Publicado originalmente por Cecilia Giannetti em 20/03/2007.
Devem os novos escritores juntar seus cacos e formar uma Clarice Lispector inteira? Um Guimarães com cola Pritt? O colóquio Rumos Literatura 2007, no
Itaú Cultural, investigou como a crítica vê o mosaico da literatura contemporânea.
Uma questão principal insinuou-se e repetiu-se em mais de um dos encontros do colóquio Rumos Literatura 2007, entre os dias 14 e 17 de março, no centro Itaú Cultural, em São Paulo. Em sua terceira edição, o programa abordou, este ano, a crítica com foco na produção literária contemporânea do Brasil. E acabou reprisando uma pergunta que deu título a outro colóquio, o Encontros de Interrogação, ocorrido em 2004 no mesmo Itaú Cultural: Cadê a nova Clarice Lispector? Cadê o novo Guimarães Rosa?
A reprise não se dá por cochilo dos organizadores dos eventos em relação à programação. A insistência com que o tema sempre é retomado em qualquer debate sobre a produção literária brasileira atual; o fato de não se esgotar em uma, duas ou dez discussões; seu jeito vago de propor e esperar a chegada do Grande Romance Contemporâneo, aguardá-lo com cara de moça virginal e sonhadora à janela, tipo de moça que, como o Grande Romance, não existe faz tempo – tudo isso nos diz que estamos diante de uma busca crucial da crítica literária. Fora do universo em que essa questão consegue oxigênio para sobreviver, no entanto, no âmbito em que é produzida a nova literatura brasileira, tal busca insistente pode repercutir como disparate. Afinal, nos mesmos debates em que se lastima a ausência de uma Clarice ou de um Guimarães na prosa contemporânea, reclama-se do irremediável (não há cura para essa doença) aspecto fragmentado do romance contemporâneo. Devem os novos escritores juntar seus caquinhos e tentar, em mosaico, formar uma Clarice inteira? Um Guimarães com cola Pritt?
A mesa "Funções e importância da crítica literária", no dia 15, com Alcir Pécora, Beatriz Resende e José Miguel Wisnik, mediada por Regina Dalcastagné, evidenciou a importância de uma crítica aparelhada para avaliar a nova produção – e interessada por ela. "A crítica é contemporânea sempre, os objetos (que analisa), não," afirmou o professor de Teoria Literária da UNICAMP, escritor e ensaísta Alcir Pécora.
"Escrevam e morram"
"Estamos na eminência da extinção do leitor, porque hoje todo mundo escreve. É um desequilíbrio absurdo. Escrevam menos, leiam mais. Escrevam e morram," decretou Pécora. Na platéia, alguns jovens autores talvez tenham desejado possuir ao menos um marca-passos, na falta de pontes de safena.
De acordo com a fala de Pécora, é uma questão de "Saúde vs. Doença", de "Luz vs. Trevas": "Se estivéssemos vivendo a Era das Trevas nas letras, eu tomaria partido das Trevas," devolveu, ao ouvir a pergunta da platéia dirigida a ele, "vivemos a Era das Trevas nas Letras?".
Sobre a possibilidade de encontrar textos novos de alguma qualidade literária na web, Alcir não tem dúvidas: "Eu acho a internet ótima para a pornografia, mas não sei se é boa para a literatura. Essas novas mídias geram um desastre, esse excesso de produção literária, esse excesso de saúde de gente que tenta se enfiar ali, entre os mortos, entre os que permanecem e com quem dialogamos."
O escritor mato-grossense Joca Reiners Terron, autor de, entre outros,
Sonho interrompido por guilhotina (ed. Casa da Palavra) e do blog Hotel Hell – destacado como erudito durante o debate pela pesquisadora, crítica e professora da Unirio Beatriz Resende, dentre os autores surgidos na década de 90 – reclama que há também um excesso de críticos. "Fui visitar meu pai em Santos. Na cozinha, puxei uma cadeira, abri uma cerveja... Aí vem um tio meu, se vira para minha mulher e diz: 'Esse aí sempre desenhou muito bem. Mas como escritor...'," comentou Joca, rindo. Se hoje todo mundo acha que pode escrever literatura, a mania de "dar uma de crítico" também é bastante popular.
