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Finalmente, uma novela com conteúdo
romance/livro de Maurício Azevedo
 
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Editora Plus, Porto Alegre (RS) · 1/8/2009 · 103 votos · 2

Editora: Editora Plus
Lançamento: 1/8/2009
Preço médio: grátis
Lançada em formato eletrônico e gratuito, a novela Em Todo Caso, do autor Maurício Azevedo, saiu nessa semana em nova versão, para leitura no celular, juntamente com outros 4 livros da Editora Plus. Livros eletrônicos, gratuitos, e agora para leitura em celular, são assuntos que por si mesmos geram polêmica entre os leitores. Mas ainda há mais polêmica pela frente: o texto de Em todo caso.

A história se desenrola em São Paulo, cenário adequado para uma trama onde a distância entre as pessoas e a frieza do espaço pode ser sentida facilmente. A trama é curta e concisa, voltada sobre um único foco. Essa é uma das definições literárias mais comuns para caracterizar uma novela, e certamente serve muito bem para Em todo Caso. Porém, o foco está longe de se concentrar em um único fato, ou no seu protagonista, como parece à primeira vista, da mesma forma como em A morte de Ivan Ilicht. O foco, nessas duas novelas, é a doença do protagonista. No texto de Dostoiévski, Ivan, um jurista empenhado no sucesso da sua carreira, é lenta e dolorosamente consumido por uma grave enfermidade, que o corrói por dentro e o obriga a mudar sua visão de mundo, diante da morte certa. No texto de Maurício Azevedo, o protagonista, Álvaro, é um sociopata, e sua doença, psíquica. Álvaro convive absolutamente bem consigo mesmo, embora seja um misógino, pedófilo e terrorista, um sujeito sórdido e pusilânime, detestável sob todos os aspectos - o que o torna uma verdadeira pérola do humor negro, em inúmeras passagens do texto. E o pior: ele não teme, mas sim, deseja a morte. E legítimo filho do seu tempo, uma morte espetacular. A corrosão provocada pela sua doença social ataca impiedosamente os leitores e nossa visão da realidade, desconstruindo a todo momento qualquer ilusão de que o mundo seja um bom lugar para se viver, ou que as pessoas tenham alguma consciência sobre o que ocorre ao seu redor.

A novela alterna a narração do protagonista, ativa e descritiva, com outra narração, passiva, onde lemos o que aparentemente se passa diante dos olhos de Álvaro. O leitor deve ser cauteloso, uma vez que a realidade vista através dos olhos desse protagonista vil pode ser uma experiência dolorosa para muitos leitores, desacostumados ao estilo que lembra Michel Houllebecq. Todos nós temos uma opinião formada sobre acidentes aéreos, preconceito racial, religioso, machismo, o que é ser gaúcho, violência contra a mulher, pedofilia, cinema... e a novela ataca justamente o que pensamos sobre tudo isso, provocando uma reflexão sobre os poderes do tempo em que vivemos: sua capacidade de separar as pessoas, desumanizar e mudar bruscamente nossas vidas, sem nenhum aviso.

O autor aproveitou a falta de caráter de seu protagonista para incluir críticas ferinas à sociedade, como é tradição da escola francesa. Muitos foram os contemplados. Dois internautas, um gaúcho e outro não-gaúcho, discutem quem ganhou a Revolução Farroupilha. Um delegado faz vista grossa para um crime mais que evidente. A recente capacidade brasileira para derrubar aviões repletos de passageiros também se faz presente. O desprezo pela família e pelas pessoas está marcado em todo o texto, marcando a história como manchas de gordura em papel sujo. E essa é apenas uma breve descrição das sombras sobre as quais Maurício Azevedo acende o facho, embora a chama não traga purificação alguma.

O risco de cair no estereótipo foi grande, com um protagonista tão flagrantemente pusilânime e obtuso. O resultado prova esse não foi o caso. A novela é ágil, o protagonista intriga e surpreende, revelando que são muitos os degraus que levam o homem à vilania.

tags: Porto Alegre RS literatura livros ebooks ebook livro
 
Particularmente, faz pouco tempo que ouço falar de trabalhos assim poraqui. A expansão do mercado de novas mídias pode ajudar a mudar a concepção da literatura elitista no Brasil.

Kaos outonal · Belo Horizonte (MG) · 3/8/2009 16:43
Ótimo! Mais uma, então. Viva!

Adroaldo Bauer · Porto Alegre (RS) · 23/4/2010 17:15
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