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Resmungos | Ferreira Gullar
Portal Literal 1.0 · Rio de Janeiro (RJ) · 15/9/2008 05:50 · 34 votos
Farra do Boi
Lula prossegue em sua campanha eleitoral Brasil afora, puxando consigo a possível candidata a sua sucessão, Dilma Rousseff. Esta semana, no Rio, enquanto milhares de pessoas sofriam na fila dos hospitais - ardendo em febre, carregando no colo filhos doentes, outros chorando a morte deles, sem atendimento médico - Lula, Dilma e Cabral sorriam e discursavam, inaugurando nada.
Quem disse que toda vez que se começa uma obra do governo, em algum lugar do país, o presidente de República tem que estar presente? Que diferença faz, para que a obra se inicie, se está presente ou não?
Nenhuma, claro. Todos sabem que ele está ali, de papagaio de pirata, para tirar partido político daquilo que é obrigação sua. Trata-se, portanto, de mero oportunismo eleitoral, descarado, que no Brasil é visto como coisa normal. E já ninguém estranha!
(03.04.08)

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Dossiê
É inacreditável a arrogância com que Lula e seu pessoal afrontam a opinião pública.
Todo mundo sabe do dossiê que funcionários da Casa Civil entregaram à revista Veja, com o propósito de mostrar que o ex-presidente FHC e dona Ruth também usavam ilegalmente os cartões corporativos. O objetivo da divulgação desses dados era intimidar a CPI dos Cartões e, mais uma vez, justificar as falcatruas do governo Lula, com o argumento de que "não só somos nós somos corruptos".
Mas o tiro saiu pela culatra e dona Dilma Rousseff teve que vir a público justificar a manobra, alegando que não se trata de um dossiê e, sim, de um banco de dados, que a Casa Civil preparou a pedido do Tribunal de Contas da União.
O TCU desmentiu. Mas ela insiste: "Que crime há em organizar um banco de dados?"
Lembra a piada do cara que queria entrar no cinema com uma bermuda tão curta que deixava aparecer a cabeça da piroca. Diante da proibição, falou: "É um absurdo proibir o cara de entrar de bermudas num cinema!"
(01.04.08)

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Nós, nas mãos deles
Quando digo que "estamos nas mãos deles", é com razão.
Veja mais esta: você paga seguro saúde. Eu, então, idoso, pago uma nota preta. E não uso, porque não adoeço. Mas pago. Na hora de fazer a declaração do Imposto de Renda, eles não mandam o informe.
Veja bem, se você atrasa o pagamento um dia, é multa em cima de você mas, na hora de eles cumprirem com sua parte, fingem-se de mortos e você que se dane.
A empresa em questão é a SulAmérica Saúde. Aí você vai buscar na internet, o site está fora do ar. Você decide somar os pagamentos mensais - mas, e se um dos recibo sumiu? É, estamos nas mãos deles.
(25.03.08)

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Justiça cega
Um senhor de 59 anos está dando seu expediente de porteiro noturno numa galeria que liga a avenida Princesa Isabel à rua Roberto Dias Lopes. Essa galeria é também a entrada de um edifício residencial e, se fica aberta durante o dia, de noite é fechada por medida de segurança.
Há poucos dias, tarde da noite, um sujeito de 30 anos tenta passar por ali mas não é atendido pelo porteiro que, segundo explicou, obedecia a uma determinação do condomínio. O sujeito insistiu, discutiu com o porteiro e, enfurecido, decidiu agredi-lo, e fez o seguinte: deu a volta pela esquina, entrou pela rua de trás, alcançou o outro extremo da galeria, arrebentou o portão a pontapés e entrou. O porteiro tentou impedi-lo e foi atacado a socos e pontapés até cair desmaiado no chão. Um policial percebeu o que se passava, entrou na galeria e prendeu o agressor. O porteiro foi levado, desfalecido, para o hospital. O caso foi submetido à apreciação de uma juíza, que mandou soltar o agressor, alegando que não estava caracterizada a agressão violenta.
É por isso que dizem que a Justiça é cega?
(03.03.08)

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Cuba após Fidel
A renúncia de Fidel Castro à presidência de Cuba - se decorre efetivamente de seu estado de saúde - é também, por ocorrer agora, o modo que ele encontrou para influir em sua própria sucessão e impedir que o regime político que implantou no país desmorone com sua saída. Muita gente se pergunta: "o que será de
Cuba sem Fidel?"
E Fidel, certamente, também se fazia essa pergunta. Deixar o governo em vida é uma maneira de fazer com que a Cuba pós-Fidel seja ainda uma Cuba com Fidel. De qualquer modo, após sua morte haverá mudanças; especialmente porque, à falta do líder carismático, a tendência é que as instituições passem a ter mais presença na vida política e social. Não haverá ruptura traumática, acredito eu.
(20.02.08)

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Niemeyer
Agora, em dezembro, Oscar Niemeyer faz cem anos de vida. Como se sabe, ele é um dos maiores arquitetos de todos os tempos, o que mais projetos concebeu e o que tem mais obras construídas, em toda a história da arquitetura. Isso sem falar na beleza dos edifícios que projeta. Em cada cidade onde se constrói uma obra sua, ela se transforma no símbolo da cidade, como já havia ocorrido com o edifício COPAN, em São Paulo, com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e com o Centro Cultural do Havre, na França. Oscar tem essa capacidade extrodinária de criar formas inusitadas que se tornam populares. Pois bem, embora tenha nascido no Rio de Janeiro – em Laranjeiras – e tenha passado toda a sua vida nesta cidade, não há no Rio nenhuma obra importante por ele projetada. Projetou a Passarela do Samba e os CIEPS, que são obras modestas do ponto de vista arquitetônico. Por que isto? O Rio só teria a lucrar com uma obra importante de seu filho genial. Ainda é tempo.
(04.12.07)

