Com Graciliano Ramos, ela dividiu uma cela do presídio Frei Caneca, enquanto com Manuel Bandeira discutia filosofia na espera pelo bonde. A Dra. Nise da Silveira, que revolucionou a psiquiatria no Brasil, chegou preferir os ensinamentos de Machado de Assis aos de Freud.
"Para todas as palavras tem um sonho." - Fernando Diniz.
Única mulher entre os 157 alunos matriculados na turma da Faculdade de Medicina da Bahia, a alagoana
Nise da Silveira não teria nesse detalhe a maior distinção de sua trajetória. Sua sensibilidade a levaria ao convívio de escritores e artistas, e influenciaria a descoberta de métodos revolucionários para o tratamento de pacientes com distúrbios mentais.
Após a formatura, em 1927, Nise seguiu para o Rio de Janeiro, instalando-se primeiramente em uma pensão em Copacabana e, em seguida, em Santa Tereza. O bairro ainda oferecia sossego e aluguel barato. A Rua do Curvelo (hoje, Dias de Barros), como conta a pesquisadora cearense Elvia Bezerra em
A Trinca do Curvelo (Topbooks), passou então a abrigar também a jovem doutora, além do alagoano Otávio Brandão, um dos principais elementos dos quadros do PCB, e que a apresentaria à obra de Nietzsche e Tolstoi. Na casa em frente à de Nise morava o poeta Manuel Bandeira; no Largo do Curvelo, Nise e Bandeira falavam de poesia e da vida enquanto esperavam o bonde. Por essa época, Nise chegou a ser colaboradora de A Manhã, jornal de Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues.
A vizinhança ilustre só foi abandonada quando Nise passou no concurso para médica psiquiatra, em 1933; mudou-se do Curvelo para viver e trabalhar no Hospital de Assistência a Psicopatas, na Praia Vermelha. Lá, prosseguiu com suas leituras de orientação marxistas, iniciadas sob a influência de Otávio Brandão; em 1936 (Ditadura Vargas), descobertos seus livros e anotações "subversivos", foi denunciada por colegas do Hospital e levada para o DOPs; transferida para o presídio da Rua Frei Caneca, ficaria lá por um ano e quatro meses, entre companheiros como Olga Benário, Eneida de Moraes, e o conterrâneo Graciliano Ramos.
A descrição que o escritor faz de Nise em
Memórias do Cárcere relembra a fragilidade e inteligência da médica: "Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, reduzir-se, como se escusar de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. (...) Nise, acanhada, tinha um sorriso doce, fitava-me os bugalhos enormes..."
Na rotina da prisão, Nise e Graciliano procuravam se animar com uma brincadeira: passavam horas discutindo que filmes iriam assistir no cinema, chegando a requintes de imaginar em que cinema e horário seria exibido, como se pudessem a qualquer momento sair da cadeia e conferir a sessão. A amizade se estreitava, tornando mais tolerável o ambiente: certa vez, por ocasião da publicação do romance
Angústia, de Graciliano, Nise organizou, junto à Eneida e à mulher do escritor, Heloísa (a quem permitiam às vezes visitá-lo), uma festa numa das salas do presídio; prepararam almoço especial e flores para celebrar o lançamento do livro, impresso após vários atrasos.
A amizade entre a psiquiatra e o romancista sobreviveria ao período do cárcere. Diferentes em vários aspectos - Graciliano era indiferente aos animais, tão queridos de Nise, por exemplo - tinham, no entanto, um interesse comum: o ser humano.
"Eu tinha uns seis pra sete anos quando eles saíram da prisão. Nise freqüentava a casa e era muito amiga da minha mãe. Ela nos tratava com muito afeto, demonstrava querer muito bem a todos nós", lembra Luísa Ramos, filha de Graciliano.
Após o cárcere, Nise só voltaria a trabalhar como psiquiatra em 1944, no Hospital Psiquiátrico Pedro II. Logo se opôs com firmeza aos tratamentos impostos aos pacientes, desaprovando abertamente as práticas empregadas na época, como o eletro-choque, o choque de insulina e a lobotomia. Acabou transferida para a área considerada menos nobre do Centro Psiquiátrico, o setor de terapia ocupacional. Em 1946, seu trabalho já rendera frutos na instituição e Nise pôde criar a Seção de Terapêutica Ocupacional, no hospital de Engenho de Dentro.
Amor por Machado de Assis
Segundo Elvia Bezerra, Nise procurava despertar entre os estagiários o interesse por seu escritor brasileiro preferido: "Dizia que largassem seus manuais de psiquiatria e lessem Machado de Assis, que ele havia estudado profundamente a alma humana". Autores teatrais também eram lembrados no dia-a-dia com os pacientes (ou "clientes", como Nise preferia chamá-los). A partir da leitura de textos de Antonin Artaud, Nise criou as bases para uma experiência inovadora no tratamento de esquizofrenia. No "Relatório de 20 anos do Centro de Terapêutica Ocupacional", publicado no livro
Imagens do inconsciente, Nise observou que "o teatro não alcançou ainda na Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação o nível que cabe a esta atividade (...) O teatro para esquizofrênicos (atores e espectadores), deveria ser teatro segundo conceito de Antonin Artaud. Teatro que apresente aos olhos certo número de quadros, de imagens indestrutíveis, inegáveis, que falarão ao espectador diretamente".
Das experiências em terapia ocupacional, a que tornou mais célebre o Centro foi o atelier de pintura e modelagem, cuja produção abundante levaria à criação do Museu de Imagens do Inconsciente, em 1952. Em 1956, fundou a Casa das Palmeiras, clínica de reabilitação para doentes mentais, em regime de externato, que privilegia atividades expressivas. Influenciada por Carl Jung, com quem estudou em Zurique entre 1957 e 1958, pesquisou mitologia grega para melhor compreender as imagens trabalhadas na terapia por seus pacientes. Os trabalhos expostos no Museu acabaram por despertar a atenção de outros meios além do médico por sua qualidade artística. A crítica destaca, até hoje, pacientes como Fernando Diniz e Emydgio de Barros. "Emydgio de Barros é um dos raros gênios da pintura brasileira", afirma Ferreira Gullar, que conheceu a Dra. Nise e o Museu de Imagens do Inconsciente através de Mário Pedrosa. "No começo de 1952 ele me convidou pra ir até lá conhecer os trabalhos de Emydgio, Raphael... Passei a conversar com Nise sobre arte e política e escrevia sobre as exposições", conta o poeta e crítico. Para Gullar, "há bons pintores e há maus pintores, independente de serem loucos. Eu olhava os trabalhos como expressão de artistas".
A Nise interessavam os aspectos da arte que pudessem revelar caminhos para a compreensão do funcionamento da mente fragmentada pela esquizofrenia. Para pensar a evolução de seu trabalho e explicar o que desenvolvia, arriscou-se na literatura utilizando a forma das cartas na descrição de suas descobertas. Em Cartas a Spinoza (Ed. Numem), ela desenvolve questões comuns ao trabalho de ambos. O livro é considerado uma das chaves para o pensamento de Nise da Silveira; escrito na forma livre de missivas, surgem naturalmente memórias da infância, da Sala 4 na cadeia, do convívio com mestres e comentários sobre os avanços em sua pesquisa. Nise publicou ao todo 12 livros e mais de uma dezena de ensaios em periódicos sobre aqueles que Graciliano Ramos chamou de "seus queridos loucos".
[Publicado originalmente por Cecilia Giannetti na Revista Veredas].
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