Publicado originalemente por 22/05/2006 por Lu Menezes.
Quando vi Leonardo Martinelli pela primeira vez, no corredor de uma universidade carioca, sua vivacidade fisionômica me fez distraidamente associá-lo a um roqueiro convertido à academia. E por quê? Afinal, a sobriedade externa deste jovem poeta – também compositor, guitarrista e crítico literário – soprava que, no palco, continuaria não atrelável a clichês. Como no livro de estréia. Desde o título, Dedo no ventilador (Editora Bem-te-vi, 2005) revela a excepcionalidade esquiva a escaninhos com que Leonardo se desloca na contramão da poesia a priori "poética". Distantes das cordas etéreas da lira como os raios X do luar, os aros-linhas de Dedo no ventilador irrompem na carne do real movidos por um pensamento incisivo, despojado não só de ilusões idílicas como das poses narcisistas recorrentes em alguns contemporâneos. Sente-se honestidade em sua contundência, bem como ausência de pedantismo hoje rara, permitindo, por exemplo, que um Chagall e um Duchamp coabitem em harmonia.
Ao lado de certa "ciência de si", o compromisso radical de Leonardo Martinelli com o mundo corpóreo envolve, em Dedo no ventilador, artes (pintura, música, cinema) e vida urbana tratadas com notável agudeza, repleta de ironia e auto-ironia às quais adere humor por vezes nigérrimo. O tom geral quase ríspido dos poemas, aliás, contribui para que, nas entrelinhas da sua racionalidade não-confessional, nuances emotivas diversas se deixem adivinhar e – como silhuetas na contraluz – realçar.
Obtive de Leonardo a declaração de que seus poemas até agora "se debateram entre uma certa tendência narrativa e a necessidade de enquadramento do tema, da forma mais elíptica e sonora possível". Ele também alertou para a possibilidade de daqui por diante as coisas mudarem: "Tenho vontade de escrever livros onde poesia e prosa possam relacionar-se de outras maneiras". E mencionou, a propósito, os "livros-almanaque" de Julio Cortázar (sobre cuja produção crítica tem tese de doutorado), a obra escrita ou pictórica de Henri Michaux e o Me segura qu'eu vou dar um troço, de Wally Salomão.
Duvido que um poeta de 34 anos não mude, mas imagino que, seja como for, em tudo o que este vier a fazer haverá sempre força poética à prova de bala e barbárie. As seis peças a seguir, extraídas de Dedo no ventilador, demonstram isso cabalmente. Al mare com Leo Martinelli, pois.
Her Majesty
Mulher dormindo,
aquém do espectro
luminoso de anúncios
e automóveis lassos
ao relento – seu corpo
exausto nada pede
senão que o deixemos
em paz, no silêncio
de um quarto, entregue
à calmaria do sono.
Inferno dos Amantes
Impiedosamente
Pernas e ancas recusam-se ao
moto contínuo (lencóis bocejam)
nenhuma litania à lua exceto
o olhar rasante, kamikaze – sono
içado por anzóis de luz
Impiedosamente
Dígitos febris alteram a senha
enquanto nebulosas se contorcem
sob o filtro ácido das horas
além do horizonte em pó solúvel
onde pisca vermelho um semáforo
Impiedosamente
Nietzsche: máscara mortuária
Um tufo robusto acima
dos lábios, inchando a couraça
do gesso mortuário – os pêlos
teimavam em seguir crescendo,
refluindo ao menor sinal
de vida do nariz à boca
(como parasitas em fuga
das tripas do velho hospedeiro)
– tufo não: tufão
revoada
de pavios castanhos prestes
a acender no meio do rosto
explosão similar à relva
que se alastra em torno da cripta,
ao limo que germina em cada
pedra – errata esquiva da obra
erguida a golpes de martelo.
A César...
Atingido em fuga
(tiro certeiro no crânio)
o imberbe marginal
caído no meio da turba
de inúteis linchadores
enxuga com dedos barrocos
a gosma rubra da cabeça
fazendo-a respingar
nas botas do policial
que chama a ambulância
de olho na van
do repórter local
Dois fogos
1. O primeiro deseja
atacar sob o crivo desses
catres luminosos que ladeiam
cada flanco da avenida
sitiada entre dois morros
pelos comandos em guerra
2. O segundo planeja
evadir-se em vias de sinais
opostos sobre a tela
de asfalto e lama onde a
chuva e os faróis desenham
torrentes de alta voltagem
Museu Cotidiano
Esquecer para lembrar: centelha inglória
da renúncia, palavras turvas, membros inertes
– muletas de causa/efeito para maior
segurança dos instintos – o corpo, fábrica
de flertes, quer abrigo, pares e poros,
um pouco de atrito – este nó que de tão
cego não desata nem sacia (tarde de maio
ou joy forever?) – exilados da carne a
envenenar-se de espírito, fardos mutuamente
inúteis – agora deixa sangrar: uma
fina, milenar garoa, salpicando carbono
em flores fósseis (voltem sempre)
Pequena paisagem
Face em foco
sobre o rio – a mão
afaga o seixo
antes de atirá-lo
ao reflexo móvel
do último gesto
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