Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 10/08/2007.
Uma nova editora, fundada por escritores de Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, promete espaço a novos autores. De início, o destaque da Fósforo é a literatura fantástica.
Confluências, a partir da última Flip, entre escritores que já colaboravam em sites e revistas eletrônicas, jornais e revistas literárias, pouco se conheciam, pela internet, e-mails e não-lugares. Assim surgiu a idéia, agora posta em prática, e que lança hoje o primeiro livro pela nova casa editorial. A Fósforo, com o mote "Literatura para esquentar cabeças", concretiza os papos e iniciativas de Alessandro Garcia, de Porto Alegre, Claudinei Vieira, de São Paulo, Mariel Reis, do Rio de Janeiro, e Milena de Almeida, de Belo Horizonte. A intenção dos quatro autores/editores é trabalhar com "novas propostas além do academicismo e que passem longe de práticas nulas e vazias. Estamos abertos ao recebimento de originais, queremos lançar títulos com propostas novas e apresentar autores ousados ao público – talentos iniciantes, mas cheios de vontade e empenho em produzir literatura da melhor qualidade", informam em seu caprichado
site.
Para que estiver em São Paulo, e se interessar por aquela literatura "barata" do início do século passado, vendida em bancas e peculiarmente retratada nos cinemas por Tarantino, em
Pulp fiction, pode conferir o lançamento de
Ficção de Polpa – Volume 1, na Rato de Livraria (Rua do Paraíso, 790, São Paulo), a partir das 19h30. Tendo como o mote a homenagem às revistas
pulp, que serviu de escola para autores como H.P. Lovecraft, Ray Bradbury, Isaac Asimov, Raymond Chandler, Elmore Leonard, entre outros, cada um dos 16 autores de
Ficção de Polpa ajudam a compor um painel de estilos e temas, que envolvem "
serial killers, crimes hediondos, delírios domésticos, sonhos que se transformam em pesadelos e pesadelos que se fundem à realidade, partes do corpo que se rebelam contra seus donos, animais monstruosos e mutações genéticas, mortos-vivos e invasões alienígenas. Junte a isto contos onde o horror acontece de maneira mais sutil, explorando a estranheza do cotidiano e temos uma grande diversidade de abordagens para o fantástico", como consta da apresentação da obra.
O Portal Literal conversou com um dos editores da Fósforo, o porto-alegrense Alessandro Garcia, que falou sobre a negligência da crítica e das editoras em relação ao que ainda é tachado de baixa literatura, e a "natural subserviência tupiniquim" que atravessa também a temática literária, entre outros papos. Confira:
Por que as editoras brasileiras seriam negligentes em relação à ficção científica, à literatura de fantasia, de horror e terror produzidos por autores daqui?
Alessandro Garcia. Em um primeiro momento, podemos pensar que isto é um sintoma próprio da cultura brasileira. Que a falta de referências tupiniquins como pólo em pesquisa científica, por exemplo, seria justificativa suficiente para a quase inexistência de uma literatura de ficção científica produzida no Brasil. Mas o fato de nos darmos conta de que, apesar do nosso rico folclore, repleto de lendas e criaturas propícias a um incentivo da prática da literatura de fantasia, ainda assim é pífia a nossa produção literária neste campo – excetuando-se aqui, é claro, a rica literatura infantil que consegue beber com qualidade destas vertentes –, não produz obras de referência nestes gêneros, nos obriga a buscar justificativas outras. Que vão, infelizmente, encontrar respostas em questões sociais. Porque as parcas tentativas anteriores, quando não se transformaram, tão-somente, em pastiche de fórmulas estrangeiras, caíram na baboseira de se pretender educativas, de se atrelar a um ranço didático, ou fazer a besteira completa de apresentar um pensamento eugenista, como Monteiro Lobato em seu
O presidente negro.
