa que democratizaria a arte no Brasil seria uma melhora na distribuição de renda. Discute-se agora, por exemplo, cotas raciais (o que tem sua validade como forma de distribuir poder), mas ainda não entrou em pauta (do governo, da mídia, da elite?...) a distribuição de renda. E olha que, ao contrário do futebol, nisso nós somos campeões...
No seu caso, a interação se dá entre a palavra poética e a imagem, muitas vezes também poética. Pretende ficar restrito a este modelo, formato, ou pensa em expandir as possibilidades de convergência e interação que esta nova mídia proporciona?
Aguinaldo. Temos o avassalador avanço da imagem em movimento. Mas, sempre, praticamente, em concatenação com as palavras. Que podem ser faladas, como na TV, ou escritas, como (por quê não?...) nos anexos em Power Point que pululam na Internet. Fui criado no interior da relação imagem-texto. Fora o livro tradicional, só palavras (salvo a capa...), todas as minhas formas de acesso ao mundo são relações imagem-texto. Do gibi até, hoje, o celular. Tenho minhas limitações, não domino tantas linguagens. Na minha cabeça, tendo sido fotógrafo por mais de trinta anos, o formato revista é campeão... Tenho mais alguns livris prontos (ou quase) para editar, foto e texto. Talvez, depois disso, por falta de pique, fique mesmo só nas palavras...
Outra coisa é o caminho. Como você mesmo pontua, "Todos [estão] disponíveis em computadores ligados à Internet, embora não se saiba como muita gente vai chegar até eles...". O que pode ser feito para abrir estes caminhos?
Aguinaldo. Aceito sugestões. Descrevo meu processo de divulgação, o que talvez ajude... Sei que dá trabalho. Acumulei, fora os amigos, uns 2.300 endereços (surrupiando de listas imensas, para as quais as pessoas mandam seus anexos "engraçadinhos") e poderia ter conseguido mais. Mandei e-mail a todos, convidando a conhecer o primeiro livri,
Pão de Açúcar Tempo Todo. No segundo,
A Paixão Dança, não devo ter chegado à metade. Aprendi que toma tempo e dá muito chabu... E concluí que talvez a maioria (e cito os amigos, de que tenho retorno), dá uma olhada e diz que vai ler depois. Não os culpo, não escolheram, não pediram nada... Mas, registro, muitos retornos foram animadores e, mesmo, comoventes. Procurei ainda os "formadores de opinião", para ter, o que foi bom, alguma notícia quanto à qualidade do material. Colaborei ainda, por exemplo, com uma revista digital (aliás, já antes de lançar o livri), a
Palavril, um espaço simpático, mas não faço idéia de quem lê... E circulei pelo mundo dos blogs, conhecendo melhor as regras do jogo (ainda que soubesse que meu conceito era diferente) e me divulgando também. Esses, os blogueiros, são muito menos que 16% dos brasileiros, mas, felizmente, meio que se bastam entre eles... Em suma, fiquei no âmbito da Internet, embora achando que ela é, a princípio, fechada. Mas, é claro, há portas, as próprias pessoas são as portas para o mundo lá fora. O trabalho e o nome, de alguma maneira, circula. Ah, mas, bem que eu (radicalizando...) adoraria espalhar uns outdoors por aí... Ou seja, não sei o que pode ser feito. Mas, no mundo impresso, quem publica seu primeiro livro não passa por coisas assim?...
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