Publicado originalmente por Elizabeth Sucupira em 27/01/2005.
Ferreira Gullar mostra em primeira mão os poemas de seu novo livro para crianças e revela a influência da infância em sua poesia.
Urubu e raposa, tartarugas e jacarés e orquestra de sapos. Ferreira Gullar voltou à infância quando escreveu "Bichos". Aos 74 anos, o poeta conta como foi a preparação de seu novo livro, voltado para o público infantil, a ser publicado este ano pela editora José Olympio.
- Escrevi este livro nos primeiros meses do ano passado, quando era levado de carro para São Paulo a fim de gravar um programa de televisão. Como o percurso dura cerca de cinco horas, costumo aproveitar o tempo para ler e escrever. Já escrevi muita coisa durante essas viagens e a primeira delas foi esse livro. A idéia surgiu de repente. São poemas sobre bichos, desde formiga e aranha até elefante e jacaré – adianta.
Para Gullar, é bem possível que os adultos também se divirtam com os poemas.
- Às vezes me pergunto se eles são mesmo para criança. Eu sou mesmo um moleque. Gosto de brincar com as coisas sérias. Sempre misturo as duas coisas. Ser sério o tempo todo não dá! Por isso, fazer este livro foi um barato, eu me diverti muito. Às vezes, ao escrever certos versos, ficava rindo sozinho.
A semente do poema
"Não existe uma fórmula. Costumo dizer que a democracia não existe, porque os direitos são iguais, mas as qualidades não. Os atributos de cada um são diferentes. Vocês podem tentar me ensinar a cozinhar, mas eu nunca vou ser bom na cozinha. Para fazer poema, é preciso ter bem claro que a realidade é inventada por nós. A poesia não é só expressar a realidade, mas apreender a realidade."
"Quando me perguntam se eu sou Ferreira Gullar, respondo: "às vezes". Porque Ferreira Gullar é o poeta e eu não sou poeta 24 horas por dia. A poesia nasce do espanto, quando algo me tira do equilíbrio. Esse equilíbrio que nós construímos para sobreviver no mundo, porque ninguém consegue viver no estado de delírio completo. O mundo é incompreensível em si mesmo. Nós temos noções que explicam o mundo e essas noções formam como que uma cortina. Quando ela se rasga, o mundo nos desafia, nos estimula. O poema nasce das formas mais inesperadas. Eu não vivo pensando em fazer poesia, mas é muito bom mesmo, melhor que isso só o amor mesmo."
"Quando estou atormentado, saio andando à toa, pela praia de Copacabana, aqui perto mesmo, onde moro. Numa dessas vezes em que estava olhando o mar, eu me lembrei do meu filho Marcos, que já está morto, porque ele sempre gostava de observar a praia. E me dei conta de que os mortos vêem o mundo através dos vivos e fiz uma poesia sobre isso. É, eu inventei isso (risos). Na verdade, acredito mesmo que escrever é ser libertar da emoção. E eu não quero viver emocionado. A melhor coisa é você se emocionar a custa dos outros. Até porque viver emocionado é pior que Imposto de Renda (risos)."
Primeiro livro
"O meu primeiro livro era muito ruim. Publiquei quando tinha 18 anos
Um pouco acima do chão. É como um filho rejeitado. O pessoal brincava e fazia um trocadilho que dizia 'Um porco acima do chão'. Hoje, poema ruim eu não deixo nascer. Se nascer é porque eu estava distraído. Vocês podem ver que a minha obra completa tem 500 páginas. E isso não é muito para quem tem 60 anos de poesia, porque dá uma média de 10 poemas por ano."
