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Ruy Castro deixa seu Depoimento para a Posteridade no MIS
Felipe Pontes, Rio de Janeiro (RJ) · 2/2/2010 · nenhum
Marcio Scavone
O projeto Depoimentos para a Posteridade, iniciado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1966, possui hoje mais de 4 mil horas em declarações de cerca de mil personalidades de destaque na cultura brasileira. Augusto Boal, Cartola, Cícero Dias, Jorge Amado, Pixinguinha e Roberto Burle Marx são alguns nomes. Nelson Rodrigues foi um dos primeiros, em 1967. O que o anjo pornográfico não poderia sequer desconfiar é que seu biógrafo teria também a oportunidade de contar a própria vida e lançar uma mensagem ao futuro, na mesma sala, da mesma sede do MIS no centro do Rio de Janeiro, 43 anos depois. No último dia 26 de janeiro, o escritor e jornalista Ruy Castro gravou o seu próprio Depoimento para a Posteridade.

"Há 43 anos eu estava neste museu, do outro lado do microfone, como repórter do Correio da Manhã cobrindo os depoimentos prestados por figuras como Nelson Rodrigues, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Jamais imaginei que um dia eu estaria sentado exatamente do outro lado da mesa, registrando meu próprio depoimento", confessou o próprio Ruy logo ao início de sua fala.

Jornalista prodígio, Ruy aprendeu a ler com um exemplar do Última Hora, no colo de sua mãe, aos quatro anos de idade. Ela sempre o pegava para ler e rir em voz alta "A vida como ela é", coluna de Nelson Rodrigues. Um dia, associando a fala da mãe às letras da página, Ruy conseguiu lê-la. "A descoberta da linguagem verbal é quase que você nascer de novo. Na verdade, você está nascendo para um novo mundo, que passa a dominar, que é o mundo da linguagem. E se você se lembra do dia em que isso aconteceu pela primeira vez, é como se lembrar do dia do seu parto. Eu me lembro desse dia", observou. O escritor associa sua vontade de ser jornalista ao fato de seus pais nunca jogarem fora um jornal ou revista sequer, "de modo que ao aprender a ler eu tinha acesso a um grande número de informações sobre o período logo anterior ao meu nascimento, o que despertou uma curiosidade inestancável pelo passado".

Mesmo, como nunca escondeu, reprovado no vestibular para jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia, Ruy continuou certo em exercer a profissão, e "tinha que ser no Correio da Manhã", ressaltou. Fez por onde ingressar na equipe daquele jornal aos 19 anos, em 1967. Trabalhava como profissional, na geral - "o que significava cobrir acidentes de trânsito" - e ganhava como amador, isto é, nada. Mesmo assim, no dia 4 de maio daquele ano escreveu um artigo em decorrência dos trinta anos da morte do compositor Noel Rosa. A matéria saiu no matutino e, para sua surpresa, à noite um recorte do artigo fazia parte da exposição que o mesmo MIS organizara em homenagem ao compositor. Presente ao evento de inauguração, Ruy foi abordado por Ricardo Cravo Albin, que o apresentou a todos os compositores à mão. "Em 40 segundos eu apertei a mão de toda música popular brasileira", lembrou.

Fosse como repórter, redator ou colaborador, trabalhou em quase todos os veículos da grande imprensa do eixo Rio - São Paulo. Esteve nas revistas Manchete e Diners, editada por Paulo Francis. Fez parte do primeiro time de O Pasquim e criou a revista de Domingo do Jornal do Brasil. Em 1973 era editor da revista Seleções em Portugal, quando cobriu a Revolução dos Cravos em primeira mão. Na capital paulista, passou nos anos 1970 pelas redações de Istoé, Veja, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo. No entanto, foi como repórter da Playboy que Ruy Castro ganhou um destaque maior ao assumir a seção de entrevistas da revista. "Convenci rapidamente várias pessoas que se recusavam a dar entrevista à Playboy que o fizesse". A partir daí houve uma evolução nas técnicas de entrevista na imprensa brasileira. Perguntado sobre isso, Castro explica: "Eu fui a única pessoa na época que se deu ao trabalho de ler o manual de entrevistas da revista, que vinha da sucursal americana. Coisas óbvias, básicas, mas que ninguém fazia. Coisas do tipo: se prepare exaustivamente para a entrevista, fale com as pessoas ao redor do entrevistado, nunca faça mais de uma pergunta por vez, faça mais de uma sessão, três, quatro sessões".

