Do trivial ao pitoresco e, deste, ao fabuloso, vai um passo, no caso aqui, um vôo; de pássaro. Pássaros sempre foram emblemáticos de algo menos cotidiano que eles. Dinossauros eram pássaros. Tenho voado baixo e curto pela vida e hoje me sinto dinossauro, contemplativo do trivial, herbívoro em apetites. Em processo moroso de extinção, minha presença não comove, não molesta. Não pia. Às vezes, enlouqueço, só.
Quando a viuvez dilata o espaço, uma aposentadoria, também precoce, dilata o tempo e quando a geografia urbana, por sua vez, comprime o habitat de um homem, o dinossauro do vinte e dois vira ornitólogo, menos por diletantismo que por sobrevivência psicológica. Jardinagem que não seria, nem filatelia já que gosto de olhar para o fora, para o vasto possível de se ver do meu apto.22. É de onde me resta ser apto para evitar a tortura do ruído mais escandaloso, o do relógio de pulso. Portanto, como bom meirinho que fui, convoco gentilmente o trinado que resiste em volta de meu engradado. Solicito-lhes o piado, o farfalhar e toda a algazarra polifônica que, outrora, vicejava aqui, que era um grande pomar cheio de árvores seculares e veios d’água, hoje, vingados em esquadrilhas de pernilongos e na umidade que causou minha rinite crônica.
Antes de mais nada, o extinto pomar frondoso vingou-se pelo irritante e monocórdio piado do pardal, cujo estilo taquigráfico passou a predominar sobre o das maritacas, saíras e bem-te-vis, seus muito eventuais coadjuvantes. Não me incomoda na escuta, já seletiva, nem no meu esforço de classificação.
Mas criou um caso com a senhora da casinha geminada que, isso sim, exigiu-me intervenção vigorosa e, sobretudo, operou a passagem do pitoresco ao fabu
Autoria
Marco Antônio de Araújo Bueno
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Conto que concorreu ao prêmio "off Flip"/2008; teria ficado entre os trinta finalistas...
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