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O som do pasquim
não-ficção/livro de Tárik de Souza (org.)
 
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Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 3/3/2009 · 124 votos · nenhum
  

Editora: Desiderata
280 pp
ISBN 978-85-99070-74-1
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Lançamento: 1/1/2009
Preço médio: R$ 39,90
Onde encontrar gente tão díspare como Martinho da Vila, Agnaldo Timóteo e Tom Jobim, Waldick Soriano e Chico Buarque, Luiz Gonzaga e Lupício Rodrigues, Moreira da Silva e Raul Seixas? Nos anos 1970, eles se reuniam nas páginas do hebdomadário carioca Pasquim, nas irreverentes e despojadas entrevistas que seriam modelo de linguagem coloquial, descompromisso, cara de pau, ao mesmo tempo em que tratava de coisas as mais sérias, como a censura às letras de música, a questão dos direitos autorais, as trajetórias incríveis de alguns dos entrevistados, revelações bombásticas, além de cabecismos em divagações protofilosóficas e metidas a besta - caso de Caetano Veloso, na entrevista mais chata e metida a séria.

Lançado em 1976 pela Codecri, Comando de Defesa do Crioléu, inventivo nome dado por Henfil à editora que nasceu do Pasquim, O som do Pasquim (que sai agora pela Desiderata) reunia essa turma citada aí em cima e mais outras três entrevistas, que não foram liberadas para esta reedição, todas belissimamente ilustradas com caricaturas de Nássara. Que Roberto Carlos não tenha liberado a sua, é compreensível, já que o cantor mais popular de Pindorama mandou queimar uma biografia sua no final do século passado, além de censurar outra recentemente, Roberto Carlos em detalhes (Planeta), de Paulo César Araújo. No prefácio de Tárik de Sousa, o mesmo prefaciador e organizador da obra original, ficamos sem saber, porém, o que levou Maria Bethânia e Ângela Maria a proibirem a republicação da entrevista.

Os momentos memoráveis destas conversas passam pelo machismo exacerbado de Soriano, falecido recentemente e tema de um belo documentário dirigido por Patrícia Pillar; pela vida dura de Gonzagão, que tocava no baixo meretrício carioca, a região do Mangue, para levantar algum no começo da carreira; o gaúcho Lupicínio Rodrigues explicando como sua música chegava ao Rio, através dos marinheiros e considerando-se boêmio acima de tudo; Tom Jobim revelando um pouco de sua incipiente vida sexual, além de contextualizar e minimizar seu contato com Frank Sinatra; Kid Morangueira, o Moreira da Silva, revelando que comprou um de seus maiores sucessos, "Na subida do morro", de Geraldo Pereira, elogiando Nelson Cavaquinho e espinafrnado Roberto Carlos ("Um otário que nasceu pra milionário"), além de declarar-se a favor do Esquadrão da Morte, em plena ditadura.

Como dito acima, todos as entrevistas havia sido publicadas no Pasquim entre 1969 e 1973; a exceção foi Chico Buarque, que solicitou nova entrevista, pois acreditava estar aquela "desatualizada". Lendo o papo, deduz-se que Chico queria falar da censura que suas músicas vinham recebendo, do pau que o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) deu nos atores da peça Roda Viva, escrita por ele, do porque ter ido para a Itália.

Mas o papo, nesse caso regado a Fernet branca e chope, também rendeu momentos hilários, como as provocações de Ivan Lessa a Jaguar, a sinceridade deste ao tachar "Roda Viva", a música, de chata, e a recordação de Chico dos tempos em que foi preso roubando carro em São Paulo, cujas fotos da detenção foram parar na capa de seu disco Paratodos, de 1993. Essa entrevista você confere na íntegra ao lado.

E fica aí a história e a estória de uma irrevêrencia nestes bate-papos informais, ao mesmo tempo em que abordam os principais temas do período, e que pouco habitam as páginas da imprensa de hoje, restando algum suspiro na internet, local cada vez mais propício para tal, com sua infinita capacidade de espaço. Aliás, foi o que intentamos nesse longo bate-papo, regado a cerveja e steinheager, com Jaguar, que você lê aqui ou assiste aqui.



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