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Bernardo Carneiro Horta | O Arqueólogo de Nise
 
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Ramon Mello, Araruama (RJ) · 14/11/2008 · 83 votos · 1
  
Arquivo: Nise da Silveira | Montagem: Luiza Santoloni
Imagens

Bernardo Carneiro Horta



Claudia Tavares - Casa das Palmeiras - Óleo sobre tela - 1980 / 49cm x 38cm

Por Ramon Mello

“Pára de escrever, rapaz. Você é jornalista, oportunista, burro e ignorante. Sou contra o culto à personalidade! Biografia minha, não! Sai fora que você não tem chance, não vou admitir”. Foram frases desse tipo que Bernardo Carneiro Horta ouviu de Dra. Nise da Silveira enquanto tentava registrar a história de “uma das mulheres mais extraordinárias não só na cultura brasileira”.

No entanto, a persistência do autor, que durante mais de 10 anos freqüentou o Grupo de Estudos C.G.Jung, resultou num livro especial: Nise – Arqueóloga dos Mares. Para convencer Nise da Silveira sobre a idéia de manter sua memória no papel, Bernardo Horta recorreu à literatura, uma das grandes paixões da psiquiatra que foi amiga de Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Ferreira Gullar, Rachel de Queiroz e mais uma constelação de escritores, artistas e intelectuais.

Utilizando o conceito de “biografemas”, de Roland Barthes, Bernardo Horta escava a vida de Nise da Silveira como um arqueólogo e revela intimidades, com o aval de amigas íntimas de Nise como Martha Pires Ferreira, Zoé Chagas Freitas e Márcia Leitão da Cunha. O autor, que é formado em teatro e jornalismo, pontua a dramaticidade da psiquiatra que foi apaixonada por gatos e que muitas vezes preferia a companhia dos animais a dos seres humanos.

A leitura deste livro é um mergulho profundo no universo niseano; o leitor que se permitir levar pelos fragmentos de memória terá uma oportunidade única de conhecer a simplicidade da renomada psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung. O intenso amor de Nise pelos loucos gera uma reflexão sobre os nossos valores. Perguntas, muitas perguntas, surgem durante a leitura. Talvez a mais freqüente seja: “Nise planejou a vida que teve?”

A entrevista com Bernardo Carneiro Horta – testemunhada pelo músico e estudante de psicologia Felipe Grillo e pelo fotógrafo Tomás Rangel –, em Copacabana, começou no bar da Modern Sound e terminou no Cafeína, devido a infinidade de histórias que surgiram de uma simples pergunta. E, mesmo assim, a sensação é que muitas outras perguntas interessantes ficaram sem respostas.

Em 2009 completam-se 10 anos da morte de Nise da Silveira, e desejo que o livro Nise – Arqueóloga dos Mares ganhe uma segunda edição à altura do seu conteúdo. Nise merece.

Como surgiu seu interesse pelo trabalho da Dra. Nise da Silveira?

Bernardo Carneiro Horta.
Não houve consciência no começo desse processo, muito menos um interesse em psiquiatria. Eu tinha 25 anos, quando um colega de faculdade de jornalismo, Fábio Campos, me convidou para fazer um trabalho com imagens para projeto final do curso. Naquela semana, a revista Domingo do Jornal do Brasil, publicou na capa a foto de Fernando Diniz, um dos pacientes da Dra. Nise. A reportagem informava sobre a exposição “Imagens do Inconsciente”, com obras de esquizofrênicos, no Paço Imperial. Naquela ocasião, Fernando Diniz estava com cerca de 70 anos. Ele morreu em 1998, um ano antes dela. Comecei essa pesquisa colaborando para a monografia do meu amigo, fomos juntos à exposição. Meses depois, foi lançado no Cineclube Botafogo o filme Imagens do Inconsciente, documentário de Leon Hirszman sobre três casos clínicos de Nise: Fernardo Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis. No mesmo período o diretor do filme morreu por ser soropositivo. Foi um momento dramático, mas muito bonito. Esse episódio mobilizou a imprensa e o público, mexeu com a cultura brasileira.