Poeta de São Luís
"Se eu não tivesse nascido em São Luís, no Maranhão, eu seria outro poeta. Porque o poeta se forma na infância, quando começa a surgir a personalidade da pessoa. Por isso, o azul é tão recorrente, a cor está impregnada na luz forte de São Luís, que é uma cidade linda. O azul do céu, do sol. Eu amo tanto São Luís que não vou lá. Dói, é uma coisa louca. É uma relação profunda. Não tenho nem retrato de São Luís na parede da minha casa. É como se eu quisesse esquecer. A cidade que eu escolhi para viver é essa, que eu amo, até o fim da minha vida. Sair do Rio de Janeiro para o exílio foi uma coisa horrorosa. Foi uma fotografia da enseada de Botafogo que me fez voltar a qualquer custo e quase que eu morri quando cheguei."
Influências modernistas
"Somente em 1942, ou seja, 20 anos depois do começo do movimento modernista, é que comecei a ouvir falar de poesia moderna. Até então eu fazia poemas como os versos de Bilac. Eu não tinha conhecimento de nada. Na minha casa não tinha livros. Peguei uma poesia de Drummond, que dizia 'Lua diurética', e para mim isso não era poesia. A minha poesia mudou muito. Primeiro porque perdi a linguagem que tinha e começou a surgir uma rejeição de qualquer forma pré-estabelecida. O meu livro
A luta corporal termina, justamente, na implosão da linguagem. Passei a fazer poemas que querem nascer, que me procuram para nascer."
Amizades
"Depois que eu sai de São Luís e cheguei no Rio, fiquei amigo de muitos poetas e artistas. A minha profissão é jornalista. Fui jornalista e tenho orgulho de ter trabalhado em jornal. Meu encontro com muitos dos poetas e artistas foi nas redações de jornais. O Bandeira, por exemplo, era ótimo, afável. O Drummond era mais difícil, eu me lembro da primeira vez que vi aqueles olhinhos pequenos, uma lente azul, tão azul que parecia estar solta. A segunda vez que encontrei Drummond foi no
Correio da Manhã. Eu estava de tamancos e meus amigos com o paletó pelo lado avesso. Ele passou rápido com um olhar de espanto. Nunca fui à casa dele, até porque eu sempre acho que eu estou incomodando. Não costumo telefonar para ninguém, mas fico muito feliz quando meus amigos me telefonam."
Perdas
"Não sou um poeta pessimista e também não sou ao mesmo tempo fantasista. Não me nego à dor da vida. A morte existe e para lá caminhamos. A minha relação com a morte tem mudado nos últimos tempos. Quando escrevi
A luta corporal parecia que ia morrer, mas era uma morte teórica, que acontece com todo mundo. Com o passar do tempo, as pessoas vão morrendo e o tema se torna real. É a certeza de morte, a presença real da morte. Morreu sua companheira, seu filho, seu amigo mais caro. O poema 'Glauber morto' fiz no dia em que o Glauber morreu, e eu estava revoltado com a realidade da morte."
O papel do crítico
"Não existe criação artística sem crítica, porque o próprio artista é crítico. Ele tem que ser crítico. E o próprio processo criador é crítico. Quem não tem domínio do seu meio de expressão não faz bem o seu trabalho. A visão crítica é permanente. A crítica exercida pelo outro, pelo crítico, eu não diria que é imprescindível, mas é importante. Até porque a obra de arte se torna um fato social e o crítico é o representante da comunidade. E a leitura do crítico acrescenta algo à obra, no sentido de que a leitura dos outros depois dele faz com que se acrescente outras coisas à obra. É claro que o leitor sempre tem a possibilidade de ter a sua própria visão. Agora eu acho a crítica necessária, até inevitável."
Quando o poema fica pronto
"Quando comecei a escrever, era mais fácil perceber quando o poema estava pronto. Com o passar do tempo isso foi ficando mais difícil para mim, porque o poema não tem uma forma pré-determinada. Você não sabe bem o que incluir, o que tirar, até chegar a uma das formas possíveis do poema, porque poderia ter outra forma. Antes do exílio, escrevi um poema chamado 'A casa', que falava do tempo em que eu morava em São Luís. Tive que sair correndo e o poema sumiu. Quando cheguei em Moscou, resolvi escrever de novo. O poema ficou pronto e foi publicado. Muito tempo depois, quando voltei ao Brasil, encontrei o poema numa pasta antiga. É outro poema, não é mesma coisa."