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Por qué no te callas?
Lula não é truculento como Hugo Chávez mas também fala demais. Outro dia, resolveu comprar briga com o rei da Espanha defendendo Chávez do pito que levou, porque não deixava Zapatero falar. Lembram-se daquele discurso de improviso que Lula fez, ainda no primeiro mandato, ao saudar os novos técnicos russos que chegavam à base de lançamento de foguetes de Alcântara? Mais de 20 técnicos brasileiros tinham morrido numa explosão, meses antes e, para substituí-los, foram chamados os russos. Lula então disse esta frase inacreditável: "Há males que vêm pra bem". No dia 20 de novembro, dedicado à consciência negra, ele afirmou que, nas universidades, os alunos brancos discriminam os negros. Como ele sabe disso? Ele freqüenta as universidades? Não é papel do presidente da República estimular o ódio racial no país. É hora de dizer a ele: "por qué no te callas?"
(21.11.07)

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Cara de pau
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral, reconhecendo que o mandato, não apenas o dos deputados, mas também dos senadores, pertence ao partido, deixou furioso o senador Romeu Tuma, que acaba de deixar o
partido Democratas, de oposição, para filiar-se ao PTB, partido da base do governo. Fingindo indignação, declarou à imprensa: "O TSE está decidindo tudo sem levar em conta a dignidade dos parlamentares".
Dignidade! – é muita cara de pau! Mais de 3 mil vereadores mudaram de partido nos dois últimos anos, além de centenas de deputados estaduais, federais e senadores. Elegem-se pela oposição e depois traem a boa-fé dos eleitores, aderindo ao governo. E Tuma ainda vem falar em dignidade.
(23.10.07)

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Desinformação
Gostaria de saber por que razão a Telemar, sempre que solicito um telefone, informa-me o número errado. A coisa é caprichada, a voz da moça dita pausadamente os algarismos, depois repete tudo de novo. Você anota e quando disca o número informado, a própria Telemar avisa: "Impossível fazer a ligação com o número discado"! Isso já aconteceu comigo quatro vezes nos últimos meses, ou seja, todas as vezes que solicitei esse serviço. Será coincidência? Acontece com todo mundo ou é marcação comigo? A outra hipótese é que a Telemar tenha decidido sacanear os seus assinantes.
(26.04.07)

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Resmungo sobre o resmungo
Numa reunião que precedeu a criação deste Portal Literal, quando surgiu a idéia de que cada um dos escritores que o integram manter uma seção permanente em seu site, ocorreu-me intitular a minha de "Resmungos".
Mais tarde, quando a Folha de São Paulo me convidou para escrever nela, uma crônica por domingo, chamei essas crônicas de "Resmungos", que também veio a ser o título do livro que publiquei, ano passado, reunindo uma seleção delas. Agora, a imprensa informa que o mais novo e irreverente cinema norte-americano adotou o nome de "cinema-resmungo". Se algum daqueles cineastas visitou nosso site, não garanto, mas, ao que tudo indica, resmungar pode se tornar uma mania mundial. Antes isso que virar homem-bomba.
(04.09.07)

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Crime em Congonhas
Alguns dias antes do desastre com o avião da TAM, em Congonhas, vários aviões derraparam na pista e foram para na grama; um deles quase despencou da pista na avenida Washington Luís. No mesmo dia da tragédia, vários pilotos diziam, pelo rádio, uns aos outros, que tomassem cuidados pois a pista estava escorregadia. E estava porque chovia muito e a nova pista fora entregue ao uso sem as ranhuras que evitam derrapagens.
Claro, o aeroporto de Congonhas é o mais movimentado do país, com mais de 600 pousos e decolagens por dia. Impedir o uso da pista principal significaria reduzir grande parte dos vôos e, portanto, prejuízo para as empresas aéreas. Por isso, permitiram o seu uso, mesmo sabendo do risco que isso significava para os passageiros e aeronautas.
Agora querem atribuir a culpa ao piloto do avião sinistrado. É muito cinismo. Além do mais, não tem cabimento um aeroporto com tal volume de tráfego numa zona urbana, cheia de edifícios residenciais. Trata-se de um desrespeito aos direitos dos cidadãos – atormentados pelo barulho dos aviões, dia e noite – e, pior, um desprezo total pela vida humana. Esse aeroporto deve ser desativado, gente!
(19.07.07)

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Diálogo com a luz
Dentro de uma nova concepção, a pintura de Siron Franco sofre uma espécie de inflexão: a matéria cromática se torna o fator nuclear de seus quadros.*