Logo em seguida você conheceu o Museu de Imagens do Inconsciente (MII)?

Bernardo Carneiro Horta.
O crítico de arte Mário Pedrosa, que participou da fundação do Museu de Imagens do Inconsciente, era tio do meu amigo Fábio Campos. Então, resolvemos ir ao Museu, mencionando o nome dele, para conhecer o lugar e fazer contato com os loucos. O Mário Pedrosa conheceu a obra de Nise através do artista plástico Almir Mavignier, citamos o nome dele e ganhamos o estágio no Museu. Ao fim do estágio, fizemos um trabalho de audiovisual, imagem e texto narrados como uma rádio-novela, adaptação da Via Crúcis do Evangelho de São João para o hospício – sugestão dos próprios loucos. Alguns monitores perceberam que aquela temática tinha a ver com o trabalho de Nise. Então, um dos monitores, José Palhano, telefonou para Nise e avisou que uns meninos estavam fazendo um trabalho desconcertante onde o louco é Jesus e a Crucificação é a loucura. Nise convocou a equipe do audiovisual para visitá-la.

E como foi conhecer Nise pela primeira vez?

Bernardo Carneiro Horta.
Foi um dia emocionante e impactante. Nós, que éramos jovens, tínhamos medo porque diziam que Nise expulsava as pessoas da biblioteca se as perguntas fossem ruins: Nise brava! Nise dura! Nise exigente! Montamos os equipamentos do audiovisual e, em seguida, surgiu a acompanhante Gôndola, que avisou: “A Dra. Nise da Silveira vai entrar em cinco minutos”. A anciã afundada na cadeira, muito séria e muda, nos olhando através dos óculos fundo-de-garrafa. Ficamos mudos. Ela estava acompanhada de Gôndola e da psiquiatra Alice Marques dos Santos. Apresentamos o vídeo e, quando acabou a exibição, Dra. Nise fez uns três minutos de silêncio. De repente, Nise ergueu os dois braços com as mãos contorcidas pela artrose – ela tinha o estilo dramático –, e declarou: “Vocês, tão jovens, conseguiram mergulhar fundo com o esquizofrênico e voltar à tona para me dizer o que está acontecendo? O trabalho de vocês é maravilhoso! Vocês fizeram o contrário dos doutores, que já chegam com ‘olhos de diagnóstico’”. Foi um impacto, ficamos mudos. E, na hora de ir embora, ela me puxou pela manga da camisa e ordenou: “Quarta-feira você virá aqui em casa para estudar comigo”. Isso aconteceu, em 1987, eu estava com 25 anos e ela com 82. Havia mais de 60 anos de diferença entre nós. De toda forma, eu fiquei impressionado, encantado com ela. Ao mesmo tempo em que eu via uma anciã na cadeira de rodas, eu conseguia enxergar um “mulheraço”: uma grande intelectual. Naquele corpo antigo residia uma personalidade extraordinária, não só na cultura brasileira, mas na cultura internacional do século XX. Não entendi nada disso na hora, eu só pressenti. Acho que 18 anos depois eu compreendi. Foi assim que me aproximei da Dra. Nise, participando do Grupo de Estudos C.G. Jung.

Gôndola era acompanhante da Dra. Nise?

Bernardo Carneiro Horta.
Dra. Nise tinha bom humor até no drama. A acompanhante conduzia bem a cadeira de rodas e ela dizia: “É incrível! Ela é quem melhor conduz a minha cadeira com tamanha fruição que mais parece uma gôndola pelos canais de Veneza”. A outra empregada, que tinha funções de governanta, chamava-se Nilza.

Foi difícil convencer a Dra. Nise?

