Por Bruno Dorigatti e Felipe Pontes
Você viu os livros mais vendidos da semana? Em primeiro lugar, já há algum tempo,
Vidas secas, de Graciliano Ramos. Em segundo e quarto lugares, George Orwell, com
A revolução dos bichos e
1984. Na terceira posição, Gabriel García Márquez com o seu clássico
Cem anos de solidão. A lista segue com Paulo Freire
(Pedagogia da autonomia), Jorge Amado
(Capitães da areia), Aldous Huxley
(Admirável mundo novo) e Clarice Lispector
(A hora da estrela). Entre os 30 primeiros, encontramos José Saramago, Celso Furtado, Sérgio Buarque de Hollanda, Marilena Chauí, J.D. Salinger, Eduardo Galeano, Max Weber, Alfredo Bosi...
Se, claro, não estamos tratando dos mais vendidos nas livrarias país afora, ao menos, é um alento ver que, para além de vampiros, cabanas e auto-ajuda, o leitor brasileiro opta, sim, pela bibliodiversidade oferecida pelos sebos Brasil afora. A lista acima mencionada é a do site
Estante Virtual, que reúne 1.753 sebos em 313 cidades país adentro e oferece quase 7 milhões de livros on-line, que podem ser comprados por meio de depósito, transferência, boleto bancário e cartão de crédito e em poucos dias chegam à sua casa. Destes, 5,8 milhões custam menos de R$ 30.
Criado em 2005 por André Garcia, formado em marketing, que precisava de alguns livros para o mestrado e não estava encontrando. Ao pesquisar nos sebos do Rio de Janeiro, percebeu o enorme vazio a ser explorado: acervos on-line, um portal que pudesse reuni-los e tornar-se o catalisador de suas vendas. Está aí a origem da Estante Virtual, que no final de 2005 vendia 10 livros por dia, número que vem crescendo vertiginosamente. No final de 2006, eram 300 livros vendidos por dia. Em 2007, 1.000, em 2008, 3.000 e em 2009, 5.000 livros vendidos diariamente. O total nestes cinco anos ultrapassa os 3 milhões de pedidos feitos, resultado das mais de 10 milhões de buscas efetuadas a cada mês. O site possui 590 mil leitores cadastrados. Em 2009, foram mais de R$28 milhões em venda, segundo números da própria Estante Virtual.
O imóvel fica numa rua bastante arborizada da zona sul do Rio de Janeiro e é na verdade uma residência adaptada ao uso comercial. No alvará de funcionamento pendurado na parede, “estudos e pesquisas” e “desenvolvimento de programas para computador sob encomenda” descrevem as atividades. O próprio André nos recebe na casa de dois andares que abriga a existência física da Estante Virtual para falar sobre sua história.
> Confira a entrevista em vídeo com André Garcia: Parte 1 | Parte 2
O começo
“A Estante Virtual começou em um quartinho de empregada na casa do meu avôs. A idéia surgiu de uma necessidade minha, ao contrário do que as pessoas às vezes perguntam, se eu era um grande cliente de sebos, se havia montado a EV porque adorava os sebos. Na verdade, eu não conhecia os sebos, se tinha ido uma ou duas vezes era muito”, recorda Garcia.
Na época em que estava fazendo o mestrado de Psicologia Social na USP, em São Paulo, André teve que procurar livros que não estava encontrando nas livrarias e nem nas bibliotecas. “Aí me deram a idéia, ‘vai num sebo’. Fui em alguns, só que achei a forma de busca muito rudimentar, pouco produtiva. Então pesquisei sebos na internet, achei seis sebos on-line e consegui alguns dos livros que precisava, mas muito caros”, recorda.
Ao pesquisar, descobriu uma centena de sebos com site, mas apenas uma foto e o contato para perguntar sobre o acervo. “Foi aí que imaginei um portal onde esses sebos todos pudessem colocar os acervos todos juntos.” A Estante Virtual entrou no ar no dia 12 de outubro de 2005, com acesso restrito ao sebos. No dia 20 daquele mês, o site estreou com 12 sebos. “Ela é muito mais que um portal, é um fomentador do mercado, que acompanha e ajuda a alavancar as vendas”, afirma André Garcia.