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O que define a pintura como um tipo de expressão diferenciada é a cor. A Mona Lisa, sem as cores, seria um desenho. Isso é, sem dúvida, uma simplificação, mas nos ajuda a entender certas manifestações pictóricas surgidas mais tarde. No curso da história, assistimos a uma variação pendular em que as cores tiveram presença maior ou menor na pintura. Por exemplo, em Rembrandt a cor não tem a mesma relevância que em Vermeer. Mas à medida que nos aproximamos da época atual, a cor adquire mais presença e autonomia na pintura. Nesse particular, o Impressionismo foi um marco, ao voltar para a cor da natureza ao ar livre e criar uma linguagem intensamente colorida. Com o Fauvismo e com o Expressionismo, a cor assume o papel protagônico na criação dos pintores, chegando mesmo a violentar as relações com a realidade objetiva, o que já tinha sido prenunciado por Van Gogh. Kandinsky chega a mesmo a criar uma teoria que afirma a cor como a essência mesma da pintura.
Faço essas considerações depois de ver a exposição de Siron Franco no CCBB do Rio de Janeiro, onde nos mostra um numeroso conjunto de grandes telas, nas quais o tema fundamental é a cor. Mas para chegarmos à apreciação desses trabalhos, que são sua produção mais recente, talvez convenha rever que papel tem desempenhado a cor em sua obra pictórica.
Em seus primeiros quadros, ela já tem uma função acentuada, muito embora, em muitos deles predominem o ocre e negro. Mas há muitos outros em que a cor, seja como fundo, seja como fator de contraste e dissonância, já participa de sua expressão de maneira relevante. E essa relevância só vai se acentuar a cada obra, na medida mesma em que o espírito mais soturno da primeira fase é substituído por um certo humor surrealista que deve muito ao desvario cromático. Vermelhos, amarelos, verdes e azuis esfuziam nesses quadros, que abrem caminho a uma nova exploração da cor na fase das "peles". Embora a inspiração inicial dessa fase seja uma denúncia do uso de peles de animais como parte da vestimenta feminina, Siron, como sempre, transforma a mensagem ecológica em expressão artística, de modo a enriquecer sua pintura. Neste caso, em particular, essas peles se transformam em elementos pictóricos autônomos, quase abstratos, dando início a uma nova fase, em que a figura perde importância em função dos valores pictóricos puros, se assim se pode dizer. Nesse período, Siron cria algumas de suas obras mais fortes e belas. Mas o que importa observar é que, a partir de então, sua pintura sofre uma espécie de inflexão: a matéria cromática se torna o fator nuclear de seus quadros. E é dentro dessa nova concepção que ele chegará à fase atual.
Devo esclarecer que estou consciente de que esta é uma leitura simplificada do processo criativo do artista e, se adoto esse procedimento, é porque ele me facilita esclarecer as possíveis descobertas que fiz, ao observar atentamente as suas últimas obras, agora expostas no CCBB. Estou convencido de que a obra de arte é uma invenção do que uma revelação do que está oculto no mundo real. Sem dúvida, nossa intuição nos adverte de que o que percebemos do real não o decifra e esgota, mas percebemos também que nenhuma linguagem é capaz de expressá-lo plenamente. Já disse Cassirer que as linguagens são intraduzíveis entre si e, portanto, sendo a realidade também uma linguagem, não é possível traduzi-la em nenhuma de nossas linguagens. Por isso, na verdade, a obra de arte, não sendo a tradução do real, é a invenção de um equivalente, de formas inventadas que constituem o nosso universo imaginário. Por isso, quando Oscar Wilde afirmou que "a vida imita a arte", quis dizer precisamente que vivemos a partir do mundo que a arte (e não só a arte) inventa. Depois que se conhece a obra de Siron Franco, o nosso universo humano se amplia para incluir as imagens e cores peculiares a ela e que não encontraríamos em nenhum outro lugar, senão em suas telas. Isso vale para ele, como para qualquer outro artista que tenha conseguido criar um mundo pictórico próprio.
O que significa ter a matéria cromática como o fator nuclear da pintura? No caso de Siron, refiro-me ao fato de que, nas telas mais recentes, de modo geral, o tema, qualquer que seja ele, figurativo ou signo-gráfico, é assimilado pela pasta ou pincelada, transforma-se nelas, e ocorre quase como um acidente do ato de pintar. Mas nem sempre é assim; há quadros em que a figura ou o signo desaparecem e o que se vê do trabalho do pintor, sobre a pasta colorida, busca incutir nela um significado que não nasce senão da própria cor. E é então que se verifica um fenômeno, a meu ver, novo, na experiência sironiana: ele parece pintar contra a luz, ou seja, no escuro. Um quadro que dá bem a idéia do que estou dizendo chama-se Fresta; ele todo pintado em cores e tons escuros, mas tem, a certa altura, uma fresta por onde a luz vasa e nos ofusca.
*Texto publicado na edição 77, de maio de 2007, da revista Continente Multicultural.
(07.05.07)

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Urgência e sensatez
Em texto publicado em 29/04/07 no caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, Ferreira Gullar afirma que é tapar o sol com a peneira crer que criminalidade cairá sem que se resolva questão do tráfico.