Mas e aí? Será que o fato de sermos um país tropical intimidaria a produção de literatura mais sombria, da literatura de horror? Autores mais ousados têm tentado driblar tal problema, como André Vianco e seu
Os sete, e outros quetais. Mas que infelizmente, até ele, o que faz é "abrasileirar" um tema que não é nosso, do vampiro. Por que não temos ineditismo nem na produção de nossas lendas? Nos apropriarmos das de outras culturas e tropicalizá-las, não creio que ajude muito. O que temos no Brasil, isto é verdade, é a literatura fantástica: autores que desde o século XIX vêm se aventurando pelo uso de alegorias na literatura. Isso desde Álvares de Azevedo, Machado de Assis. Aliás,
Noite na taverna, do primeiro, é considerado o primeiro momento notável do gênero no Brasil. Ademais, temos Murilo Rubião, Moacyr Scliar, José J. Veiga, Nelson de Oliveira... autores que aqui e ali deixam entrever as possibilidades da escrita nesse gênero. Mas por que, ainda assim, nossa cultura não é forte nem aí, mesmo dada a proximidade geográfica com mestres como Cortázar, Bioy Casares, Borges, García Márquez? Por que nossa realidade de país subdesenvolvido nos expõe mais mazelas e um cotidiano mais nonsense do que seríamos capazes de compor em ficção? Mas aí mesmo não estaria talvez a "inspiração" necessária? São mais perguntas do que respostas. Mas o que me parece, ao final, é que o fato de sermos um país com um índice de leitura tão baixo, de uma cultura literária tão parca, inibe os autores a investirem em gêneros que muitas vezes são subestimados como "escapistas", tão somente. Daí a necessidade quase inconsciente de nos quedarmos ao hiper-realismo através do qual, e sem alegorias, pretendemos espelhar o nosso horror cotidiano.
Geralmente, quando temos algo do gênero lançado aqui por alguma editora já estabelecida, sempre é de autor estrangeiro, algo que já foi referendado lá fora, além de ter alcançado certa repercussão. Por que isso se dá?
Alessandro Garcia. Pela nossa natural subserviência tupiniquim. Pelos motivos descritos anteriormente: achamos mais válido comprar as lendas referendadas pelos europeus, mastigadas pelos norte-americanos, do que investir no que é nosso. Mas isto também é claro no cinema. Estamos naturalmente mais familiarizados com as lendas de Dráculas, lobisomens e quetais, do que com nossos Boitatás e Mulas-Sem-Cabeça. Isto, sendo bastante literal na comparação. Mas isso nem é um problema das editoras. Os autores não investem na produção de boas peças do gênero. É toda esta problemática cultura para a qual não vejo muita forma de superação.
As poucas notícias e resenhas da publicação de ficção científica produzida no país, por exemplo, sobre as quais leio na imprensa, resumem-se ao que escreve o Antonio Luiz M.C.Costa, na CartaCapital. Pergunto: não se escreve sobre o tema porque não se lê, ou o contrário, as pessoas não lêem, logo não é "assunto"? O quanto essa verve temática ainda carrega de preconceito?
Alessandro Garcia. É uma cobra mordendo o próprio rabo. Definitivamente, ficção científica, na sua forma mais crua a qual estamos acostumados pela leitura de títulos estrangeiros, parece que sempre soará patética no Brasil. O que me parece mais claro é que recorrer a literatura escapista no Brasil é sinônimo de vergonha. A literatura tão somente enquanto entretenimento é mal vista. O ranço intelectualóide rechaça isso. É certo que o pensamento geral é "já que lemos tão poucos, quando o fizermos deverá ser com algo que tenha 'substância' intelectual". Eu mesmo me confesso envolto em tal preconceito. Se virmos o que é
Ficção de Polpa, apesar de tentarmos abranger também este gênero, ele aparece em menor grau do que o horror, por exemplo. E, fazendo um mea-culpa, quase sempre ele é atrelado a uma fórmula que não é brasileira.
A estréia é com uma coletânea inspirada no melhor do formato pulp, da capa à diagramação. Qual a intenção daqui pra frente, mais coletâneas, livros desses autores, fora de antologias? Já há uma idéia do que pretende ser o catálogo da Fósforo?
