Olha, ele me disse que gostava de mar, então lhe comprei uma concha, daquelas que fazem barulho de onda. Mar nervoso! Desde garoto queria enfrentar o bicho bravo. De morar na cara dele, tomando a areia toda como quintal, ganhou uma cor acinzentada nos olhos. Cor de coral, quando deixa de existir e se torna casca, apenas, casa dos outros.
Quando levou a concha ao ouvido esquerdo, sorriu de leve. Parecia, até, que estava fingindo apreço ao presente. No fundo, morria de saudades das ondas nervosas, da teimosia do mar, movimento de tragar a gente e não devolver mais pro firme constante. Insistia que o fundo do mar era outro mundo, como o inferno e o céu. Quando completou dez anos, contava, cavou o buraco mais fundo que já existiu, mas não conseguiu alcançar muita coisa.
Aos trinta, pele marcada pelo sol, pelo sal (que não saía da água), foi encontrado desacordado, rosto colado aos grãos de areia, que não perdoavam nem o seu filho mais devoto: arranhavam a derme dele com fome tamanha. Levaram-no pra casa, colo, água quente nos pés e panos quentes na testa. Nada de acordar. Já no hospital, não conseguia pronunciar palavra. Recuperou a cor nas faces, os arranhões desapareceram e tudo o que podia contar pro mundo, tudo o que se sabia sobre a sua viagem para o outro lado era que seus olhos haviam mudado de cor, pra um azul cor de céu depois da chuva.
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