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A questão da criminalidade continua no centro das preocupações de nós todos. O aumento da violência chegou a um ponto intolerável e isso tem mobilizado a opinião pública em todo o país. E, a cada momento, novos fatos vêm mostrar como essa é uma questão complexa e de difícil solução.
Já mais de uma vez, manifestei minha opinião de que não se pode apontar, como causa única da criminalidade, a desigualdade social. Certamente, as condições adversas em que uma criança se crie podem influir sobre seu comportamento, mas, como se sabe, a imensa maioria dessas crianças não se encaminha para o crime.
A redução da desigualdade deve ser o objetivo primeiro de uma sociedade civilizada e digna, mas seria ilusão pensar que, com isso, a criminalidade desapareceria. Os exemplos surgem a cada momento: nas últimas semanas, noticiou-se que jovens de classe média alta estão envolvidos com o crime. É inevitável perguntar: se esses jovens nunca conheceram privações, não foram criados num ambiente de violência e têm até curso superior, por que se tornaram criminosos?
Não pretendo ter a resposta para essas perguntas, mas uma coisa é certa: o criminoso pode surgir em qualquer classe social, em qualquer meio familiar independente do nível cultural. Do contrário, como explicar a corrupção que grassa nas altas rodas, envolvendo empresários, juízes e desembargadores?
Li recentemente um artigo acerca da criminalidade entre os jovens de menor idade, em que se relatava o comportamento de um menino de nove anos de idade que havia cometido furtos e agressões. Ao chegar à delegacia, verificada sua pouca idade, foi ele solto mas, em lugar de se dar por contente, cuspiu no rosto do policial que o prendera e o ameaçou de morte. Observou o autor do artigo que esses meninos conhecem muito bem as garantias que lhes dá o Estatuto da Criança e do Adolescente e delas se valem para agir livremente sem temer punições. E levanta a questão: até onde se deverá reduzir a maioridade penal, se um menino de nove anos já age desse modo? Conclui que a solução está na família e na escola.
Essa é a conclusão (equivocada) a que muita gente chega. Claro que dar afeto e educação às crianças é o mínimo que se exige de uma sociedade civilizada. Mas não será isso que impedirá o jovem de optar pelo crime. Resumindo: ninguém sabe exatamente qual o remédio mágico que curará essa doença social. Acho que esse remédio mágico não deve ser buscado, simplesmente porque não existe.
Se não me equivoco, o problema nem sempre tem sido focalizado com clareza e uma das principais razões dessa confusão é, a meu ver, o diagnóstico errado de que a causa é apenas social, quando ela pode ser também psicológica, genética, patológica e freqüentemente vinculada ao consumo e ao tráfico de drogas. Imaginar que se reduzirá a criminalidade sem resolver o problema do tráfico é tapar o sol com a peneira.
Devemos esquecer as medidas mágicas e nos habituar com o fato de que os problemas raramente ou nunca têm soluções únicas e definitivas. Para atacá-los com êxito, é preciso pensar com amplitude, isenção, método e paciência.
Um ponto que, a meu ver, deve ser descartado é a suposição de que, se determinada lei ou agravamento da pena não reduz a criminalidade, de nada adianta agravar a punição. O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos afirmou que a pena para crimes hediondos deveria ser extinta porque sua vigência não reduzira esse tipo de crime. Se fosse assim, então deveríamos extinguir o próprio Código Penal, já que a criminalidade nunca parou de crescer.
Raciocínio semelhante conduz a opor-se à redução da maioridade penal, quando, tanto num caso como noutro, trata-se de dar à sociedade meios de se defender da ação dos criminosos. Na verdade, o critério mais justo e eficaz seria aplicar aos menores penas condizentes com a gravidade do crime praticado.
A tese de que a causa da criminalidade é a desigualdade torna o bandido vítima e a sociedade, culpada. Em função disso, criam-se leis complacentes, que estimulam a prática do crime. Não se trata, claro, de encerrar o condenado num calabouço como num inferno. O certo é fazer das penitenciárias lugar de recuperação e educação profissional do criminoso, mas suficientemente seguro para mantê-lo, pelo tempo necessário, longe do convívio social. Em suma, deve-se compreender que uma coisa é a busca de soluções a longo prazo e outra, urgente, garantir a segurança e a tranqüilidade dos cidadãos agora.
(Folha de S. Paulo, Ilustrada, 29/04/07)
(04.05.07)

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O dossiê
A gangue no poder
O escândalo do dossiê forjado contra José Serra e Alckmin deixa claro que o poder central do país está nas mãos de uma gangue. Lula, descaradamente, sugere que o dossiê é uma tentativa de "melar" o jogo eleitoral, quando todos os envolvidos no caso são gente de seu governo, de seu partido e de sua confiança. Com a mesma cara-de-pau, Marco Aurélio Garcia, o novo coordenador da campanha para a reeleição de Lula, afirma, contra todas as evidências, que "não é prática do PT ou do presidente Lula bisbilhotar os outros" e que "o PT não tomou iniciativa nessa direção". Então, quem é o PT? Um dos envolvidos no escândalo é Berzoini, presidente do partido; o outro é Freud Godoy, membro da direção nacional do partido; o outro, Bargas, membro da direção nacional e o criador da agência de espionagem do partido, e todos os demais com altas funções no PT e na campanha de Lula. Se nada disso é o PT, quem é? Quem o dirige? Trata-se, como se vê, de uma desculpa cínica para ocultar o fato, mais que nunca evidente, de que o governo do país está nas mãos de uma gangue.
(22.09.06)

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A quem interessava o dossiê?

Diante do dossiê forjado para prejudicar a campanha de Serra e Alckmin, Aloísio Mercadante, que concorre com Serra para o governo de São Paulo, declarou: "Esse dossiê não interessa a Lula, ele não iria se arriscar, estando na frente nas pesquisas, praticamente eleito".
Sem muita maldade, pode-se responder: "Mas a você, que está muito atrás nas pesquisas, interessaria desmoralizar o candidato José Serra, praticamente eleito, não?".
Realmente, essa armação do dossiê foi um golpe infeliz e burro. Mas é que o uso do cachimbo faz a boca torta.
(20.09.06)

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Freud vai ter que explicar
A perseverança do PT na corrupção é espantosa. A cada momento, temos uma nova revelação e a mais recente delas foi o tal dossiê forjado contra José Serra e Alckmin. Não foi a imprensa que descobriu a falcatrua, não foi nenhum partido político de oposição. Não, foi a Polícia Federal de Mato Grosso. Membros do PT haviam acertado com o crápula do Vedoin a montagem de uma farsa visando prejudicar os candidatos do PSDB. Dois asseclas foram surpreendidos com dinheiro vivo, parte em dólares, parte em moeda nacional, num total de quase dois milhões de reais. Um dos asseclas é do PT. Mas logo se soube que o mandante do crime é um membro da direção nacional do partido de Lula e de suas assessoria no Palácio do Planalto. Ele se chama Freud Godoy e vai ter que explicar. Mas o que disse o presidente Lula? Mais uma vez, não sabia de nada e, mais uma vez, tentou justificar a bandalheira: "É mais um desses dossiês que andam por aí". Quais dossiês? Só se sabe desse do PT, mas ele tem que confundir a opinião pública, fazer de conta que é fato corriqueiro. Está repetindo, de outro modo, a sua justificativa do caixa dois e do mensalão: "Isso todo mundo faz sistematicamente". É muita cara-de-pau!
(19.09.06)
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Inoperância
Como se bastasse a corrupção que grassa nos Correios, soma-se a isso a ineficiência: você manda as cartas e elas não chegam ao destinatário. E você pagou. Mês passado enviei pelos Correios uma nota fiscal que, mais uma vez, sumiu no caminho. Neste caso, além de ter pago por um serviço que não foi prestado, criou ainda para mim um problema contábil. A quem se queixar? A ninguém, claro, porque os telefones respondem com vozes gravadas e os responsáveis pelos órgãos são inacessíveis. Mas, se pensarmos bem, está tudo muito coerente: como poderia ser eficiente um órgão cujos diretores estão cuidando apenas de roubar o dinheiro da empresa? E o PT se dizia o partido da ética na política!
(13.06.05)