Para a escritora paulistana Andréa Del Fuego – autora de
Nego tudo (ed. Fina Flor),
Minto enquanto posso (ed. O Nome da Rosa), entre outros, e do
blog que leva o seu nome –, presente no colóquio, "a crítica consegue ser contemporânea se o olhar se estende sobre uma obra concluída, muitas vezes, de um autor morto. É difícil ser contemporânea com um objeto de análise em andamento, isso complica a crítica. A crítica pode ser até mesmo uma peça literária; para isso, a escolha do crítico se dará por motivos de empatia intelecual, por algo que o instiga a verificação e até sua poesia particular e interna. Nós faríamos o mesmo no lugar deles."
O excesso de produção literária, para o compositor e professor de Teoria Literária da USP José Miguel Wisnik, aparentemente não fede nem cheira: desfaz-se em fumaça. "Está na moda a obra que 'se esfuma', que se lê e esquece imediatamente depois de o livro ser fechado," criticou. "Temos manifestações espalhadas nos blogs, nos muitos livros que não conseguimos ler, mas nada que possa ser fixado."
Provocação por provocação...
"Tenho pesquisado muitas manifestações literárias que não foram consideradas como literatura em seu momento," explicou Beatriz Resende. "A necessidade canônica, quando se vai trabalhar com o contemporâneo, de saída nos coloca diante dessa questão: O que é literatura?"
"Em meio às manifestações que surgem hoje, a defesa do imaginário no ficcional é uma coisa que me agrada imensamente; e há ainda a literatura da realidade excessiva, há a literatura egótica – em que um sujeito de 25 anos escreve sua 'biografia definitiva'; há a literatura realista da periferia... com todas as diferenças entre as manifestações, é preciso saber o que é literatura."
E quanto à crítica? "Sou pela militância da sedução, nos veículos de imprensa. Não vale a pena gastar um parco e disputado pedaço de papel num jornal para falar mal de um autor. Se um livro não me interessar, prefiro não escrever sobre ele." E na internet também há manifestações de crítica fast-food: "Há a crítica imediata nos blogs, nos sites; mas há blogs provocativos que tornam esse imediatismo interessante." Para Beatriz, o único e maior pecado que um escritor pode cometer hoje tem mais a ver com cifrões do que com letras propriamente ditas. "Só me tira do sério o caminho da busca do mercado, às vezes por autores realmente bons que caem nessa tentação."
A mediadora Regina Dalcastagné lançou um contraponto à questão, anunciando como uma pequena provocação à mesa sua pergunta sobre quais seriam os critérios utilizados pela crítica para decidir o que é relevante e o que é descartável nesse cenário. "Provocação por provocação," brincou Wisnik, introduzindo sua resposta, "devemos ter a capacidade de reconhecer textos cuja complexidade e densidade podem fazê-los canônicos, mas cânones devem sempre ser postos em discussão."
"Devíamos reconhecer que trabalhamos em condições adversas. Quem trabalha com a cultura letrada no Brasil, trabalha em condições adversas," lembrou Wisnik. "No Brasil, considerando que é um país iletrado, o fato de Clarice Lispector e Guimarães Rosa (para citar os dois ícones) terem sido reconhecidos, o fato de termos estabelecido algum cânone, como o que temos, é impressionante."
"O contemporâneo está próximo demais para que possamos olhá-lo sob a perspectiva canônica," concluiu Wisnik.
Eterno retorno
Ou seja: também na literatura, nada como um dia depois do outro. Mas o assunto retornou ao auditório do Itaú Cultural na sexta-feira, 16, na mesa que discutiu a "Crítica literária: entre a academia e a mídia". A conversa entre a professora Heloisa Buarque de Hollanda (titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), Luiz Roncari (professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) e a editora do caderno literário "Prosa e Verso", do jornal O Globo, Manya Millen, não ficou restrita ao tema destacado pelo título do encontro, mas lembrou mais uma vez a desconfiança que paira sobre o novo.
