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A alma encantadora das ruas
não-ficção de João do Rio
 
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j., Rio de Janeiro (RJ) · 5/10/2008 · 75 votos · 1
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Lançamento: 1969
Leia: "A alma encantadora das ruas" e a crônica "O homem de cabeça de papelão", de João do Rio.


Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

José Antônio José, Godofredo de Alencar, Joe, Claude... Quem foram? Todos eram João do Rio, outro pseudônimo do contista, romancista, autor teatral e jornalista carioca João Paulo Emílio Coelho Barreto. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga de Guimarães Passos e redator de jornais importantes, como Gazeta de Notícias e O País, além de fundador do diário A Pátria, que dirigiu até falacer, em 1921. Deixou livros essenciais como os que publicamos hoje na seção Relançamentos e a crônica, que vocês poderão conferir em nosso Banco de Cultura. João do Rio é a chave para que se compreenda não apenas parte vibrante da história do Rio de Janeiro mas também para que se aprecie a alma de ruas cheia de vida – de qualquer cidade, de qualquer país.

***

JOÃO DO RIO -1881 - 1921

"Com o desapparecimento de Paulo Barreto perde o Brasil, sem duvida, uma das mais estranhas e por isso mesmo talvez, mais empolgantes, das suas organisações literarias. Delle poder-se-á dizer com justiça que era em tudo e antes de tudo, como escriptor, um estheta na mais perfeita accepção do vocabulo. O que Olavo Bilac realizou na poesia, João do Rio o foi em nossa prosa contemporanea: a emoção feita estylo para dominio dos sentidos.

Não seria decerto um pensador, mas um artista, impondo-se menos pelo peso dos conceitos do que pela graça e leveza dos proprios pensamentos, a que a phrase incisiva, nervosa e scintillante, communicava, todavia, grande movimentação e emprestava sempre intenso brilho. Dahi, dessa arte que, até certo ponto, constituia uma originalidade em nosso meio, tirava o privilegiado publicista patricio o melhor dos seus effeitos literarios. (...)

João do Rio não foi, em verdade, um commentador grave de homens e coisas, sendo muito embora um observador, por vezes agudo demais. Dir-se-ia que, a despeito da percuciencia da sua visão, elle se comprazia em deixar de lado, propositadamente, tudo o que não encontrasse de banal ou de grotesco no seu exame, para, assim, melhor dar expansão ás suas tendencias incontrastaveis de espirito entre leve e picaresco, e sempre bem humorado de mais para desdenhar das glorias de critico de futilidades. A esta conformação comsigo mesmo deveu, sem duvida, João do Rio os seus inexcediveis triumphos de chronista mundano e reporter... (...)

Onde a vibração da massa pedisse alguem para transmittil-a, ahi estava João do Rio. No seio do povo colhia elle as emoções da sua fonte; registrava-as todas, com o poder retentivo sorprehendente e sem esforços mnemonicos se as transmittia a si mesmo, para, depois de processal-as, apurando-as, em seu engenho, communical-as a nós outros, harmonicas, luminosas e trepidentes.

Nisto, os seus talentos não o trahiam nunca e elle o fazia com amor e convicção. A sua arte era, assim, não só bella, mas sincera. A fantasia, conquanto sua collaboradora, entrava ahi apenas como elemento de realce; não lhe sacrificava a obra, sentida e verdadeira, máo grado os paradoxos que iam por ella para confirmar- quem sabe? - no fundo, a individualidade do seu autor. (...)" Rio Jornal, 24 de junho de 1921.


tags: Rio de Janeiro RJ blogs joao-do-rio
 
Há pouco tempo conclui uma pesquisa com a biblioteca do João do Rio. Já conhecia os livros e algumas crônicas dele, porém a experiência de "ler" a Biblioteca dele foi algo revelador, pois foi possível perceber o quanto ele, como bom jornalista que era, se dedicava a determinado assunto que pesquisava antes de fixar a letra. Há uma tese incrível da Dra. Virginia Camiliotti que trata do perfil de JR nos livros de cariz psicológico, como a pesquisadora também teve acesso aos livros do JR pode fazer uma bela análise. Fico imensamente feliz em ver presente nas livrarias aqui do Rio cada vez mais edições dos livros do JR. Ele de fato merece voltar a ser lido!Salve!

Cataldo · Rio de Janeiro (RJ) · 17/2/2010 10:12
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