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Ministro resmunga
Gil, na condição de ministro da Cultura, teria resmungado contra o corte de verbas em seu ministério. Teria dito, segundo a imprensa: "Vamos mobilizar a República para que ela tenha um orçamento de verdade. Todo mundo reclama mas ninguém faz nada". No dia seguinte, Gil acusa a imprensa de lhe ter atribuído afirmações que não fizera: "Não me queixei de nada", declarou. Pois devia ter se queixado. As verbas destinadas ao ministério da Cultura são e sempre foram mínimas, levando o IPHAN a quase nada poder fazer para impedir a deterioração do patrimônio cultural do país. O prédio do Palácio da Cultura está se desfazendo por dentro; o da Biblioteca Nacional segue pelo mesmo caminho. Para financiar as iniciativas públicas na área da cultura, o ministério está recorrendo à lei Rouanet. A verba é pouca, pouquíssima, quanto a isto não há dúvida.
(07.03.05)

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Mentira estatística
Já mais de uma vez resmunguei contra a mania da imprensa de inflar abusivamente o número de pessoas que comparecem à queima de fogos em Copacabana durante a passagem do ano. No começo era um milhão, depois passou para um milhão e meio e em seguida para dois milhões. Como, se continuassem inflando o número em breve chegariam aos seis milhões (ou seja todos os habitantes do Rio e Grande Rio) pararam em dois milhões. Só agora surgiu na imprensa alguém para examinar o assunto mas assim mesmo porque os paulistas, seguindo o nosso exemplo, inventaram que também dois milhões de pessoas haviam participado da virada do ano da Avenida Paulista, absurdo maior ainda, já que a Paulista tem pouco mais da metade do tamanho da Avenida Atlântica. Não obstante, o autor do artigo não rejeita totalmente a mentira carioca. Para chegar, não digo a 2 milhões de pessoas, mas a 800 mil, a Atlântica teria que estar atochada de gente a ponto de não se poder andar. Eu estive lá na noite do dia 31: o número de pessoas era bem menor que nos anos anteriores, passeava-se sem dificuldades pois havia grandes claros, áreas vazias, sem contar o espaço ocupado por veículos, postos de gasolina, barracas, etc. Não havia ali, por meus cálculos mais que 300 mil pessoas. Fora isso, alguém acredita que seja possível transportar dois milhões de pessoas entre as seis da tarde e a meia-noite com os meios disponíveis? Só estando delirando. Bem, este é o país da mentira estatística, como acaba de demonstrar o IBGE.
(11.01.05)

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Dura lex sed lex?
A propósito da prisão, pela Polícia Federal, de Duda Mendonça, numa rinha de galos, o senador petista Aloísio Mercadante afirmou que se tratou de uma "armação" para prejudicar a Marta Suplicy. Vejam bem, o comandante supremo da PF é o ministro da Justiça de Lula, mas já está tão arraigada na mente dos políticos que quem é do governo está acima da lei que, quando ocorre o contrário, só pode ser coisa orquestrada... O sentido implícito na declaração de Mercadante é o seguinte: "a Polícia Federal não se atreveria, apenas para cumprir a lei, a prender o nosso Duda".
(03.11.04)

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Candidato tem que ser cândido
Pessoas condenadas em primeira instância podem ser aceitas como candidatas às próximas eleições municipais? O presidente do Superior Tribunal de Justiça, Edson Vidigal, apresentou o argumento, a meu ver, definitivo: "direito à presunção de inocência não tem nada a ver com elegibilidades de quem à falta de louvável currículo de vida só tem prontuário policial". Lembra que a palavra candidato vem de cândido, isto é, limpo.
Aliás, se alguém já foi condenado em primeira instância, a presunção que se deve fazer é de culpa e não de inocência, a menos que se considere que todo julgamento em primeira instância é, por definição, viciado. Certamente o réu tem o direito de recorrer da condenação mas que já foi condenado não resta dúvida. Se antes da condenação em primeira instância ele era, perante a lei, inocente, depois de condenado, a coisa se inverte: agora caberá a ele provar que não é culpado. Caso contrário, teremos de admitir que todo julgamento em primeira instância é suspeito e o de segunda instância, não. Mas por quê?
(23.09.04)

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Touradas
A primeira e única vez que vi uma tourada foi em Barcelona, em 1968, em companhia de João Cabral de Melo Neto. Fiquei horrizado. Uma covardia, disse eu a João, que me respondeu: "Nada disso. A tourada é a afirmação da inteligência sobre a força bruta". Retruquei que a força bruta era a do toureiro, armado de espada para matar um bicho estonteado, depois de passar vários dias no escuro. E tudo isso para as pessoas se divertirem (!?). O jornal de hoje, dia 7 de abril, informa que o Conselho Municipal de Barcelona aprovou uma moção condenando as touradas. Com isto, elas não estarão proibidas na cidade mas de qualquer modo é um primeiro passo para que o sejam um dia, que espero não tardar. A tradição das touradas é milenar mas nem tudo o que é tradição deve ser considerado bom. Esta é uma tradição lamentável.
(07.04.04)