"A gente pode estar perdendo o novo Guimarães Rosa ali, no meio daqueles 70 e tantos livros que recebemos por semana. Nós nos sentimos na obrigação de dar conta de todos os livros que chegam, mas não é possível. Hoje em dia se produz muito mais literatura," disse Manya, que consegue ver diferenças entre os livros de papel e aqueles publicados somente na internet. "Na internet, os personagens e as histórias são mais fragmentados (...)." Além disso, "o papel ainda tem um peso muito grande. Às vezes damos uma resenha no blog e o autor fica meio desapontado, como se não valesse. É como se o autor só se sentisse escritor quando é publicado em papel, a resenha só valesse quando é publicado em papel."
Assim como o aumento da produção literária, o filtro "O que é literatura" também foi repensado neste encontro. "Quando fiz minha tese sobre os poetas marginais (
26 poetas hoje. Rio, Ed. Labor, 1976), havia um reforço muito grande da academia dizendo que meu objeto de pesquisa não era literatura," contou Heloisa, que, com a tese, acabou se tornando "madrinha dos marginais". "Sou obcecada pela margem, pelo que para os outros não presta", afirmou.
Crítica literária, porém, com algumas ressalvas ("Tenho um desconforto gigantesco com a posição de crítica, é uma assunto sobre o qual não costumo falar"), Heloisa apontou a questão que mais prende sua atenção na cena literária atual: "É a questão da autoria, que começa a se cindir, com a internet, com Creative Commons, com os blogs... e vejo nos escritos mais novos uma certa 'flutuação', nesse sentido", disse, lembrando que o autor, a noção de autoria, é uma construção moderna. "Quero muito saber como vai ser a crítica com comments, comentada, interativa. Quero ver como o crítico acadêmico, que detesta essa interatividade, vai se comportar diante da web 2.0, quando começarem a ser interpelados por leitores na internet." A interação virtual sugerida foi bem recebida pela mesa. "Acredito na importância vital da crítica para a literatura e da literatura para a crítica. Aprendem mais uma com a outra do que com sua própria sombra," completou Luiz Roncari.
"Sonhei com um escritor que queria me matar"
Foi com a narrativa de um sonho que José Castello abriu seu comentário no encontro "Crítico-escritor e Escritor-crítico", em que dividiu a mesa com Cristóvão Tezza e Marco Lucchesi, e o mediador Flávio Carneiro. "Quando fiz o livro do Vinicius de Moraes, sonhei várias vezes que ele me perseguia e queria me atacar. Com um facão," contou Castello, falando um pouco do seu lado de crítico literário.
Para Tezza, "a nova geração ainda não se consolidou." Foi Cristóvão quem, durante o encontro, mais falou sobre "a vida dupla, o viver dos dois lados do balcão, como autor e crítico". Castello, que tem um romance publicado,
O fantasma (ed. Record, 2001), desdobrou os comentários à produção literária contemporânea: "A literatura brasileira hoje está muito mais rica do que a crítica reconhece. Com todas as ressalvas que se pode fazer às novas gerações, a variedade de narradores é maravilhosa. Minha posição em relação à literatura hoje é otimista."
Marco Lucchesi, por sua vez, aproveitou para explicar sua "Jihad universitária": "A primeira coisa que detestei na universidade foi o casamento espúrio entre pesquisa e burocracia. Muitas vezes a burocracia ditando o caminho da pesquisa". E protestou contra as engrenagens enferrujadas do pensamento: "Eu gosto de encontrar um rapaz de 20 anos que acha que sabe tudo, com aquela força. Mas não é bom encontrar um velho que pensa que já sabe tudo".
tags: São Paulo SP literatura critica critica-literaria itau-cultural rumos-literatura clarice-lispector guimaraes-rosa