Bernardo Carneiro Horta.
Nise proibia biografias. Quando comecei a freqüentar o Grupo de Estudos C.G.Jung, fiquei impressionado com os relatos pessoais dela. Então, passei a anotar. Mas ela proibia anotações. Segundo Márcia Leitão da Cunha, por eu ser homem, jovem e persistente, a Nise suportava minhas anotações. Mas ela reclamava o tempo inteiro: “Pára de escrever, rapaz. Você é jornalista, oportunista, burro e ignorante. Sou contra o culto a personalidade!” Eu continuava anotando o que ela dizia e o que os outros me relatavam a respeito dela. Depois de 10 anos freqüentando o Grupo, Nise passou a admitir minhas anotações. Certa vez, me convidou para ir até sua casa para me contar uma história. Ela falou longamente sobre o marido dela, o Dr. Mário. Mas, ao me encontrar, ela sempre dizia: “Biografia minha, não! Sai fora que você não tem chance. Não vou admitir”. Até que um dia eu respondi: “Não vou escrever nada, Dra. Nise. A senhora deveria contar a sua história por biografemas”. Ela perguntou o que era e eu respondi: “Roland Barthes, como a senhora, acha biografia uma coisa inadequada. Ele prefere ser lembrado por flashes de uma vida”. Foi quando ela disse: “Biografemas. Isso pode ser”. O livro nasceu neste momento, em 1995. Mas durante um tempo ela achou que eu inventei este conceito: “Você está inventando essa mentira sobre o Roland Barthes. Olha a responsabilidade!” Então ela me obrigou a ler algo sobre biografemas.

Como você descobriu o conceito de “biografemas”, de Roland Barthes?

Bernardo Carneiro Horta.
Foi uma surpresa e felicidade. Minha monografia na PUC foi sobre o livro Fragmentos de um discurso amoroso, que é biografemático. Mas eu não sabia. Lendo um livro sobre Barthes, da Coleção “Primeiros Passos”, de Leyla Perrone-Moisés, eu encontrei: “Se alguém algum dia cometer a inconveniência e o impropério de se meter a escrever sobre mim, eu exijo: escrevam-me por biografemas”.

Por que você intitulou o livro de Arqueóloga dos Mares?

Bernardo Carneiro Horta.
A Dra. Nise da Silveira era uma criatura desconcertante. O livro poderia se chamar Nise, Dama do Inconsciente ou Senhora das Imagens, mas seria previsível. Então resolvi escolher um título tão desconcertante quando ela. Todos acharam o título esquisito, foi um sinal de que eu estava no caminho certo. O título tem relação com Freud, Jung e a própria Nise. Freud costumava afirmar: “Eu sou um arqueólogo do psiquismo”. Jung, quando jovem, desejava ser arqueólogo – não conseguiu, pois onde morava não existia tal curso. E Nise, admiradora dos dois, autodenominava-se mergulhadora-arqueóloga em suas pesquisas sobre o psiquismo. Ela observava que arqueologia e psicologia são ciências análogas e similares, que se dão em campos diferentes. A Dra. sempre dizia: “Freud abriu as portas do século XX, mas ficou no século XIX. E Jung meteu-se terra adentro como um arqueólogo”. Nise leu a obra completa dos dois e mergulhou fundo, escavou como uma arqueóloga.

Por que você optou por uma publicação independente? As editoras não tiveram interesse no seu livro?

Bernardo Carneiro Horta.
Eu e Martha Pires Ferreira – que conviveu com Nise por mais de 30 anos – desconfiamos que o livro poderia ser muito cortado se fosse entregue a um grande esquema editorial. Esse livro é alternativo pelo objetivo de acontecer. Esse projeto, que foi idealizado mais por Martha do que por mim, está dando muito certo. O livro acabou de ser lançado e já está esgotando.

Se Nise estivesse viva, o que ela diria sobre o livro?

Bernardo Carneiro Horta.
Ela me xingaria e depois me elogiaria. (risos)

Por quê?

Bernardo Carneiro Horta.
Porque eu convenci algumas amigas dela a me contar intimidades que ela jamais contaria. Primeiro ela me daria um esculacho e depois diria que ficou interessante. Talvez, o mérito do livro seja difundir Nise sem culto, academicismo ou tietagem. Na verdade, esta obra é uma declaração de amor.

