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O Sol brilha no cinema
Portal Literal 1.0 · Rio de Janeiro (RJ) · 10/9/2008 18:15 · 42 votos
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 31/07/2006.

Documentário relembra os anos dourados de um jornal experimental que marcou época.


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estar
vivo



Assim noticiava o jornal O Sol no dia seguinte aos boatos de que o revolucionário argentino havia sido detido e morto na Bolívia, onde estava para continuar sua missão de guerrilheiro, depois de consolidar a Revolução Cubana e fracassar numa tentativa similar no Congo. Ao modo de Zapata, que muitos diziam e ainda dizem cavalgar pelo México, a notícia conflituosa da morte do médico e guerrilheiro que estava prestes a virar mártir e, mais tarde, ícone da cultura de massa, foi invertida na esperança de que não passasse de mais um boato. Infelizmente, não era, mas o jeito de se noticiar que O Sol começava a desenvolver naquele fatídico 1967 iria fazer escola. Jornal de vida curta, pouco mais de seis meses, O Sol foi concebido por poetas e jornalistas cansados com o padrão dos grandes jornais e em um momento em que a repressão e perseguição aos ditos "subversivos" recrudesciam.

O Sol tinha também o intuito de mexer na lógica dos jornais-laboratórios das faculdades de jornalismo, que, para pôr em prática o que se aprendia lá dentro, desenvolviam um jornal fictício para os alunos experimentarem. O Sol almejava ser um jornal-escola, onde os estagiários, na sua maioria estudantes, aprendiam a fazer jornal na experiência do dia-a-dia e com cursos/aulas para "informarem e adestrarem os alunos", nas palavras de sua editora-chefe, Ana Arruda Callado. Segundo Zuenir Ventura, que trabalhava na época na revista Visão e participou das discussões, palestras e seminários prévios, a idéia era fazer um jornal experimental que juntasse a prática à teoria, à reflexão sobre jornal. "No fundo, era o seguinte: havia repórteres/alunos e nós éramos os editores/professores. Discutia-se muito como fazer um jornal diferente, que experimentasse novas soluções, novas fórmulas. O resultado destas discussões foi o jornal O Sol. Não durou muito tempo, mas talvez tenha sido o precursor dos jornais mais alternativos ou, como se chamava na época, os jornais underground. Quer dizer, não era bem underground, porque saía e circulava, mas tinha um caráter de experimentação, de ousadia, na forma e no conteúdo. Nunca foi consumido como um jornal de massa, mas trouxe algumas soluções novas para a prática jornalística", diz Zuenir.

E é esta breve trajetória que chega às telas de algumas capitais brasileiras no dia 11 de agosto com o documentário que busca relembrar o contexto e o momento em que o jornal existiu. O filme O Sol, caminhando contra o vento é dirigido por Tetê Moraes (dos premiados Terra para Rose e O sonho de Rose, 10 anos depois, entre outros) e Martha Alencar (produtora de Bar Esperança e O homem nu, entre outros). As duas integraram a redação do jornal e neste filme trazem à tona a memória dos que ajudaram a criá-lo e desenvolvê-lo, além de um vasto banco de imagens do período em que a publicação se insere. Prenúncio dos anos de chumbo – que iriam piorar muito com o Ato Institucional 5, de dezembro de 1968 – e da imprensa alternativa – que iria explodir com o Pasquim e Opinião nos anos seguintes –, O Sol apareceu em 21 de setembro de 1967, primeiro como um encarte diário do Jornal do Sports, onde era rodado. Depois, durante sua curta vida independente, chegou à tiragem de 70 mil exemplares diários.

Nomes como Reynaldo Jardim, Ana Arruda Callado, Carlos Heitor Cony, Ziraldo, Fernando Duarte, Adolfo Martins e Ricardo Gontijo foram os editores, que contavam com os conselheiros Otto Maria Carpeaux e Sérgio Lemos – que ficavam na redação a disposição dos estagiários, algo inédito até então –, e colaboradores como Nelson Rodrigues, que desenvolveu suas primeiras histórias infantis nas páginas do diário, e Henfil. O design arrojado foi desenvolvido por Jardim: cada matéria ocupava no máximo um quarto de página, de modo que o jornal pudesse ser lido dobrado dentro do ônibus, explicação que o poeta demonstra in loco em um ônibus, nos dias de hoje, proporcionando um dos divertidos momentos do documentário. O jornal foi o primeiro a contar com um time de mulheres na diagramação, sob a batuta de Jardim, que selecionou os 40 estagiários e estagiárias com perguntas sobre a leitura do Tio Patinhas. Eram elas, Mônica Barreto, a própria Tetê Moraes, Analuce Estrella, Eva Paraguassú e Virgínia Costa Novaes. No jornal, Pedro Malan começou como editorialista e Arnaldo Jabor escrevia sobre cinema.