"O homem é uma invenção do homem. Bicho nós somos biologicamente. Mas o homem como ser cultural é inventado. Costumo dizer que o homem inventou tudo, até Deus. Vocês me perdoem. Porque Deus é a resposta para as perguntas sem resposta. É a invenção mais extraordinária. Eu sou mesmo um moleque, mas tudo o que eu estou falando é sério."
O papel da poesia
"Dentro da minha teoria, naturalmente a cultura é fundamental e também a poesia. A literatura, entre as outras criações do ser humano, é constitutiva da nossa humanidade. A literatura é uma possibilidade de ajudar você a se reinventar. Shakespeare não descobriu a complexidade da alma humana, ele inventou. Quando você lê
Macbeth, percebe que nós somos um pouco Ricardo III."
"A poesia, a literatura, o teatro, o cinema são fundamentais. Só comer, só trabalhar, só transar, só isso não basta. Tem que ter uma fantasia em tudo. A amada é mais do que uma mulher, uma transa. Nós vivemos numa sociedade da mídia e do consumo, que é uma coisa grave. As mudanças tão velozes do mundo pedem uma reflexão. Posso dizer como um homem de mais de 70 anos que se você só tem sua juventude está ferrado. Porque a juventude passa. Existe também uma coisa da ditadura da maioria, que na cultura é uma coisa muito perigosa. É como na TV, o melhor filme passa às 1h, sempre de madrugada, então ninguém vê o bom filme. Cabe a nós melhorar esse público."
LEIA EM PRIMEIRA MÃO OS NOVOS POEMAS INFANTIS DE FERREIRA GULLAR
O Urubu
- Doutor Urubu,
a coisa está preta!
A falta de chuva
Matou a colheita
- queixou-se a Raposa –
A fome é geral.
Até já me sinto mal!
E o Urubu, muito prosa,
mal disfarsando a cobiça
-Tudo no mundo depende
do nosso ponto de vista...
Não acha, amiga ardilosa?
Para quem come carniça,
A coisa agora está branca,
Ou melhor, está cor-de-rosa!
A Tartaruga e o Jacaré
Tartaruga e Jacaré,
enjoados da floresta,
decidiram ir pra cidade.
- A vida lá é uma festa!
Lá tem muita diversão,
tem cinema, discoteca,
tem passeios de montão!
Ouvindo isto a Preguiça,
que nada faz sem pensar,
chamou os dois à razão:
- Vocês não sabem da missa
nem a primeira oração!
Cidade não é lugar
para animais como nós.
É outra civilização.
- Por isso quero ir pra lá.
Vou ser uma sensação
- disse o Jacaré: "Jacá,
astro da televisão"!
- É puro engano e vaidade.
Não passa de uma ilusão.
Sabiam que na cidade
o jacaré vira bolsa
e a tartaruga, botão?
- Não me diga! Isso é verdade?
- espantou-se o Jacaré –
virar bolsa não dá pé!
- Pior é virar botão!
- lastimou-se a Tartaruga.
Deus me livre de ir pra lá!
E o Jacaré concluiu:
- Dona Preguiça é sensata.
Bom mesmo é viver na mata,
onde canta o sabiá.
O Sapo
Aqui estou eu: o Sapo,
Bom de pulo e bom de papo.
Falo mais que João do Pulo,
Pulo mais que João do Papo.
Por cautela, falo pouco,
Pra evitar de ficar rouco.
Mas, na verdade, coaxo.
Sou quem toca o contra-baixo
em nossa orquestra de sapos,
pois com os sons de nossos papos
fazemos nosso concerto:
um som fechado, outro aberto,
um que parece trombone,
outro flauta ou xilofone.
Tocamos em qualquer festa.
O nosso e-mail é orquestra
@sapos.com.floresta.
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