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Pálido e Gelado
Portal Literal 1.0 · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2008 10:51 · 21 votos
Publicado originalmente em 22/09/2004.

Clique aqui para ler a entrevista de Heloisa Buarque de Hollanda com Raimundo Carrero

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Uma coisa inútil aquela de ficar passeando nos matos. Imaginava que só as pessoas bobas passeiam entre pedras, plantas, árvores, espinhos, água. Só porque não suportava trabalhar. Não era que não gostasse. Um vagabundo, absoluto. Nunca pensava nisso. Apenas parecia-lhe inútil, completamente inútil, assim. Ocupar-se em serviços dos outros, suar pelo pão que não comia, fazer fortuna que não era sua, depois repousar aos domingos, feito dizia o Senhor. O que também era outra inutilidade. Ir à Missa e ouvir o padre ditando as virtudes, às vezes ia, vestia terno só para ser diferente. Os outros vestiam calça e camisa. Fazia muito calor. Um calor de chamas escorrendo nos braços. Uma coisa inútil essa de ser diferente. As virtudes não prestam; os pecados, também. Fazer alguma coisa, impossível. Não fazer, bobagem. Uma coisa inútil as virtudes e os pecados. Uma coisa inútil a inutilidade.

Não via televisão, nem escutava rádios. Mediocridade demais, afirmava. E nem sempre lia: exigência de reflexão, meditação, atenção. Parado ou deitado, sentado no balanço do terraço, o livro diante dos olhos, quase nunca. Uma coisa inútil aquela. Às vezes ia à cidade, quando conseguia passes emprestados. Colocava o gorro, vestia calça desbotada, botas engraxadas. Pegava o ônibus na esquina, andava pelas ruas, visitava lojas, atravessava pontes, desfilava com as mãos no bolso, no centro da cidade verificava que era uma coisa inútil. Desapreciava. Tentava ficar no quarto sem conversar com ninguém, evitando os pais, escondendo-se dos olhos estranhos, houve um tempo em que nem gostava de gente, para conversar ou para ver, principalmente para ver. Aquelas pessoas suadas, dizendo asneiras, cantando. Ora cantando. As pessoas cantam e são horrorosas. Ver gente era, sem duvida, uma coisa inútil. Absoluta inutilidade.

Nem sequer namorava muito. Bom todo o tempo de agarrado, um tremor de carnes nas mãos, sangue injetado nas veias, cheiros de açucena e bogarí, tarde de namoro entre suspiros, seios e ventres femininos. Mas aí vinham as queixas, as reclamações, os conselhos, os cuidados, os comandos, principalmente os comandos. Mesmo porque gostava muito de Catarina. Paixão de ternura e afeto. No arrepio da felicidade. Escondia-se na janela para vê-la. Fingiam que nem namoravam, só para ter a alegria de espiá-la de longe, pelos cantos dos olhos, no prazer da esperança, ela percebia e fazia que não estava percebendo, um dia quem sabe, os dois zelosos.

Apaixonava-se pelos peitinhos escondidos sob a blusa, as coxas que se mostravam dengosas na minissaia e até pelos joelhos roliços. Ela também gostava, às vezes no sorriso leve: olhava-o pelas frestas das portas, quando trocava as roupas, pelos buracos da fechadura, no banho, deitado nu na lerdeza da tarde, fazendo que não era. Aquilo, com certeza, não era uma coisa inútil, embora no terreno dos sonhos, mesmo vendo-a caminhando nos matos, o passeio de mulher no sol posto. O dia acordara molhado e pálido, por causa das chuvas. Os olhos testemunham. Ele viu.

Ela tentava se debater, presos os braços e as mãos. Os dois esparramados no tronco da árvore, imensa e fria, o chão batido expulsando raízes. Os joelhos do homem enfincados nas coxas dela, parte da saia levantada. As veias e os músculos cresciam no pescoço de Catarina, tornavam o busto ainda mais cheio, os ombros repuxados, a pele suada. A boca se contorcendo, torta para a direita e para a esquerda, procurando respiração na garganta, os pulmões tensos. Um olho crescendo demais no rosto.


Gritou, sem dúvida: gritou. Ele encostou os lábios nos dela. Não encostou. Forçou. Abafou. Sem morder. Exigindo silêncio. Aquilo se transformou numa batalha de bocas. Densa luta de arranhões. Sem murros, não havia murros. A saia inteira levantada, agora. A saia. Com o antebraço no pescoço forçou-a a se encostar. A estertorar. Ela ficou vermelha. Roxa. Escura. Tentava espichar a cabeça. Jogá-la para traz.

Sacudia as pernas, os joelhos se tocando, encontrando espaço onde não havia. O rapaz tomou a saia com a mão esquerda, puxou-a, tentando rasgá-la. Impossível. Então a levantou para cima. Para muito acima. Prendia a perna esquerda da moça com o joelho direito. Desnudou- a. Entre os dois corpos, ela enfiou o cotovelo e bateu na barriga do rapaz. Ele abafou o gemido. Abafou. Vergou o corpo. Distendeu a perna. Puxou a calcinha.