"Do ponto de vista da forma, era um jornal que usava uma linguagem menos estagnada. Introduziu no jornalismo expressões que se usava no dia-a-dia, como 'paca', forma reduzida de dizer 'pra caramba'. Tinha um pouco a pretensão de introduzir uma linguagem mais popular no jornalismo, mais próxima do leitor, no lugar daquela linguagem solene que se usava muito. Nisso, ele foi precursor do Pasquim, que escancarou esse projeto de forma radical. O Sol experimentou expressões do cotidiano. Um pouco, guardada as devidas proporções, o que a Semana de 1922 fez com a linguagem poética, de mostrar um universo vocabular mais popular, a fala do dia-a-dia", relembra Zuenir. E, do ponto de vista do conteúdo, acrescenta ele, o jornal teve uma contundência maior, como nas críticas ao FMI. "Era um jornal mais libertário e sem comprometimentos políticos, ideológicos. Era, evidentemente, contra a censura, contra a ditadura, sobretudo, mas não pertencia a nenhum partido. Era um jornal muito livre. O compromisso era o de resistir à ditadura. Neste sentido, O Sol foi precursor".

No documentário, podemos perceber como eram férteis e produtivos aqueles poucos meses que se passaram entre a criação e o fechamento do jornal. Foram registradas em suas páginas as polêmicas em torno de Chico Buarque e sua Roda Viva, o encontro entre Frank Sinatra e Tom Jobim, a exibição de futuros clássicos de Truffaut e Godard, a estréia de Terra em transe, de Glauber Rocha, os festivais de música que agitavam o país. O filme se assume como documentário-exaltação, sim, pois o intuito é recordar aqueles dias em que uma geração demonstrava ser possível, ao seu modo, combater as forças repressoras que aumentavam sua ingerência, sua violência e seu poder sobre a sociedade brasileira.

O filme tem início com uma festa que reuniu a equipe do jornal, colaboradores e pessoas que tiveram participação afetiva, como Caetano Veloso, Chico Buarque (que chegou a publicar um cartum no diário) e Gilberto Gil. Participam com depoimentos, intercalados com imagens e canções da época, Antônio Carlos da Fontoura, Arthur Poerner, Bete Mendes, Betty Faria, Carlos Lessa, Fernando Gabeira, Gilberto Braga, Helena Ignez, Hugo Carvana, Íttala Nandi, Luiz Carlos Maciel, Marcio Moreira Alves, Orlando Senna, Ruy Castro e Vladimir Palmeira, entre outros. Apesar de alguns chavões e lugares-comuns, sobretudo na exaustiva repetição da música de Caetano Veloso que faria referência ao jornal, "Alegria, alegria" ("O sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia / Eu vou"), o filme consegue bons momentos nas lembranças de alguns entrevistados, como Chico Buarque. Recordando o Golpe de 1964, o compositor e escritor lembra que, na faculdade de Arquitetura, onde estudava em São Paulo, armava-se um contragolpe e Chico, por ser o beberrão da turma, ficou responsável por reunir as garrafas vazias na garagem da casa do pai, para fazerem os coquetéis molotovs. As garrafas ficaram lá, recorda Chico, e, claro, a contra-ofensiva nunca existiu.

O filme também enfoca as grandes mudanças do período, como a ascensão do poder negro, o feminismo, a liberalização sexual, as agitações estudantis que explodiriam em maio de 1968. "Como toda coisa nova produz certa perplexidade, certa resistência, não foi um jornal que estourou. Foi um jornal mais de prestígio do que popularidade. Toda vez que você experimenta algo novo, seja um produto comercial, cultural, ou uma linguagem, há uma resistência. Mas acho que O Sol foi muito bem recebido pelos jovens, que viam refletidos nele o imaginário, os anseios daquele momento", conta Zuenir.

E hoje haveria a possibilidade de a imprensa voltar a investir em propostas como esta? "Hoje estas experimentações estão mais na internet. Você tem uma liberdade, um descompromisso muito maior. Primeiro, não tem nenhum risco de custo. Para fazer um jornal experimental hoje, você tem que comprar papel, pagar tinta, tem um custo industrial muito alto. Então é muito difícil inovar em um mercado dominado pelo lucro, pela necessidade de remuneração. O único lugar em que é possível fazer isso sem custo financeiro é na internet, até pela capacidade de distribuição. Hoje, naturalmente, toda a experimentação, os arrojos e ousadias estão na rede. Dificilmente você conseguiria fazer um jornal como aquele, com poucos recursos, que não era amparado por uma estrutura econômica forte. Você faz isso para um público mais restrito, um jornal de bairro, um jornal universitário, um jornal para uma comunidade, mas isso com ambições muito mais restritas, que não é mais para o grande público, vendido em banca. Acho que não há mais condições para se fazer isso hoje não", aponta.

> Confira o trailer no site do filme




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