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Lygia
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 27/8/2008 · 25 votos · nenhum
  
Publicado originalmente em 13/12/2007.

Em entrevista ao Portal, Lygia Fagundes Telles fala sobre seu novo livro de contos inéditos, Conspiração de nuvens e sua obediência à inspiração. Assista também ao documentário Narrarte, sobre a escritora, na TV Literal.


Seu primeiro livro com texos inéditos desde Invenção e memória (Rocco), de 2001, Conspiração de nuvens acaba de vencer o APCA de Literatura com seu delicado traçado em que se confundem as fronteiras entre lembranças e ficções. Lygia Fagundes Telles vive um momento de inspiração. Para a autora, que completou 84 anos em 2007, a palavra "inspiração" deveria ser reabilitada no dicionário pessoal dos escritores – pois não há literatura sem ela.

"Alguns fatos que conto em Conspiração de nuvens aconteceram, alguns poderiam ter acontecido e não aconteceram. Entram ficção e memórias, é uma mistura de tudo."

Transitando à vontade entre o que foi e o que poderia ter sido (e que transforma em ficção), Lygia encontra em Santo Agostinho um lema para guiá-la entre as descobertas que faz ao escrever o novo trabalho: "Gosto muito de Santo Agostinho. Tenho lembrado muito de uma frase dele: a casa da alma é a memória," comenta a escritora paulista. Ao investigar os cômodos dessa casa, seu relógio pára nos momentos que escolhe e quando ela, senhora desse tempo ideal para criar, deseja: "Não meço tempo quando escrevo, vou me entregando com muito amor ao trabalho. Escrever é o que eu sei fazer, então é melhor aproveitar o embalo. Inspiração é uma palavra antiga e saiu de moda, mas devia ser retomada. É uma palavra muito boa. Eu obedeco à inspiração, sigo o impulso".

"Quando estou inspirada abro minhas asas e saio. De vez em quando eu me fecho como uma concha," conta. Lygia lembra que todo escritor lida com esses avanços e recuos: "O autor entra de peito aberto nas coisas, e depois se embrulha; às vezes se retrai, se fecha como uma concha, fica secreto, e em seguida se abre. É uma confusão! " O novo trabalho revela esses movimentos: "A narradora sou eu, mas também não 'sou'. Eu me fecho, me protejo, mas de repente escancaro as portas. Até que eu entre de novo nas minhas cavernas," diz, ressaltando: "O livro novo é completamente diferente dos meus anteriores."

Seu processo é de escavação, de busca intensa pela "casa da alma", que tem recebido visitas constantes da autora. É lá que se mune de ferramentas essenciais para dar fôlego ao trabalho: esperança e inspiração. "Eu vou até a memória, visitar minha alma, e o que encontro lá? Às vezes tristeza, às vezes desânimo, e às vezes tamanha esperança que sinto vontade de dar a mão ao próximo, e ajudá-lo. Escrevendo, eu procuro ajudar o próximo, que é o meu leitor. Se acertei ou não acertei não sei, isso o leitor é quem vai dizer. Quem sabe através do meu texto eu posso fazer o que Jesus Cristo pedia – Amar ao próximo como a si mesmo?", sugere Lygia.

"Mas às vezes não amo a mim mesma", revela, rindo. "Então fico travada. E aí não escrevo. Mas quando estou gostando de mim, é com tanto amor que estendo a mão ao meu leitor e digo 'vem'. Quando fico triste, é só até que venha - olha a palavra mágica - a inspiração. (A Clarice [Lispector] também achava que a inspiração era uma palavra bela que saiu de moda e é insubstituivel.) Espero que venha aquela força dentro de mim e me atiro ao meu trabalho com paixão. É uma luta. Dizia Carlos Drummond de Andrade, 'lutar com palavras / é a luta mais vã / entanto lutamos, mal rompe a manhã.' Eu amava o poeta mas não acho que seja uma luta vã. O escritor, neste país tão miserável e tão desesperado que é o Brasil (e ao mesmo tempo tão maravilhoso), ele pode ajudar seu leitor através do seu texto. E a única contribuição que posso dar ao meu país é através da minha palavra escrita."

O que o leitor de Lygia pode esperar, então, de Conspiração das nuvens ? "Eu estou inteira neste trabalho novo. Continuo escrevendo e vou escrever até a morte. É um impulso meu, é o que eu sei fazer."

Para conhecer melhor Lygia Fagundes Telles, assista ao documentário Narrarte, dirigido em 1990 por seu filho Goffredo Telles Neto e Paloma Rocha, e premiado no Festival de Cinema de Gramado.


> Veja aqui a Narrarte.


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