As unhas cortaram o ventre. Dois filetes de sangue escorreram, uma marca arroxeada desceu desde o umbigo. Ela fez careta, tornou a face distorcida. Prendeu os dentes, espichou os músculos do rosto, fechou os olhos. Tossia e urrava. Ele insistia no beijo estrangulado, insistia. Catarina forçava por baixo, procurava combater com o joelho que se soltou. Agitava a perna no ar. Apenas no ar. A perna lutava sozinha. Calcanhar no chão, fez apoio, ergueu a parte direita do corpo. A bunda inteira à mostra. Também arranhada.

Arrastou a calcinha, agora suspensa nas coxas separadas, a perna se mexendo. Batendo. Deu um murro no queixo dele, bem no meio do queixo. O homem movimentou a cabeça, forçou ainda mais os braços, ameaçava estrangulá-la. Ela batia com a mão esquerda nas costas dele, enfraquecida. O sexo inteiro à mostra. Escuro. Salpicado de suor. Tentava protegê-lo com o ventre liso. As coxas apenas se debatiam.

Prendeu o lábio inferior nos dentes. As mandíbulas tensas. Sem respiração. Os olhos arregalados, enchendo-se de sangue, empapados de lágrimas. Estrias arrebentando-se. As sobrancelhas arqueadas. Os músculos da cara retesados. Estirando o couro. O pescoço explodindo. Sombras adensando-se nos cantos do nariz, espraiando-se no rosto. O suor escorrendo na testa vincada. O queixo levantado. A boca aberta, o grito estrangulado no peito. O espanto confundindo-se com a dor.


Foi só um segundo de tempo, quem sabe menos. Ela apareceu no terreiro. As vestes rasgadas, os cabelos assanhados, possuída de uma dignidade que iluminava a face e os olhos. Caminhava sem pressa, um gesto de quem conhece o destino. De quem desvenda o destino, Absalão conheceu. Ele estava no balanço. Vôo alto, vôo baixo, tocando apenas com a ponta dos pés no chão. Ela nem sequer fez saudações. Nos degraus, parou. Passou a mão na cabeça, ajeitou a saia. Mas não olhava, não olhava para ele e não baixava a cabeça. Depois seguiu. Empurrou a porta, desapareceu na sala. Deve ter ido ao chuveiro. Precisava de tempo para se recuperar? Então ficou de pé, espichando os olhos pela janela.

Impossível vê-la, inteira. As sombras se formavam de uma tal força que os vultos se entrançavam entre elas, sumiam. Não havia mais ninguém na casa. Ninguém. Ele tentou acompanhá-la. Queria tocá-la e tinha medo. Gostaria tanto de chorar, os dois juntos. E ela não estava, não estava em lugar algum. Nos quartos, na sala, na cozinha. Uma casa desabitada, parecia. Desabitada e tosca. Puro deserto. Seguiu pelo quintal e vê-la não foi mais do que uma obrigação: sentada no quarto de despejo. Pretendeu respeitar o silêncio árido, o grave silêncio que o vento na copa das árvores ainda tornava mais pesado.

Ao invés de entrar, se sentou na porta, no manejo firme e seguro desse silêncio, os pés nos degraus. Não apenas via, sabia e sentia: Catarina sem chorar, não tinha um único soluço no peito. Diante da chama do candeeiro, o rosto revelava beleza – a estranha beleza vinda do sangue. Áspera e estranha beleza que se revela no sofrimento. Do ventre dilacerado.

Quando o silêncio se aprofundou ainda mais, cavando abismos e gretas para sempre nas entranhas, Absalão tentou compreender o que tudo aquilo significava. Os olhos chamejando no quarto, de fera acuada. Sem muito esforço confessou que era melhor deixar a angústia vagar nas veias e no coração. Encostou-se na parede, a carne machucada. As unhas roçando o joelho. Catava na noite as sombras que tornam os homens ainda mais afoitos. Afinal, o começara o dia pálido e gelado, com as marcas que as chuvas da madrugada, insistentes e finas, deixaram - os caminhos enlameados, a mata molhada, as folhas úmidas. Queria, desejava com sinceridade, que também aquilo fosse um dia qualquer.

Não precisou de esforço, as pernas obedeceram: sem erguer o corpo inteiro, se aproximou. Sentou-se ao lado de Catarina, beijou os seus cabelos, os dedos escorrendo nos fios suados, e ela arriou mansa a cabeça no seu ombro. Os dois trêmulos, a inquietação. Ele sentiu que ela só queria confirmar, no clamor das veias, na lentidão da espera, os olhos denunciavam, brilhosos nas chamas do candeeiro, se era verdade que ele havia assistido a tudo. Ainda que lhe parecesse apenas uma coisa inútil.

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