O software utilizado foi totalmente desenvolvido para a finalidade do site. “A Estante começou do zero. São mais de 200 mil linhas de programação que eu programei, do tamanho de um dicionário. Acho que foi uma decisão acertada, porque se eu mandasse fazer fora, teria que pegar fundos de investimento, uma coisa que eu não queria. O projeto da Estante começava livre de interferências do grande capital, justamente do que eu estava querendo me livrar, das grandes empresas”, explica.
O que André Garcia reafirma aos novos contratados é que a missão não é somente promover a Estante Virtual, mas o sebos de maneira geral, mostrar para as pessoas que ainda não os conhecem qual é o seu acervo, que livros vendem. “Grande parte do público ainda tem uma idéia de que sebo é lugar de livro velho, esgotado, caindo aos pedaços. Diria que isso hoje é a menor parte do negócio. O papel do sebo no Brasil é fundamental para democratizar a leitura com uma diversidade maior, não só os best-sellers. A livraria está muito concentrada nos mais vendidos, nos últimos lançamentos, e o sebo trabalha com o conceito de bibliodiversidade muito maior”, afirma.
Nestes cinco anos de existência, a EV acompanhou perfis diferentes chegarem para participar do site. Se no começo havia resistência daqueles mais estabelecidos em seu negócio, agora eles parecem estar se rendendo às possibilidades de vendas para todo o país de maneira rápida e segura. “São sebos que ouvimos dizer que nunca iriam entrar para a internet, nunca teriam computador na loja”, diz Garcia. Renderam-se à eficácia, segundo ele, pois é consideravelmente diferente expor seus livros para 100, 200 pessoas que passam pelo sebo em comparação ao alcance da internet. “A minha teoria inicial de que, ao reunir os acervos, iriam se reunir também as buscas demonstrou ser extremamente válida”, gaba-se, sobre o fenômeno que se retroalimenta: quanto mais acervo, mais busca, quanto mais busca, mais venda, o que leva a mais acervo sendo digitalizado.
Olhando para frente
Uma iniciativa que a EV quer levar adiante é criar um canal entre as editoras e os sebos para as vendas diretas das pontas de estoque. “As editoras lançam um grande volume de novos títulos. Em 2008, foram 50 livros lançados por dia. Se a gente tira os finais de semana e feriados, chega a 77 livros por dia. Acaba sobrando muitos livros, e não necessariamente livros ruins. Há essa necessidade das editoras de escoar essa produção”, garante Garcia. Segundo ele, alguns sebos já compram essas pontas de estoque, “mas é um processo muito nebuloso, não se sabe onde compram exatamente e as editoras querem alguém que compre em um volume muito grande. Estamos tentando sistematizar uma forma disso funcionar melhor”. Será uma venda para os sebos, não para o consumidor final, assegura.
Uma coisa que a Estante Virtual não acabou e nem teria como, pelo contrário, é a garimpagem. Para um aficionado, procurar por determinado título, determinada edição, ou encontrar um livro autografado pelo autor é algo insubstituível. Sem falar nos casos em que o livro encontra o leitor.
Os sebos
O feedback dos proprietários de sebos, segundo pesquisa feita recentemente pela EV, demonstra que estão satisfeitos com a parceria. “A Estante Virtual é responsável por metade das vendas deles. Ou seja, é como se tivesse dobrado o volume de vendas que eles tinham.” Para participar do site, os livreiros optam por planos, como o Prateleira, o mais simples, onde é possível cadastrar 2 mil livros pagando mensalidade de R$ 29,90, além da comissão de 5% por venda. O Plano Super, o maior, permite o cadastro de 60 mil livros e a mensalidade é de R$ 132, além da comissão de 5%, que só não é obrigatória para os leitores, que podem cadastrar até 100 livros de forma gratuita, uma das insatisfações apontadas por livreiros que trabalham em sebos no Centro do Rio de Janeiro.
