Imagine um personagem ébrio, alguém que deseja viver ao estilo de um camaleão, como parte de um cenário, uma alma invisível. Sua mulher não lhe vê, seu filho não lhe escuta, seu chefe não lhe nota, mas ele não se importa. Os dias se seguem em ciclos eternos, uma atitude automática para cada dia da semana. Às segundas, jogar os manuscritos que chegam via correio diretamente na lata do lixo. Às sextas, ir ao bar do Espanhol, onde todos os que estão presos em ciclos eternos se reúnem para beber a dose de esquecimento semanal.
Esse é o perfil do personagem principal de
Os espiões (Objetiva), sexto e mais novo romance de Luis Fernando Verissimo, o primeiro escrito por livre e espontânea vontade do cronista, sem ser por encomenda. O livro conta a história desse editor misantropo de Porto Alegre que em uma segunda-feira atípica recebe um manuscrito da cidade de Frondosa, confeccionado por uma autora chamada Ariadne (com florzinha no pingo do i): uma história de amor e perfídia que resulta numa incrível tragédia, ao mesmo estilo do mito grego, só que em versão do interior gaúcho e supostamente baseada em fatos reais.
A história é uma subversão cômica da literatura policial e de mistério, transposta para um universo de referência temática da própria literatura. Algo que Verissimo faz com freqüência em seus romances, desde
O Jardim do Diabo (Objetiva), em que o protagonista é um escritor fracassado de livros de mistério envolvido numa trama policial, passando por
Clube dos Anjos (Objetiva), escrito ao estilo Agatha Christie, até
Borges e os Orangotangos Eternos (Companhia das Letras), no qual um tradutor de Jorge Luís Borges se vê as voltas com assassinatos e forças ocultas.
"Eu acho que todo romance, na medida em que é sempre uma investigação, um desvendar, é literatura de mistério. Quando há um crime e, no fim, uma solução, é um policial clássico. Mas mesmo quando não há um corpo e um culpado, não deixa de ser um mistério desvendado", respondeu Verissimo ao
Portal Literal, quando perguntado sobre essa sua paixão pela literatura de policial e de mistério. "Na verdade, tive a minha fase de policiais e livros de espionagem mas ultimamente, a não ser pelos livros do Le Carré, não leio nada do genero. Aliás, tenho lido quase nada por prazer", confessa o cronista.
Retornemos ao personagem principal de
Os espiões (Objetiva). Ao receber o envelope branco, com o citado manuscrito em mãos e de posse do conhecimento do mito grego, a reação é de imediato reconhecimento de que ali, naquela história, está o fio da meada capaz de retirar a vida do torpor, uma narrativa na qual vale a pena se agarrar, uma linha capaz de guiar o caminho da saída no labirinto dos ciclos eternos da rotina diária. "Como era mesmo o mito de Ariadne? Filha de Minos, rei de Creta. Apaixonada por Teseu, a quem dera um novelo de linha para ajudá-o a sair do labirinto depois de matar o Minotauro. Ariadne ficara segurando a ponta da linha para o amante, na entrada do labirinto. Agora havia uma Ariadne, fictícia ou não, segurando a ponta de uma linha num lugar chamado Frondosa. A outra ponta da linha estava ali na minha frente", conta o narrador já no primeiro capítulo.
Desse ponto de vista, a Ariadne de
Os espiões (Objetiva) não seria assim tão o mito grego invertido o quanto a descrição na contracapa do livro pode fazer parecer. Ao mergulhar cada vez mais nos mistérios do manuscrito de Ariadne, o narrador-protagonista, acompanhado de seus companheiros de bar, que tanto ou mais que ele se agarram ao fio do manuscrito, realiza um movimento de saída do labirinto de sua própria vida. Será mesmo?
Claro que Verissimo não fala nada explicitamente sobre isso em
Os espiões (Objetiva). Tampouco faz grandes considerações sobre os meandros do mercado editorial só porque o personagem principal do livro acontece de ser um editor e tem discussões hilárias sobre a importância da vírgula, ou a magnifica compulsão de escrever que acomete certas pessoas comuns, como um revisor de textos chamado Dubin. São leituras possíveis, mas a intenção do livro é tão simplesmente, segundo o próprio autor, contar a história de um engano, "eu queria fazer um livro de espionagem num tom menor, não uma paródia mas também não um
thriller tradicional, e o fato da ação se passar numa cidadezinha do interior e não no mundo das grandes tramas dá uma medida dessa ambição", nos disse. Essa deliciosa despretensiosidade que nos faz viciados em Verissimo: a capacidade do cronista em encerrar um universo de sofisticação intelectual, repleto de referências eruditas e populares, numa linguagem cristalina, substantiva, leve, motivo, muitas vezes, de esnobismo por parte da crítica. Algo com o que ele não se preocupa muito, já que, em termos de público, Verissimo é uma irresistível unanimidade brasileira.
Mas "romance não é cronica. Não só o cronista que se mete a fazer romance deve lembrar-se disto constantemente, como o leitor também. Espero que as pessoas saibam fazer a distinção", nos respondeu Verissimo, quando perguntado se acha que as pessoas procuram muito os acontecimentos “que poderiam ter acontecido”, típicos da crônica, também em seus romances. Mesmo que ele nunca nos aborreça com reflexões diretas sobre o assunto, a sua obra é marcada por essa dicotomia entre a ficção e a realidade, talvez um resvalo do trabalho de cronista em ficcionalizar o real para que o entendamos melhor. Em todos os romances de Verissimo essas categorias se confundem, ora os personagens tomam a ficção escrita como realidade, ora a realidade se mostra parecida com a ficção. Para a última pergunta da nossa entrevista - Qual a importância da ficção em um mundo onde a realidade constantemente subverte a lógica? -, Verissimo respondeu: "Pois é. Vai chegar a um ponto em que só na ficção encontraremos algo parecido com a realidade".
Em suma,
Os espiões (Objetiva) é um excelente livro, boa companhia tanto para momentos de profunda reflexão literária, quanto para os momentos sob o sol, numa praia afastada, onde o que se quer é apenas distrair-se.
>O novo livro de Luis Fernando Verissimo fez parte de uma campanha de doação de livros no Rio Grande do Sul (leia mais aqui) e teve os dois primeiros capítulos liberados aqui.
>Acesse o site de Luis Fernando Verissimo no Portal Literal.
>Leia mais sobre Luis Fernando Verissimo aqui.
>Veja o vídeo promocional de Os Espiões (Objetiva) aqui.
* Com a colaboração de Bruno Dorigatti
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