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Terror
Bin Laden é um louco e loucos são igualmente os seus seguidores que, movidos pelo ódio, promoveram esta última matança em Madri. Mas uma tão insensata e inútil demonstração de barbárie porá sem dúvida a quase totalidade – senão a totalidade - dos povos contra eles. Atingir a Espanha foi um erro fatal. Como disse Leibniz, o que existe é o que é mais compatível com o que existe. Essa gente tem pouco a ver com a humanidade.
(15.03.04)

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Dias Gomes
Faz mais de quatro anos que morreu Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos e teledramaturgos brasileiros, autor de obras-primas como "O pagador de promessas" (teatro) e "Roque Santeiro" (televisão), e criador de alguns personagens que se integraram na vida brasileira, como Odorico Paraguaçu, Zeca Diabo e a viúva Porcina. Pois bem, até hoje ninguém se lembrou de pôr o nome de Dias Gomes em nenhum teatro, em nenhum espaço cultural, em nenhuma rua. Apelo ao prefeito César Maia e a Alfredo Sirkis (este, amigo do Dias), preocupados em homenagear John Lennon, que se lembrem do grande teatrólogo brasileiro, injustamente esquecido.
(08.01.04)

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Arte indígena
Belíssima exposição, esta dos índios Wajãpi no Museu do Índio (Rua das Palmeiras 55, Botafogo, Rio). Arte virgem, sem pretensões a genialidade, manando de fonte primeira e cristalina. Como é gratificante ver a criação visual nascer da fantasia e da imaginação poética. Boa oportunidade para muito artista pretensioso mas extraviado aprender uma lição de autenticidade e beleza. Pena que a mesma autenticidade não se reflita na montagem da exposição, que é modernosa e prejudicial à apreciação das obras, dificultando inclusive a leitura dos textos. O ambiente é escuro, soturno, desagradável, como manda a moda. Curadores, montadores de exposições, aprendam com os índios: mais vale inventar do que imitar, especialmente quando se imita mal o que já não é tão bom.
(13.11.03)

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Frango Zero
Para o povão, a melhor coisa do Plano Real foi o preço do frango (um real o quilo), que zerou a fome de muita gente pelo Brasil afora. Mas em dezembro de 2002, o preço já tinha dobrado. Agora, no décimo mês de 2003, depois de ultrapassar R$ 3,50, o frango sumiu dos supermercados. Está sendo vendido a dólar para o exterior. Será que vamos voltar à época do Barão de Itararé? Ele é autor de uma frase famosa: "Quando pobre come frango, um dos dois está doente".
(20.10.03)

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Resmungo ecológico
Sempre vi com simpatia o cuidado dos ambientalistas em salvar a vida dos animais e vegetais das regiões que iam ser inundadas para a construção de hidrelétricas. Mas também não podia ignorar o fato de que a natureza, durante os períodos de grandes chuvas e enchentes, sacrifica milhões de vidas em poucos dias. Continuo a achar que os animalzinhos devem ser salvos mas é difícil acreditar que a sua morte provocaria grave desequilíbrio ecológico. Agora, leio no JB um lúcido artigo do prof. José Carlos Azevedo em que ele observa: "Sabiam que a história geológica da Terra, que vai além de 3,5 bilhões de anos, registrou, pelo menos, cinco extinções das espécies (...) motivadas por forças naturais fantasticamente superiores às atribuídas a plantadores de soja transgênica no RS? Dizer que eles causarão 'impacto ambiental' e afetarão seres vivos é pura ingenuidade".
(09.10.03)

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A graça do futebol
Se há uma coisa que não entendo é a atitude dos comentaristas esportivos contra o uso da tecnologia atual para evitar os erros de arbitragem. Não digo todos, que seria impossível, mas os mais graves como, por exemplo, se houve impedimento ou não, se a falta ocorreu dentro ou fora da grande área. Quando tais erros ocorrem, esses mesmos comentaristas criticam duramente o árbitro que se equivocou. No entanto, quando se fala em adotar os recursos tecnológicos, são contra e justificam-se dizendo que "nisso está a graça do futebol". Se é assim, não deviam criticar o juiz que erra e, sim, o que não erra, pois este torna o futebol um esporte sem graça. E eu que pensei que a graça do futebol residisse no talento dos jogadores, nos seus dribles e gols de letra!
O mesmo comportamento adotaram alguns entendidos do futebol quando se tentou combater o anti-jogo punindo o excesso de faltas. Se não me engano foi num torneio Rio-São Paulo: o time que fizesse nove faltas era punido com uma espécie de pênalti, mais ou menos como no futebol de salão. Os entendidos se manifestaram contra, porque isto "tirava a graça do jogo". Fiquei de novo sem entender: punir deste modo o time faltoso é combater o antijogo, acabar com a mania daqueles técnicos que só pensam em "matar a jogada" com faltas. Reduzir o número de faltas, a meu ver, permitirá que os melhores jogadores possam exercer sua arte e seu talento. Mas, deixa pra lá, eu devo pensar assim porque não entendo nada de futebol.
(04.08.03)

