Caro Márcio, destaco e reproduzo um trecho do seu texto que acho muito perigoso porque é limitado e desconsidera a ética: ..."mas a intolerância é quase sempre uma via de mão dupla e também pode ser manifestada por alguém que, tendo adotado essa forma de pensar, rejeita de maneira cabal aqueles que pensam à moda antiga"... Neste ponto, ao mesmo tempo em que reconhece que está ultrapassado em suas idéias, você sugere que a posição da Fernanda é intolerante. Na realidade, ela apenas aponta uma verdade inconveniente – como diz Al Gore. O seu entendimento abre brechas para justificar ações de violência, de exploração, que tenho absoluta certeza você é contrário a elas.
Por que você diz ser intolerância a expressão de repúdio da Fernanda contra quem perpetua o sofrimento e o assassinato de animais? Se o objeto da violência fosse uma criança – como sua filha -, você seria tão compreensivo? Você entenderia e defenderia o outro que se acostumou a matar ou explorar meninas por prazer? O prazer no caso é o paladar.
Márcio, poucos refletem sobre isto, mas a violência é a mesma, a diferença é a vítima. Eu não tolero qualquer forma de violência, aliás, eu defendo a igual consideração de interesses. Assim como nós, os animais querem viver, querem ser livres, querem cuidar dos seus filhos. Ou você acha que não só porque são animais?
Assim também pensam os que oprimem os negros, os que oprimem os gays, os que oprimem os pobres, os que oprimem os nordestinos, os que oprimem as mulheres, os que oprimem...
Tenho certeza de que você repudia tudo isso, mas contraditoriamente faz igual ao praticar o especismo (discriminação especista pressupõe que os interesses de um indivíduo são de menor importância pelo mero fato de pertencer a outra espécie).
As pessoas pedem paz e matam e fazem sofrer todos os dias cada vez que sentam à mesa, quando compram produtos testados em animais, quando usam peles, quando se divertem ignorantemente em circos com animais e em zoológicos.
A roda das mudanças que você cita na verdade é individual, depende de cada um. Muitas pessoas se desculpam no outro que não faz, por elas não estarem agindo e aí a roda coletiva das mudanças gira lentamente. É falta de consciência, é comodismo.
Qual o problema da Fernanda ser intolerante à matança e exploração de animais? Mais uma vez uso um paralelo com base na ética: vc tolera o estupro? Se sim, você é conivente; se não, você é intolerante. A sua filha lhe fez pensar, falta apenas você agir.
Antes que você questione, sou vegana (vegetariana estrita).
Paz e luz!
Silvana Andrade · São Paulo (SP) · 4/2/2009 23:14