Alessandro Garcia. A Fósforo, é mais do que tudo, uma editora feito de produções muito esmeradas. Assim pretendo, ao menos. Por isso o cuidado que teremos com tudo o que vai ser publicado é imenso. É certo que
Ficção de Polpa terá outros volumes, onde tentaremos contemplar diversos gêneros que se sirvam à criatividade de nossos autores. Quem sabe uma coletânea só de horror, ou de contos eróticos, como os que eram produzidos e vendidos em bancas de jornais? São muitos os terrenos a explorar. O certo é que, paralelo a isto, vamos publicar fora de antologias ficção de autores – eu mesmo vou lançar meu livro de contos em 2008 pela editora,
A sordidez das pequenas coisas. E nossa idéia é buscar bons autores, com propostas ousadas. É o que queremos dizer com nosso conceito, "literatura para esquentar cabeças".
Quais as dificuldades de criar e tocar uma editora voltada para esses gêneros?
Alessandro Garcia. Na verdade, a Fósforo não é vinculada a gênero. Ela é focada na boa literatura de ficção. Ficção de Polpa, nosso livro de estréia, é tão-somente uma publicação com esses gêneros, assim como futuramente contemplaremos tantos outros. Tirando as dificuldades financeiras, a trabalheira administrativa, estas, imagino, inerentes a todos os projetos editoriais, há mais satisfação do que problemas. Afinal, o ótimo retorno que estamos tendo – desde e-mail de leitores que escrevem só para elogiar a qualidade do projeto até os convites para entrevistas e atividades literárias no Brasil – já é uma prova disso. A Fósforo é, mais do que tudo, a realização de um sonho. Que começou na FLIP de 2004. Um sonho onde tenho que incluir meus grandes parceiros e responsáveis pela editora em outros estados. O Claudinei Vieira, escritor paulista, Mariel Reis, escritor carioca, e Milena de Almeida, jornalista e escritora mineira. Todos eles fazem parte do Conselho Editorial da Fósforo – e também publicarão seus livros solo pela editora –, e, junto comigo, ajudam a decidir o que queremos publicar. A Fósforo é, portanto, um trabalho de amigos e apaixonados pela literatura. E o fato de podermos contar sempre com parceiros tão talentosos para trabalhar conosco, pelo prazer, pelo cuidado quase artesanais na produção de um trabalho bacana... Isso não tem preço.
Poderia falar um pouco sobre como vê hoje a produção brasileira voltada para ficção científica, a fantasia, o horror e o terror?
Alessandro Garcia. Eu sou marinheiro de primeira viagem. Mais autor do que editor. Este último se deu pela vontade de tomar as rédeas da coisa, poder levar às livrarias o que eu gostaria de ver, editar autores que acho talentosos, decidir sobre capas, fontes, e todo o trabalho tão bacana que envolve o ofício editorial. Por isso, não sou um perito em produção brasileira nessas áreas. O que posso dizer é que vejo muito pouco aí sendo produzido no Brasil. Mas eu mesmo sou um adepto da sutileza em cada um desses gêneros, mais do que no gênero escancaradamente revelado, com tramas de vampiros e quetais. Gosto mais da noção de que o estranhamento – e ele pode ser referendado em uma literatura de ficção científica, de horror ou terror – nos rodeia de uma maneira que é sutil perceber. Por isso, talvez, me agrada mais o termo Fantástico para abarcar tudo isso. Por que, quando menos se espera, podemos ser surpreendidos com a noção de que algo está fora do lugar, de que nem tudo é tão "certo" assim.
E, nesse caso, esta máxima do mestre Julio Cortázar, é para mim a melhor definição de tudo isso:
"O fantástico é, simplesmente, a indicação súbita que, à margem das leis aristotélicas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente válidos, vigentes, que nosso cérebro lógico não capta, mas que em certos momentos irrompem e se fazem sentir."
tags: entrevista editora-fosforo mercado-editorial literatura ficcao ficcao-de-polpa pulp ficcao-cientifica terror horror literatura-fantastica fantastico alessandro-garcia antologia fosforo claudinei-vieira mariel-reis milena-de-almeida fantasia
extraído de: