Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 29/09/2006.
Curta em que Gullar fala sobre sua veia de artista plástico pode ser visto aqui, no Literal. E também as colagens e desenhos do poeta.
"Antes de ser poeta, pensava que ia ser pintor, depois a poesia assumiu o primeiro plano. Mas me tornei crítico de arte, um estudioso da arte, uma pessoa inteiramente dedicada e envolvida com a arte o tempo inteiro. Eu penso mais sobre arte do que sobre literatura. Leio e penso mais sobre arte do que sobre literatura. A minha maneira de pensar sobre literatura é fazer os poemas. A reflexão sobre a literatura em mim é o poema."
Este e outros singulares depoimentos de Ferreira Gullar compõem o curta-metragem que acaba de estrear no Festival do Rio 2006: Por acaso Gullar. Como o título sugere, nasceu mesmo das coisas indeterminadas, não premeditadas nem intuídas. A idéia inicial era fazer um vídeo para o projeto Te Vejo Na Laura, um programa multimídia, com música, cinema, poesia, que acontecia na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, Rio de Janeiro. "A gente fazia alguns especiais, um deles era sobre o Gullar e resolvemos fazer um vídeo só para passar no projeto, que ia ter música, outras pessoas lendo os poemas dele", conta Rodrigo Bittencourt, um dos diretores. Gullar iria participar desse evento na Laura Alvim, mas seus desenhos, colagens não teriam como ser expostos. O vídeo nascia aí, dessa necessidade de mostrar também esta outra verve do poeta, que segundo ele toma mais seu tempo que a poesia.
"A gente chegou, já estava tudo em cima da mesa, ele começou a explicar e a idéia era essa mesma, de trazer aquele trabalho para o evento da Laura Alvim. Mas depois disso, a gente foi ficando, conversando, gravando. Tem muito mais material do que aparece no curta. Ele contou como criou Nasce um poema. E pela reação das pessoas no Te Vejo Na Laura, a gente viu que tinha consistência para pensar em fazer um curta com isso", relembra Maria Rezende, também diretora do curta-metragem.
O próprio Gullar adorou. No vídeo, o poeta esta exposto de um jeito intimista, completamente à vontade, mostrando os desenhos e colagens que faz. "E a gente se animou para transformar esse vídeo em um curta-metragem. Por isso o nome, Por acaso Gullar", diz Rodrigo. Mas essa idéia ficou adormecida porque surgiu outra, a de fazer um longa-metragem, envolvendo mais poetas. "Fomos gravar com Arnaldo Antunes, Elisa Lucinda e Chico César, que são os outros três poetas, personagens do longa. A idéia era mandar um longa para o Festival do Rio. Mas acabou não dando tempo e sugerimos mandar o curta. Depois que eles toparam a gente finalizou", explica Maria.
O curta foi filmado em 2004. O longa teve início em 2005 e as imagens foram finalizadas neste ano. Está atualmente em montagem. "Como a gente não vive de cinema, vai fazendo no ritmo dos outros trabalhos", diz a diretora, que é poeta e há dois anos trabalha com cinema e vídeo, fazendo making-offs e editando. Autora de substantivo feminino, publicado em 2003 e bancado por ela, Maria está com o segundo livro de poemas pronto, à procura de uma editora. E Rodrigo emenda: "Assim como foi com o curta, o longa também estamos fazendo com nosso dinheiro, sem patrocínio". O que significa que também não tem previsão de ser finalizado. Rodrigo é músico, faz trilha para cinema e está finalizando seu segundo disco – o primeiro, independente e lançado em 2003, chama-se Canção para ninar adulto.
Mas voltemos ao acaso. Ele é a questão central porque o filme nasceu assim, sem um cuidado anterior. "Fomos para a casa do Gullar com uma câmera, bater um papo. E, ao mesmo tempo em que isso tem uma cara informal, ganha com clima. Foi esse clima que a gente quis levar pro longa", fala Maria. E mesmo sem iluminação artificial, a luz ao fim da tarde no apartamento de Gullar também ajudou para esse clima de informalidade. A partir daí, foi-se buscar os elementos para construir o curta-metragem. "Quando você balança os dados, está chamando o acaso para jogar com você, não se tem controle dos números que vão cair ali. E quando eles caem é que se faz um território. Por isso essa idéia de os dados caírem e o Gullar começar a falar de uma coisa. Resolvemos fazer isso com o longa inteiro", explica Rodrigo, que desenvolve esse conceito que ele chama de cinema-jazz: "Em nenhum ponto de nenhum filme, quando eu for fazer documentário, vai ter essa coisa de chegar, armar um negócio, ou alguma decupagem de plano. Tudo vai ser feito na hora, com a luz natural do lugar, sem decupagem, com a câmera na mão. No jazz moderno tem esse negócio, você está tocando um tema e os caras pegam aquilo e começam a improvisar. Algo que deu um negócio sem território, que é uma ligação que quero fazer com o cinema, essa coisa de improviso, para depois, na montagem do filme, poder estabelecer esse território, esse tema." A idéia nasceu ali, depois daquela tarde com Gullar em Copacabana, a princípio para se falar sobre artes plásticas.
" A gente pegou essa coisa do acaso de quando ele fala do Mallarmé", diz Maria. Gullar abre o curta relembrando o poeta francês: "O acaso está presente em tudo. Toda obra de arte tem o acaso. Aliás, existe aquele poema célebre do Mallarmé, que ele diz: 'Um lance de dados jamais eliminará o acaso'. E na obra de arte é a mesma coisa. Ele era obcecado em querer eliminar o acaso. Como o João Cabral também. Eu não, eu não estou querendo eliminar acaso nenhum".
Nesse ponto o poeta já sai um pouco das artes plásticas e fala de poesia. Ele também falou sobre a história de "Nasce um poema", que escreveu 32 anos depois de ter pensado em escrevê-lo. Este depoimento ficou para o longa. "É uma história que ilustra o processo de criação dele. Ele gosta de escrever enquanto caminha pela rua, escreve sobre algo que o mobiliza. Sobre esse poema, ele estava na Tijuca, entrou num armarinho e ficou tocado pelo silêncio do lugar, e quando ele ia escrever o poema, o Amílcar, amigo dele, o chama para pegar o ônibus e ele esquece. Mais de 30 anos depois, ele vai escrever um poema sobre escrever no meio da rua e daí volta aquela imagem do armarinho que ele nem lembrava mais. Na verdade, na nossa conversa ele fala teoricamente sobre a criação, mas ficou algo mais próximo de contar histórias. E fizemos as outras entrevistas neste clima do Gullar, tentando manter o informal e criar um diálogo entre estes quatro poetas que nunca se sentaram juntos e se encontraram, não para a gente, para o filme", finaliza Maria, dando pistas por onde vai caminhar o longa, que leva o título de Um dedo de prosa.
O curta, que passa este final de semana no Festival do Rio, participa também do Festival de Vitória, e do Festival de Curtas do Rio de Janeiro, em novembro.
> Confira Por acaso Gullar aqui na TV Literal
> E veja as colagens e os desenhos do poeta
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