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A pirataria de livros no Peru
Felipe Pontes · Rio de Janeiro (RJ) · 20/1/2010 11:28
O jovem autor peruano Daniel Alarcón (33) - radicado, querido e premiado nos Estados Unidos, onde é escritor convidado da Universidade de Mills, na Califórnia - esteve em Lima durante o mês de março de 2008 e de lá trouxe o relato sobre a indústria da pirataria de livros no Peru, publicado na edição 109, de dezembro de 2009, da revista Granta. Entenda-se indústria no sentido literal:

"Embora a pirataria de livros exista em toda América Latina e mundo em desenvolvimento, qualquer editor com experiência internacional na região lhe dirá que o problema do Peru é ao mesmo tempo único e profundo. De acordo com a International Intellectual Property Alliance (Aliança Internacional de Propriedade Intelectual), a indústria editorial local perde mais dinheiro para a pirataria do que qualquer outro país sul-americano, com a exceção do Brasil - cuja economia é mais de oito vezes maior que a do Peru. Um relatório de 2005 encomendado pela Cámara Peruana del Libro (CPL), um consórcio nacional de editoras, distribuidoras e livreiros, chegou a conclusões ainda mais alarmantes: os piratas empregam mais gente do que editores e livreiros, e seu impacto econômico total foi estimado em 52 milhões de doláres americanos - ou quase o equivalente a cem por cento de todo o faturamento da indústria legal. Os piratas operam em plena luz do dia: vendedores se acumulam nas ruas da capital, carregando pilhas pesadas de livros enquanto deslizam pelo trânsito parado, ou abrindo um pedaço torcido de lona azul na calçada, expondo seus produtos na esperança de que todos vejam. Você pode encontrá-los em frente a colégios, institutos e prédios públicos, ou vagando pelas vielas onde a maioria do limeños fazem suas compras... Às margens desse negócio estão os ladrões, bandos de hábeis gatunos especializados em roubar livros, pescando nas maiores feiras, atacando todas as livrarias oficiais e suprindo um mercado de revenda vibrante com os seus chamados libros de bajada. Há também os próprios piratas, os fabricantes informais de livros, cujas sobrecarregadas e antigas gráficas estão escondidas em casas não identificadas de favelas por toda cidade. A maior dessas operações pode fabricar algo em torno de 40 mil volumes por semana, e por causa da sua melhor distribuição, os piratas podem vender até três vezes mais cópias de livros do que pode um editor autorizado. Para um best-seller como [Paulo] Coelho, a cifra pode ser ainda maior."

O trecho livremente traduzido pode passar a impressão de alarmismo exagerado, mas o relato de 11 páginas não se restringe a condenar a prática da pirataria, numa atitude estritamente reacionária. De fato, o ensaio faz uma extensa análise compreensiva de todos os agentes envolvidos na indústria editorial peruana, ao melhor estilo do jornalismo literário. Aponta, por exemplo, como é inexistente qualquer política relacionada ao estabelecimento de bibliotecas no Peru, o que obriga a população a se virar.

Acompanhou Alarcón em sua investigação sobre a pirataria de livros no Peru a fotojornalista peruana Claudia Alva. Algumas imagens produzidas por ela ilustram a reportagem na revista Granta, outras foram selecionadas para o ensaio fotográfico publicado na versão on-line do jornal britânico The Guardian.

A Granta, centenária revista de ensaios (ficção e não-ficção) britânica, dedicada exclusivamente a jovens escritores, é traduzida no Brasil desde 2007. Enquanto os textos veiculados na edição 109, toda composta sob o tema 'trabalho', não surgem em versão brasileira, pode-se praticar o inglês no site oficial da revista, o qual traz não só o ensaio de Daniel Alarcón na íntegra, como também o relato do taxista carioca Antonio Oliveira Ruvenal sobre o seu trabalho nas ruas da cidade maravilhosa, este disponível unicamente on-line.

>Leia o ensaio Life Among the Pirates, de Daniel Alarcón, na íntegra [em inglês] no site oficial da revista Granta.

>Veja o ensaio fotográfico da jornalista Claudia Alva sobre a industria editorial pirata peruana no site do jornal The Guardian.


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