Você conviveu com a Dra. Nise no Grupo de Estudos C.G.Jung por mais de 10 anos. Quais eram os assuntos discutidos?

Bernardo Carneiro Horta.
O debate ia muito além de psiquiatria – no Grupo, a medicina ficava pra trás... A conversa toda era: Machado de Assis e William Shakespeare – literatura!

O universo de Nise da Silveira e Clarice Lispector são muito próximos. Elas não se conheceram, mas tiveram muitos amigos em comum, como o poeta Ferreira Gullar e o diretor de teatro Fauzi Arap. Por que essa distância entre as duas?

Bernardo Carneiro Horta.
Não sei ao certo por que Nise da Silveira e Clarice Lispector não foram apresentadas por amigos que as conheciam. Imagino que tenham tentado aproximá-las, mas não conseguiram. Fica a impressão de que ambas eram mulheres de humores e reações inesperadas. Às vezes, percebemos pontos de identificação entre duas pessoas, mas na realidade cotidiana estas mesmas pessoas não conseguem conviver. Isto acontece. Com Nise, era assim. Explicações para o fato? Puro mistério... Uma coisa em comum, nas duas, consigo intuir: ao fim da vida, Nise e Clarice optaram por viver um grau de deslocamento, se distanciando do que costumamos denominar "normalidade". Abriram mão da persona de indivíduo comum. Por condição e opção, mergulharam em outros estados do ser."

Além de ter sido amiga de escritores – Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Drummond, Manuel Bandeira – Nise tinha uma forte relação com a literatura. No seu livro, você destaca um trecho em que ela fala sobre essa relação da literatura com a psiquiatria:

“Rasguem os manuais de psiquiatria! Leiam Machado de Assis. Seria mais proveitoso trocar certos tratados de psiquiatria pelos livros deste que é o maior escritor brasileiro de todos os tempos, primeiro grande mestre de psicologia. Suas obras analisam com mais profundidade a alma humana. Quem quiser aprender psicologia, pra valer, deve ler Machado. Não houve melhor psicólogo, no mundo. Ele rivaliza com William Shakespeare, que também era escritor – ambos saíram-se grandes autores de psicologia. Vocês concordam? Em Hamlet, o personagem de Shakespeare parece estar desvairado, fora de si. Todos acham que está louco. Então há uma resposta à altura: ‘Desvario sim, mas tem seu método!’ Todo delírio tem um sentido, e cabe ao psiquiatra e ao psicólogo apurá-lo com a visão, olfato e sensibilidade afiados para compreender que método é este. Não é à toa que Machado de Assis cita Hamlet em sua obra”.

Bernardo Carneiro Horta.
Esse trecho, lido por você, ilustra bem o que era o Grupo de Estudos C.G.Jung. É preciso contextualizar; entre 1987/1990 a Dra. Nise já estava superando muito a psiquiatria. Ela influenciou a Medicina, a Psicologia, a Cultura, a Estética, as Artes Plásticas e a Educação no Brasil. No momento em que cheguei ao grupo, pouco se falava em psiquiatria. Uma vez, alguém resolveu se apresentar citando alguns títulos de psiquiatra e ela disse: “Acho que o Sr. não compreendeu o que se passa aqui! Eu não preciso de ‘Doutores da Psiquiatria’, estou farta deles. Preciso de donas de casa e de pescadores para trabalhar comigo. Preciso de gente simples e com boa vontade para encarar os temas da loucura e humanidade sem preconceitos”.

Como é a reação dos “herdeiros intelectuais de Nise” ao saber que um “jovem” de quarenta e cinco anos lançou um livro sobre a Dra. Nise da Silveira?