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Frases estranhas
1
José Dirceu, chefe da Casa Civil da Presidência da República, afirmou que todos nós devemos dar graças a Deus pelo MST atuar na legalidade. João Paulo Cunha, presidente da Câmara Federal, repetiu a mesma frase. O que querem dizer? Que dos males, o menor?
2
O novo Procurador Geral da República, Cláudio Fontelles, afirmou que a ocupação de terras improdutivas pelo MST "é válida". E citou a Constituição, que determina o uso social da propriedade. Não entendo de leis, mas me parece que o propósito daquele dispositivo constitucional é dar ao Estado o direito de desapropriar o latifúndio improdutivo para efeito de reforma agrária. Não significa que possa qualquer pessoa defini-lo como improdutivo e ocupá-lo. Causa espanto tal afirmação na boca do Procurador Geral da República.
3
Já se observou que as pessoas com cargo no governo Lula têm dificuldade de se definir em face das questões: ora dizem uma coisa, ora outra, já que estão entre a pressão dos grupos que apoiavam antes e as normas legais. O que importa é que a reforma agrária seja feita, sem violência, sem maiores sacrifícios para os já sacrificados. A lei ajuda, sobretudo, o mais fraco. É uma ilusão pensar que a baderna vá beneficiá-los. Quando não há lei, vigora a lei do mais forte. Este filme já se viu mais de uma vez.
(11.07.03)

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Escolha difícil
É uma brincadeira. Sabe-se que os funcionários públicos, acreditando que a CUT está mais a serviço do governo do que deles, decidiram fundar outra central sindical, que se chamará Central Única dos Servidores Públicos. O problema foi escolher a sigla: se adotassem CUSP, o pessoal ia pronunciar "cuspe"; a outra alternativa - Central Única dos Servidores – seria ainda pior: CUS. Por isso, ficou mesmo CUP, que não se sabe o que quer dizer.
Futebol penta
A propósito dos últimos jogos da seleção e do Santos.
Pergunta: time que não consegue acertar os chutes no gol pode ganhar a partida?
(26.06.03)

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Sem pai nem mãe
Vinte e duas pessoas vão bater uma chapa de Raio X e morrem; treze pessoas vão fazer operação de catarata e ficam cegas. No primeiro caso, veneno de ratos (carbonato de bário) no contraste de nome Celobar, vendido legalmente no país; no segundo caso, a presença da bactéria Enterobacter cloacae no medicamento Methyl Lens Hypac, fabricado por uma empresa sem registro no Ministério da Saúde. Quer dizer que, além das balas perdidas que nos ameaçam a cada hora do dia, temos agora os medicamentos letais vendidos como confiáveis. Que faz a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que não vigia?
(16/6/2003)

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Devo, nego e não pago
Da Petrobras à Sadia, do Flamengo ao Santos, todos devem ao falido INSS. Dever ao INSS significa ter descontado a contribuição do salário de cada empregado e ficar com ela: a empresa se apropria indebitamente desse dinheiro e da parte sua que também teria que recolher ao Instituto. E todos esses devedores protestaram por terem sido incluídos na lista de inadimplentes que o ministro da Previdência mandou publicar. Alegam que a questão está na Justiça e, por isso, enquanto não houver decisão judicial, não se pode dizer que devem um tostão ao INSS. E como todas as empresas que não pagam ao INSS recorrem à Justiça, não há devedores. Um milagre da lógica: não pagam o que deveriam pagar e, não obstante, não devem!
Dizem os especialistas que esta é uma tática muito lucrativa, uma vez que a Justiça leva anos para decidir e, enquanto não decide, as empresas ganham um dinheirão às nossas custas. Depois de algum tempo, vem um novo governo, renegocia a dívida, dispensa as multas, as correções e alarga ainda mais o prazo para pagamento parcelado a perder de vista. Um negócio da China. Só bobo paga ao INSS.
(16.05.03)

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Falar correto
Resmunguei aqui contra ilustres figuras que vivem atropelando a língua na televisão e nos jornais. Não se trata de caturrice de gramático que não suporta o menor desrespeito à "norma culta". Que brasileiro analfabeto ou semi-analfabeto diga "nós vai", tudo bem. Mas que jornalistas, escritores, deputados e até ministros estropiem a língua, não se justifica. Quem pertence à faixa "culta" da sociedade deve seguir a "norma culta" do falar e do escrever. Mesmo porque nós, poetas, temos que defender as regras lingüísticas para podermos violá-las criativamente. Se a língua vira a casa-da-mãe-joana, o ofício do poeta perde o sentido...
(06.05.03)

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Barulho oficial
Todo mundo sabe que vivemos numa cidade onde a urbanidade é vista como caretice. O sujeito pára o carro debaixo de nossa janela às onze da noite, liga o rádio no máximo, e se formos reclamar corremos o risco de sermos agredidos por impertinência. Pois em meio ao barulho provocado pelo cidadão mal educado e das buzinas e das motos e dos ônibus, há ainda o barulho oficial das sirenes dos carros da polícia e do Corpo de Bombeiros. Nada é mais estressante, desesperador, que uma dessas sirenes, que deixam todo mundo atordoado, a ponto de provocarem acidentes entre os demais motoristas. E não há necessidade de sirenes tão altas e estridentes. Por isso, faço um apelo às autoridades responsáveis (chefe de Polícia? comandante do Corpo de Bombeiros?) para que mandem abaixar um pouco o som de tais sirenes e assim contribuam para reduzir a poluição sonora na cidade do Rio de Janeiro.
(29.04.03)

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Barulheira
A coisa mais difícil hoje em dia é encontrar um lugar silencioso. Além do barulho habitual das ruas – agravado pelas sirenes da polícia e das ambulâncias numa altura que supera qualquer outra fonte de poluição sonora – decretou-se que todos adoramos música e que por isso deve haver música em todas as partes: no supermercado, no restaurante, no bar, na praia, no corredor do hotel. Um dos poucos lugares onde havia silêncio era nos museus... Havia, porque não há mais: inventou-se agora que só se pode ver artes visuais com música de fundo! Os diretores de museus e os curadores ainda não se deram conta de que pintura, escultura, gravura, desenho são artes do silêncio. Certamente nunca ouviram falar na célebre obra de André Malraux Les voix du silence. Trata-se de um livro sobre as obras de artes plásticas de todos os tempos. Pois é, são obras silenciosas que nos falam em silêncio e precisam dele para se fazerem ouvir.
(07.03.03)

