TEXTO “SUJO” PARA O POETA DO “POEMA SUJO”
ESCUTA, FERREIRA GULLAR!
Que é isso FG? A quem você está servindo FG? Será que você, FG, está falando a verdade? Acho que não! Qual o porquê dessa raiva? Será que você terá coragem para refazer tudo o que escreveu? E, inclusive, FG, você está completamente desinformado:
1. Não foi em Bolonha, mas, em Trieste;
2. Foi Franco Basaglia, o psiquiatra italiano, a quem você, FG, se refere;
3. Será que não estão cochichando no seu ouvido, FG?
4. A Lei 10216, foi uma conquista nossa, em especial, dos familiares, dos usuários e dos técnicos. Tive um filho internado, faz mais de vinte anos e vi o que é um hospital psiquiátrico por dentro. Sei do que estou falando e, se falo é por experiência própria. Aqueles lugares eram muito, muito ruins. O que meu filho e eu presenciamos, era dramático: portões, portas, grades, cadeados, violência do atendente despreparado, falta de higiene e de privacidade (privadas sem portas), excesso de medicação (impregnação), camisa de força química e física, cárcere privado, até mesmo, pasmem, de crianças com menos de dez anos. Isso tudo, caríssimo poeta, eu vi! Isso tudo, não é literatura, é legítimo! Foi testemunhado por mim! Veja bem, senhor FG, não tenho nenhuma pretensão de criticar ao profissional que lá trabalha, desde o psiquiatra, até ao faxineiro. Será que você nunca ouviu falar disso, FG? Graças às nossas denúncias, tudo isso está deixando de existir (mas, ainda existe, FG, infelizmente).
Prezado senhor FG, cresci muito como pessoa, durante todos estes anos, repito, mais de vinte. Aprendi com os usuários, familiares e com profissionais, de cada um deles, um pouco... Consegui livrar meu filho das garras do hospital psiquiátrico. Será que você fez o mesmo? Por acaso você abandonou sua posição de poeta consagrado, para dedicar-se aos seus filhos? Porque eu o fiz! Joguei tudo para o alto, minha posição de executivo, a fim de estar “ao lado” de meu filho, para quaisquer circunstâncias. Sei que a sua posição de poeta consagrado, carrega o peso da fama e, acaba-se deixando tudo o mais, de lado, para sustentar-se essa posição. Mas, como você deve saber, “tudo o que é sólido, se desmancha no ar”. Responda-me, com sinceridade, poeta, o que é mais importante para você, a poesia ou seus filhos? O que você fez, para livrar seus filhos do hospital psiquiátrico? Talvez não haja feito nada, porque você, é poeta. E poeta, escreve poesias, não é FG? Você colocou a poesia acima de seus filhos! Você deve ter feito o que todos fazem. Até eu agi assim um dia, achando que o lugar para se tratar uma doença mental era, exatamente, o hospital psiquiátrico, porém, isso, antes de tomar consciência de que, o hospital psiquiátrico não trata, somente contém. Assim que percebi o que era aquele lugar de não-tratamento, tirei-o de lá, imediatamente. Essa é uma história que, eu poderia contar-lhe, um dia... Jamais aceitei o hospital psiquiátrico, nem o aceito até hoje, passados quase, vinte e cinco anos, senhor FG, por mais moderno que este possa parecer. Meu filho, após eu retirá-lo do hospital, vem sendo tratado com êxito, nos serviços abertos, substitutivos ao hospital psiquiátrico, CAPS-Centros de Atenção Psicossocial, fazendo uso de medicação de última geração, toda ela, fornecida pelo SUS. Esse seu texto é muito ruim, muito amargo, muito radical e raivoso. Até consigo entender, pois, de fato, não é fácil. Não posso afirmar que, em todos estes anos, não tivemos altos-e-baixos, mas afirmo, com total segurança que, em todos os momentos de crise, fomos carinhosamente acolhidos e tratados, com o mais profundo respeito e, por uma equipe multidisciplinar. Estamos pasmos com a distorção que o senhor coloca em seu texto! Você detonou tudo, FG, entretanto, saiba que, essa é uma linda história de milhares de pessoas, dos mais distantes rincões deste imenso país e, de todas as camadas sociais. A saúde mental no Brasil, mundialmente reconhecida, serve de modelo para muitos outros países e, sem dúvida, está mudando para melhor. Caro FG, se me permite lhe dar um conselho, aí vai: Se os seus filhos ainda estiverem internados, mesmo que, em uma clínica particular para “famílias de posses”, mesmo assim, tire-os, imediatamente! Abandone a poesia e trate-os, você mesmo! Perca o medo, FG e conviva com seus filhos! Garanto que irá aprender muito com eles. Sabe qual é a receita FG? É AMOR!
Portanto, senhor FG, sou imensamente agradecido por tudo o que o SUS, acrescido dessa Lei, que o senhor trata por idiota, fizeram por meu filho.
Geraldo Peixoto
Geraldo Peixoto · São Vicente (SP) · 14/4/2009 16:27