Bernardo Carneiro Horta.
(risos) Essa pergunta é interessante porque dá margem para responder alguns comentários a respeito de Nise. Primeiro, é mentira dizer que Dra. Nise não valoriza doutores. É claro que interessava a ela se a pessoa tivesse graduação, mestrado e doutorado. Mas tinha de chegar despida de preconceitos para compreender o que a Dra. Nise dizia. Ela não gostava quando os “doutores” diminuíam e classificavam os esquizofrênicos. É preciso observar que a formação de Dra. Nise se deu no início do século XX, ela nasceu em 1905 e morreu em 1999. Nise vivia uma vida em sacerdócio, foram 94 anos de existência dedicados à condição humana. Ela dava valor ao “doutor”, mas também valorizava a dona de casa que se aproximava tímida e encantada pelo trabalho dela. A grandeza de Nise da Silveira estava em ouvir e se comunicar com essas pessoas simples, comuns. Quem fazia parte do Grupo de Estudos C.G.Jung? Físicos, químicos, jornalistas, matemáticos, professores, donas de casa, pescadores, “malucos-beleza”, desempregados, hippies... As pessoas perguntavam para Nise: “Você é psicóloga? Você é psiquiatra?” Ela respondia: “Não, sou psicodélica”. (risos) Nise não gostava dos normais. Ela dizia assim: “Fulana é normal, sicrana é muito normal. Acho chatíssimo! Não conseguem se indignar com nada, a criatividade é quase zero e as perguntas são idiotas, clássicas e acadêmicas. Prefiro meus malucos, são mais interessantes e revolucionários. Os doidos propõem um mundo muito melhor”. (risos) Digo tudo isso para afirmar que não sofri nenhuma espécie de preconceito com o lançamento do livro. Alguns intelectuais, críticos e antigos colaboradores de Nise, quando viram o livro, ficaram admirados ao saber que o autor era um “jovem” jornalista. Não sofri cerceamento de psicólogos, psicanalistas ou “herdeiros intelectuais de Nise”. Por quê? Porque me tornei amigo dela, um colaborador.

Quem foi importante na produção do livro?

Bernardo Carneiro Horta.
Esse livro tem excelentes madrinhas: Martha Pires Ferreira, astróloga e artista plástica, a filha que Nise não teve; Márcia Leitão da Cunha, psiquiatra; Zoé Chagas Freitas, ex primeira-dama do Rio de Janeiro, cujo marido, Chagas Freitas, foi governador; Nilza de Oliveira e Luciana Ramos. Essas mulheres me deram subsídios da intimidade de Nise. Se por um lado Nise tinha fascínio pelos homens, as mulheres mais próximas gozavam de sua intimidade.

Como era o “fascínio pelos homens” que a Dra. Nise cultivava?

Bernardo Carneiro Horta.
Nise da Silveira, de fato, impressionava-se perante a figura masculina. Sua admiração pelos homens era visível... Tanto é que uma amiga dela, Maria Lúcia Boiteaux, afirmou haver um grupo denominado “Eros de Nise” – ou seja, alguns amigos e intelectuais da predileção da Dra. (risos) Então, no Grupo, nós brincávamos que, se o visitante tivesse entre 25 e 75 anos, e falasse alguma coisa interessante, ingressava na turma de Eros...

Quais homens foram os “Eros de Nise”?

Bernardo Carneiro Horta.
Eros é aquele personagem da Mitologia Grega que traz o elemento erótico da vitalidade da vida. Então, havia o grupo dos “Eros de Nise”. Pode-se dizer que Luiz Carlos Mello, Gilberto Gomath e Philippe Bandeira de Mello foram Eros de Nise. Entretanto, Marco Lucchesi, filósofo, poeta e professor da UFRJ, é o número um da lista. Ela chegou a dedicar um livro a ele... O Lucchesi costuma dizer que Dra. Nise da Silveira é aquela que ressuscita biografias, levanta pessoas catatônicas e lhes devolve a vida através da pintura e da modelagem. Segundo ele, a colaboração feminina é a maior contribuição da Dra. Nise para a psicologia moderna. Jung e Freud, homens notáveis, não poderiam chegar à contribuição “niseana”. Atualmente, já se pode afirmar que Nise é um dos alicerces da psicologia, no século XX.