Foi a partir de uma entrevista para Playboy com o compositor Tom Jobim que Castro recolheu o material inicial para seu primeiro livro, Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova (Companhia das Letras), de 1990. A obra o consagrou e foi rapidamente seguida por O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues (Companhia das Letras), em 1992 e Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha (Companhia das Letras) em 1995. A última biografia que escreveu foi Carmen: Uma biografia (Companhia das Letras), a vida de Carmen Miranda, em 2004.

Consagrado como biógrafo de personalidades públicas de grande apelo emocional, Ruy é conhecido por levar até as últimas consequências as pesquisas para os seus livros. Entrevista milhares de pessoas, concatena centenas de acontecimentos, reconstrói cenários esquecidos e arremata com a prosa enxuta, vencedora de 3 prêmios Jabuti. "Quer dizer, tô aqui para narrar os fatos e o que tem em volta, basicamente isso, nada de conversa fiada, nada interpretações, nada de teoria, sabe?", lançou o próprio Ruy ao explicar o seu approach.

Dentre os 14 livros que escreveu, apenas dois são em ficção: Billac vê estrelas (Companhia das Letras), cujo enredo se desenvolve na agitada Belle Époque do Rio de Janeiro do início do século XX e tem como protagonistas Olavo Bilac e José do Patrocínio; e Era no tempo do rei (Alfaguara), também ambientado no Rio de Janeiro, só que em 1810 e tendo como protagonista um jovem D. Pedro I. Ou seja, mesmo que se arrisque na ficção "setenta por cento desses livros são fatos e reconstituição histórica e trinta por cento ficção. Mesmo em ficção eu preciso me basear em personagens e cenários que já existem. Seria incapaz de inventar um livro inteiro", disse Ruy Castro.

Seria impraticável revelar aqui as curiosas idiossincrasias de cada uma das obras de Ruy Castro, sobre as quais discorreu em sua fala de mais de cinco horas. Vale a pena destacar apenas, por último, o posicionamento decisivo do autor a respeito da censura de biografias, pratica que tem se tornado corrente no Brasil, como é o caso dos recentes livros sobre Raul Seixas, Guimarães Rosa e Roberto Carlos, entre outros. O próprio Ruy teve problemas tanto com a biografia de Nelson Rodrigues como com a de Garrincha. Neste último a editora envolveu-se em uma briga judicial duradoura e cara por conta, segundo o próprio autor, da manipulação das filhas do jogador - "pessoas despreparadas" - por dois advogados aproveitadores. "É uma prática que deve urgentemente ser banida da justiça brasileira. Um absurdo que deve sumir o mais rápido possível. Fere, inclusive, a Constituição", destacou Ruy sobre a aberração da lei que permite o impedimento da publicação dos livros.

O Depoimento para a Posteridade do jornalista Ruy Castro está disponível a qualquer um no MIS mediante solicitação. Dentro da reorganização por que passará o acervo da instituição, devido à construção da nova unidade do museu na avenida Atlântica, em Copacabana, a intenção é que a coleção de depoimentos para a posteridade desperte maior interesse do público, sendo possível consultar o acervo com maior agilidade. Nessa nova fase, da qual o próprio Ruy Castro é consultor especial, destaca Rosa Maria Araújo, presidente do MIS, pretende-se também que os depoimentos realizados no novo espaço possuam uma produção cultural mais ampla e convidativa ao público em geral.

>Veja aqui a lista completa de personalidades prestigiadas no projeto Depoimentos para a Posteridade do MIS

>Leia mais sobre a censura de biografias no Portal Literal: Raul Seixas, Roberto Carlos e Guimarães Rosa.


>Assista à entrevista de Ruy Castro para a TV Literal na FLIP 2007: parte 1, parte 2 e parte 3.

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