Outro motivo da insatisfação, arrisca Garcia, vem muitas vezes do fato de a EV estar muito próxima das transações financeiras. “Às vezes alguns sebos prefeririam que a gente não estivesse tão em cima, mas acho que faz parte, é a nossa missão.” Existe também uma insatisfação quanto à categoria dos livreiros virtuais, que não possuem loja física e não precisam arcar com despesas com aluguel, luz, impostos. Ou seja, trabalham na informalidade. “Já estes livreiros virtuais prefeririam que não tivéssemos os leitores, que podem vender na EV até 100 livros. Mas acho que faz parte esses choques de interesses, são válidas as opiniões, mas estamos aí para democratizar ao máximo”, resume e acrescenta:
“O interessante observar é que livreiros virtuais passam a abrir lojas. E antes disso, foram leitores. Há casos de professores universitários que começaram a vender livros de casa, aumentaram o acervo, tornando-se livreiros virtuais para depois abrirem loja.”
O fato de os leitores poderem vender seus livros pelo site, junto com os livreiros virtuais, foi
a principal queixa ouvida pelo Portal Literal nos sebos do Centro do Rio de Janeiro, no entorno da Praça Tiradentes, em matéria de maio passado. Segundo Garcia, as pessoas físicas que vendem livros na EV não passam de 8% de todo o volume negociado, o que ele considera “muito pequeno” e não substitui a venda dos sebos. Fato é que os livreiros dos sebos do Centro do Rio, sem exceção, apontaram uma queda das vendas e indicaram a Estante Virtual como uma das responsáveis, ainda que mencionando o incremento das vendas on-line, mas que não chega a compensar o que deixa de ser vendido.
A Estante Virtual alcança atualmente 313 cidades, em todos os Estados, algo alcançado no final de 2009. Os últimos a se integrarem ao site, depois de uma campanha, foram a Amazônia, o Acre. “Mas a concentração é a concentração econômica do país, não tem escapatória. Sudeste, Sul, no Nordeste, moderado, no Norte, muito pouco. A grande surpresa é que o maior acervo on-line está em João Pessoa (PB)”, aponta.
A descentralização seria interessante, aponta Garcia, que, em parte, é feita pelo site: “Os livros estão concentrados, mas os leitores de cidades pequenas ou de outras regiões conseguem usufruir de tudo. O acesso a esses livros não é mais restrito a quem está nas grandes capitais”.
“O interessante é ver que as pessoas estão querendo sair do óbvio. Pelo menos o público da Estante está querendo transcender os livros mais vendidos, os últimos lançamentos. Essa é uma causa que a gente tem que agarrar a todo custo. A gente não pode ter um país de leitores de best-sellers. A gente tem que ter a diversidade.”
“Entre os casos pitorescos, há o de um livro escrito pelo o avô, a família já não tinha mais um exemplar sequer e conseguiram achar o livro na EV. E tem os senhores de 80 anos comprando livros pela internet. “A gente vê uma multiplicidade de públicos e de interesses de leitura muito grande. Temos que comemorar e estimular isso.”
Curiosamente, a relação de André com a leitura começou tarde, a partir dos 20 anos. “A escola, ao menos para mim e muita gente que conheço, ensinou a não gostar de ler. O fato de trabalhar com livros, sem dúvida, me fez ler mais. Essa descoberta de que os sebos não são somente lugar de livro velho, empoeirado me ajudou também”, diz.
De seu escritório de bancadas simples e poucos móveis, Garcia ostenta em suas estantes reais livros de desenvolvimento de softwares, a maioria em inglês, como o
Developer’s Cookbook. Na casa de dois andares, trabalham com ele mais nove funcionários, que se dividem entre a tecnologia de informação, o contabilidade, o marketing.
Templo sagrado dos bibliófilos de plantão e refúgio definitivo dos estudantes duros, a Estante Virtual chega a movimentar mais de R$ 4 milhões por mês em livros. Isso sem tocar em um único exemplar sequer.
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