Ao final da vida, Dra. Nise afirmou:“Eu não sou junguiana, freudiana, nem sicrana. Eu sou eu.” Por que, mesmo seguindo os estudos de Jung, ela rejeitou tal associação à escola junguiana?

Bernardo Carneiro Horta.
A Dra., nos últimos anos de vida, percebeu que não era uma simples discípula de Jung – nem ele próprio gostaria disso. Ela foi além, criou um método científico próprio. Ao longo de sua existência, redescobriu-se, mudou de idéia... Tenho a impressão de que a vida de Nise da Silveira deu-se pelo avesso.

Nise planejou a vida que teve?

Bernardo Carneiro Horta.
Não, não planejou. Mas ela tinha consciência do valor de sua vida e obra... No entanto, até a década de 1950, 1960, não tinha a menor noção que o destino a encaminharia para um cargo de projeção internacional e que iria se ultrapassar todos os professores e mestres que ela teve. O editor do site oficial de C.G. Jung já inclui Nise da Silveira entre as sete principais colaboradoras do psiquiatra suíço. Nise não imaginou a vida que ela teria: foi estudar medicina numa turma só de homens; casou com o “primo-irmão”; se mudou para o Rio de Janeiro após a morte do pai; tornou-se marxista; fez concurso público para atuar como psiquiatra; foi presa na Ditadura Vargas e dividiu cela com Olga Benário; foi reintegrada no serviço público para trabalhar com Terapêutica Ocupacional; escreveu para o Jung e foi correspondida; foi a Zurique encontrar com Jung; ao fim da vida, reassumiu-se católica sem abrir mão do marxismo; enfim, tornou-se uma brasileira de projeção internacional... Tudo isso é muito interessante! Nise foi uma pessoa que ultrapassou a si mesma. Dra. Nise era considerada uma Madre Teresa de Calcutá, ela preferia atender esquizofrênicos pobres do subúrbio a ficar no gabinete atendendo neuróticos e ganhar muito dinheiro. Ela dizia que preferia “borboletar” na vida. No final escolheu escrever sobre bichos e não sobre gente.

O último livro dela é sobre gatos.

Bernardo Carneiro Horta.
Sim. Chama-se Gatos – A Emoção de Lidar. Alguns “doutores” falavam: “Dra. Nise, em prol de sua obra, a senhora deveria escrever sobre temas mais sérios”. Ela respondia: “Vocês estão enganados. Eu vou escrever sobre gatos, ratos, urubus e, sobretudo, cachorros – esse bicho é o único ser que sabe perdoar como Jesus Cristo. Eu, que não sei perdoar, estou abaixo de qualquer cachorro. Porque eu me magôo e não perdôo nunca.” (risos)

Dra. Nise da Silveira nunca utilizou o choque elétrico nos pacientes. O fato de ela ter sido presa foi relevante para a relação dela com os internos?

Bernardo Carneiro Horta.
Sim. Em 1944 – após 14 meses de prisão e sete anos de ostracismo –, quando ela foi reintegrada ao serviço público, queriam que ela aplicasse o choque elétrico. Mas ela disse: “Isso não aplico, que é tortura. Quando estive presa, meus colegas levaram choque elétrico, isso não faz sentido. Não posso torturar doentes mentais, sou uma servidora federal. Não vou aplicar!” Ela chegou a aplicar um choque insulínico e se arrependeu profundamente porque a paciente não voltava do coma... Na Terapêutica Ocupacional ela encontrou a ponte de comunicação com os esquizofrênicos através da pintura e da modelagem. Para ela, com esquizofrênico deve se usar outra forma de comunicação através da expressão plástica: o desenho, a pintura, a modelagem. Para Dra. Nise a palavra não se aplica à esquizofrenia porque ela é lógica, cartesiana. Foi então, que no “episódio do gato”, um paciente pediu para entrar na ala feminina da Terapêutica Ocupacional, para fazer um gato de pelúcia com um tecido que estava sobre uma mesa. Esse paciente disse: “Quando toco esse gato eu sinto a emoção de lidar”. Nise concluiu: “Em vez de usar o termo Terapêutica Ocupacional, prefiro ‘Emoção de Lidar’”. A esquizofrenia, ela batiza de os “inumeráveis estados do ser”. Ao longo de sua carreira, renomeou conceitos, a partir de sua experiência e conclusões.