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Ainda o Guggenheim
Meu amigo Paulo Casé escreveu em "O Globo" (10/2) um artigo defendendo a construção da filial do Museu Guggenheim na zona portuária do Rio de Janeiro. Alega que ninguém deve ser opor ao projeto por ser de autoria de um arquiteto estrangeiro, com o que concordo plenamente; alega também que a alta soma a ser investida na construção do museu será recompensada em dobro com a ativação daquela área urbana hoje praticamente morta - o que pode ser verdade ou não, dependendo de fatores que nem eu nem ele podemos determinar. O que o nosso arquiteto não explica é por que razão este museu - que será construido e mantido com nosso dinheiro - tem que se chamar Guggenheim. Tampouco, leva ele em conta o fato de que, poucos dias antes de seu artigo, a imprensa noticiou a absoluta carência de verba para recuperar o edifício do MAM do Rio. Não seria mais sensato, em vez de construir um novo museu, tentar salvar o que existe e que é uma das mais belas obras de arquitetura moderna brasileira?
(11.02.03)

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Enquanto é tempo
O Museu Guggenheim de New York tornou-se famoso por sua sede (projeto de Frank Lloyd Wright) e por seu acervo, que compreende obras de Mondrian, Malevitch, Klee, Picasso, Modigliani, Chagall, Miró, entre muitos outros grandes nomes da arte contemporânea. Guggenheim, portanto, não é uma marca. O uso deste nome por outro museu não o torna, apenas por isso, uma instituição cultural importante.
Não obstante, pretende-se construir no Rio, com o nosso dinheiro (cerca de 700 milhões de reais), um museu com o nome Guggenheim. Seria eu a última pessoa do mundo a se opor à construção de um museu de arte, como seria também a última pessoa do mundo a concordar com semelhante exemplo de submissão ao colonialismo cultural. Se vamos arcar com a construção do museu e sua manutenção, por que pôr nele um nome que nada tem a ver com a arte brasileira? É confundir arte com hot dog.
Mas este é somente um aspecto da questão; há outros. Que sentido tem construir um novo museu de arte moderna no Rio, quando o existente mal consegue se manter? Pelo estudo de viabilidade já feito, o tal museu necessitaria de 260 mil visitantes/mês para cobrir seus gastos de manutenção, meta inalcançável. Conseqüentemente, pagaremos o prejuízo, temos grana sobrando, não é?
O Museu Guggenheim de New York foi construído para conservar e expor a coleção de Solomon R. Guggenheim; este que se quer construir aqui não tem o que guardar. Ao contrário do Museu Imaginário de André Malraux, constituído apenas de obras-primas, este não terá obras; terá somente paredes.
Alega-se que em Bilbao, na Espanha, foi construída uma filial do Guggenheim. Sucede que o Rio de Janeiro não é Bilbao, não precisa disso para chamar a atenção dos turistas.
(21.01.03)

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Enrolando a língua
Leio com freqüência coisas assim: "as milhões de pessoas"... Me digam, milhões agora é feminino? Ah, é porque se trata de pessoas? Ao que saiba, a palavra milhão, como a palavra litro ou dúzia, indica quantidade: um milhão de alguma coisa; não é isso ou eu estou atrasado? Será então que devemos dizer uma litro de água, por que água é feminino e dois dúzias de ovos porque ovo é masculino? Devo insistir no uso correto da língua ou isto é coisa ultrapassada? Confesso que ando meio confuso.
(09.01.03)

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Prisão
Não faz muito tempo, vi na televisão um debate em que eminentes advogados e juristas manifestavam-se contra a pena de prisão. Também acho que submeter uma pessoa à prisão é um castigo medieval. Por isso mesmo penso que não tem sentido prender um sujeito que deu desfalque numa firma ou furtou comida num supermercado. A pena, nestes casos, deveria ser a prestação de serviços sociais. Mas e o Elias Maluco, que matou um jornalista a golpes de espada, depois mandou cortá-lo em pedaços e queimá-lo? E o Fernandinho Beira-mar, que ordena a execução de desafetos pelo telefone? E o Tarado do Parque, que estuprou e matou quase vinte moças em São Paulo? Que fazer com eles? Deixá-los soltos para que continuem a matar e estuprar? Infelizmente, os ilustres causídicos exibiram o seu espírito aberto, anti-repressivo, mas esqueceram-se de dizer que providência deve tomar a sociedade para se defender dos criminosos violentos.
(03.01.03)

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Testemunho
O livro de Elio Gaspari, "As ilusões armadas", parece comprovar que o alto comando militar da ditadura de 64 tinha pleno conhecimento da prática de tortura contra os prisioneiros políticos. Pois bem, quando conheci a câmara de tortura do DOI-CODI no quartel de Polícia do Exército na Rua Barão de Mesquita, não tive dúvida de que a tortura havia sido institucionalizada pelo regime. A câmara parecia um estúdio de gravação, com portas duplas e revestimento acústico para que não se ouvissem os gritos dos torturados; a meia altura, havia uma janela de vidro "cego", que só permitia a visão de fora para dentro; um equipamento de ar refrigerado submetia o prisioneiro a um frio insuportável enquanto caixas de som emitiam, quando necessário, ruídos ensurdecedores para desnorteá-lo e minar-lhe as resistências. Pensei comigo: num quartel do Exército ninguém muda um retrato de lugar sem ordens superiores, imagine construir uma câmara de tortura sofisticada como esta...
(10.12.02)

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