Existe uma polêmica sobre a inserção das artes plásticas no trabalho da Dra. Nise. O Almir Mavignier foi o responsável por essa iniciativa?

Bernardo Carneiro Horta.
Após sua reintegração ao funcionalismo público, o diretor do hospital desloca a Dra. Nise para o serviço de Terapêutica Ocupacional, em 1946, e coliga o artista plástico Almir Mavignier ao trabalho dela. A Dra. Nise começa o trabalho de Terapêutica Ocupacional somente com costura e bordado, foi o Almir que sugeriu a inserção da pintura. Ironicamente, quando Nise recebe a proposta, ela responde: “O que é isso, Almir? Você quer ‘expor as obras’ dos doentes mentais?” E ele respondeu: “Não! Quero colocar os loucos para pintar”. Quando isso aconteceu, deu-se uma revolução no hospício – pela primeira vez, os esquizofrênicos conseguiram comunicar-se e expressar-se de forma significativa... Então, ela se curvou a ele e disse: “Almir, você tinha razão. Estou realizando o sonho de estabelecer a comunicação com o esquizofrênico”. Então, concluímos que Nise deve muito ao Almir porque o trabalho dela é baseado em pinturas e esculturas dos esquizofrênicos...

E a Dra. Nise não dava esse crédito ao Almir Mavignier?

Bernardo Carneiro Horta.
Ela o citava, mas até certo ponto. Nise era muito generosa, mas possessiva. Ela citava o Almir Mavignier, mas não contava a história toda. Por exemplo: quando Nise morou no Curvelo, na década de 1920, em Santa Teresa, ela dizia que estava só. Mas, na verdade, já morava com o companheiro dela, o Mário. Quando ela falava das viagens a Zurique – onde conheceu Carl Gustav Jung –, nos anos 1950, sugeria que estava sozinha. Mas a amiga Alice Marques dos Santos estava ao lado dela. Ao mesmo tempo em que Nise era uma mulher extraordinária, honesta e muito generosa, vez por outra, ela excluía personagens da história dela.

Por que Dra. Nise tinha tanto amor pelos loucos?

Bernardo Carneiro Horta.
Quando um jornalista perguntou a Nise o que deu sentido a sua vida, ela, aos 92 anos, a Dra. respondeu: “Foi me coligar à pessoas que sofrem da pior doença, que é a solidão. Lutar por um ideal e um sonho. O que mais deu sentido a minha vida? O amor aos loucos”. Essa mulher é extraordinária.


EXCLUSIVO:

>>> Leia textos de Bernardo Carneiro Horta sobre a Dra. Nise da Silveira:

- ‘Em 2009, difusão de vida e obra de Nise da Silveira remete à senha para a construção da identidade brasileira: memória...’, AQUI!

- ‘O Centenário de Nise da Silveira’, publicado no Jornal do Brasil em agosto de 2005, AQUI!

- ‘Nise da Silveira gênio do cotidiano’, AQUI!

>>> Assista a entrevista em vídeo com Dra. Nise da Silveira, concedida ao professor Edson Passeti, AQUI!

>>> Conheça o livro Nise - Arquéóloga dos Mares, de Bernardo Carneiro Horta, AQUI! E leia o primeiro capítulo.

>>> Conheça o Museu Imagens do Inconsciente e a Casa das Palmeiras.

>>> Leia textos de Nise da Silveira, AQUI!



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Ramom,

Acho a Dra Nise um ser humano pra lá de fabuloso. O trabalho do Horta (e o seu, divulgando-o) é fogo bom nesta fogueira azul que foi a nossa doutora.

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro (RJ) · 15/11/2008 19:43
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